15 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Rosemary's Baby" (A Semente do Diabo)

 Quando tiver de arrendar casa a alguém sei que não será de certeza a Roman Polanski que irei pedir conselhos. Depois de deixar Carol Ledoux (Catherine Deneuve) à beira da loucura, isolada no interior do apartamento onde vive com a sua irmã em "Repulsion", este prepara-se para deixar a protagonista de "Rosemary's Baby" em momentos de verdadeiro pavor e paranoia na sua nova casa, numa obra onde o mistério e o terror estão muito presentes. "Rosemary's Baby" é considerado o segundo filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski, com esta a ficar completa com "The Tenant", uma obra onde o protagonista, um homem solitário, entra numa espiral descendente desde que toma conhecimento da brutal tentativa de suicídio e morte da antiga arrendatária do apartamento que acabou de alugar. Em "The Tenant", tal como em "Repulsion" assistimos ao personagem principal a exibir uma paranoia crescente, quase a beirar a loucura, tendo ainda de lidar com vizinhos peculiares, um pouco como acontece em "Rosemary's Baby", com Polanski a revelar-se mais uma vez exímio a explorar histórias marcadas pela estranheza. O enredo de "Rosemary's Baby" começa em 1965 e acompanha Rosemary Woodhouse (Mia Farrow), uma jovem algo naïve e delicada, e Guy (John Cassavetes), o seu esposo, um casal que se decide mudar para um apartamento localizado num prédio marcado por episódios macabros, mas com enorme espaço e condições que parecem ideais para ambos terem um bebé. A felicidade inicial e a mudança começam desde logo a ser conspurcados pelo terror quando Terry Gionoffrio (Angela Dorian), uma antiga toxicodependente que vive junto de Minnie (Ruth Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer), um casal de idosos aparentemente simpático que habita no mesmo prédio dos protagonistas, suicida-se após parecer estar tudo bem consigo. Minnie e Roman começam a formar amizade com Guy e Rosemary, embora esta última não confie lá muito nestes dois idosos. Roman é um indivíduo já perto dos seus oitenta anos, bem falante, bastante viajado, enquanto Minnie é intrometida, sobressaindo pela sua personalidade demasiado prestável e roupas de cores extremamente garridas. O primeiro jantar na casa dos Castevet não parece correr bem, nem mal, mas Guy fica algo fascinado com as histórias de Roman, prometendo regressar no dia seguinte. É então que Minnie oferece mousse de chocolate ao casal, com Rosemary a desmaiar pouco tempo depois. Entramos numa cena típica do melhor Polanski, próxima de um pesadelo, onde não sabemos se estamos perante a realidade ou a ilusão, onde Rosemary aparece despida e um culto onde constam o seu esposo, os Castevet e outros vizinhos acompanha-a enquanto o Diabo regressa temporariamente à Terra para a possuir. Está o caldo entornado. Esta acorda arranhada mas pensa que foi um pesadelo, com o marido a revelar que teve sexo com ela apesar desta estar inconsciente, algo que mais tarde descobrirmos ser uma mentira. Pouco tempo depois surge a notícia de que Rosemary está grávida para alegria de todos, incluindo dos seus vizinhos, com Minnie a recomendar que esta troque de obstetra, passando para os cuidados de Dr. Abraham Sapirstein (Ralph Bellamy), um médico reputado da confiança dos Castevet. Este é um indivíduo de figura estranha e suspeita que recomenda à jovem mulher que consuma os sumos vitamínicos de Minnie ao invés de medicamentos, enquanto os Castevet apresentam comportamentos cada vez mais protectores em relação a Rosemary e Guy finalmente começa a ter sucesso como actor. O candidato que iria ficar com o papel para o qual Guy concorreu cegou repentinamente, enquanto Hutch (Maurice Evans), um escritor e amigo de Rosemary que percebe que algo está de errado com a protagonista e aqueles que a rodeiam, acaba por entrar em estado de coma e morrer três meses depois. Rosemary começa a ficar cada vez mais magra e pálida, com as dores a serem mais do que muitas, começando aos poucos a desconfiar de todos os que a rodeiam, tal como nós, sobretudo quando recebe um livro deixado como herança por Hutch sobre bruxaria que indica que Roman é na realidade Steven Marcato, o descendente de um dos bruxos que habitou o edifício.

 Em quem Rosemary deve confiar? Estará Guy envolvido no complô? O que se passa com a sua gravidez? Aos poucos as dúvidas deixam Rosemary num estado a roçar a loucura e paranoia, enquanto ficamos na dúvida se esta está mesmo rodeada de elementos ligados a bruxaria ou apenas a delirar, com Roman Polanski a gradualmente desfazer-nos as possíveis questões e deixar-nos perante uma obra onde o oculto e o macabro surgem muito presentes. Rosemary considerava inicialmente este apartamento como o local perfeito para viver, mas logo esta habitação espaçosa se torna sufocante, com as descobertas que a protagonista faz sobre a bruxaria e os vizinhos a assustarem-na gradualmente até "Rosemary's Baby" nos colocar perante um último terço arrepiante. Nunca chegamos a ver o bebé do título, mas todo a protecção dos Castevet revela-se sinal de que esta carrega em si o descendente do Diabo, com o seu corpo a ser consumido enquanto tudo e todos a parecem querer fazer passar por louca. Ruth Gordon tem uma interpretação exemplar como Minnie, uma idosa aparentemente zelosa e simpática, sempre pronta a preparar sumos vitamínicos para Rosemary e a aparecer nos momentos mais delicados. Se nos cruzássemos com esta idosa na rua provavelmente nem desconfiaríamos da mesma ou se fossemos mais más línguas talvez reparássemos e comentássemos sobre as suas vestes berrantes mas nada nos deixaria a pensar nos segredos que esta guarda. Esta interpreta a esposa de Roman, com Sidney Blackmer a atribuir sempre algum mistério ao seu personagem, um indivíduo que forma uma estranha amizade com Guy que gradualmente parece ter influência no súbito sucesso deste último. Guy é um actor que vive de trabalhos em anúncios televisivos e peças de teatro, demorando mais tempo do que esperava a atingir o estrelato, parecendo disposto a tudo para conseguir os seus objectivos, incluindo entregar a sua esposa a uma entidade demoníaca, com John Cassavetes a conseguir expor a ambiguidade deste personagem ao mesmo tempo que Roman Polanski parece efectuar uma crítica à ambição existente em Hollywood. O personagem interpretado por Cassavetes parece um bom marido, apesar de um ou outro episódio menos feliz, mas aos poucos percebemos que é mais um dos muitos elementos que escondem segredos no interior de um prédio que alberga um grupo de seguidores de um culto satânico. A banda sonora e a sonoplastia incrementam a tensão e o suspense em volta dos acontecimentos que rodeiam Rosemary, com Roman Polanski a voltar a utilizar de forma exímia o som em conjunto com as imagens, algo que já efectuara com enorme sucesso em "Repulsion". Se a personagem interpretada por Catherine Deneuve em "Repulsion" era paranoica e esquizofrénica, já Rosemary tem razões para estar assustada, com as pistas que vai descobrindo a assustarem-na e a colocarem-nos em sentido. Será que esta mulher se vai salvar? Porque fica tão pálida e emagrece com a gravidez? Qual a verdadeira razão para as dores das quais padece? Estará louca? Em quem devemos acreditar ao longo de boa parte do filme? Os indícios dizem-nos que está por ali bruxaria e satanismo a rodear a protagonista e aos poucos percebemos que é mesmo isso, enquanto Mia Farrow brilha como esta frágil personagem que lida com questões ligadas com a maternidade e o sobrenatural. Rosemary nem é assim tão frágil já que consegue aguentar uma gravidez dolorosa, mas parece confiar inicialmente em demasia na boa vontade de todos e no marido, algo que lhe promete trazer gravosas consequências.

A protagonista ainda tenta não beber os sumos da vizinha e mudar de médico para se proteger a si e ao seu rebento, mas o marido não a deixa efectuar estas mudanças, parecendo certo que Guy também fez um pacto ou então Rosemary estará mesmo louca. Mia Farrow consegue expor-nos a candura inicial da sua personagem, até a fazer descer gradualmente ao abismo. Aos poucos deixa-nos perante uma maior fragilidade física de Rosemary, adensada não só pelos gestos corporais da actriz mas também pelo trabalho de caracterização. Fica pálida, emagrece, não perde a compostura e elegância mas parece ver a vida a esvair-se com as dores de que padece. Roman Polanski não poupa esta personagem a umas quantas agruras e sofrimento, tal como nos inquieta de forma incessante ao longo desta obra cinematográfica baseada no livro de Ira Levin. O cineasta demonstra mais uma vez a sua enorme capacidade em criar a paranoia junto da sua protagonista e do espectador, ao mesmo tempo que nos cria duvidas sobre o que se passa em volta de Rosemary, deixando-nos a descobrir com esta os segredos que a rodeiam (apesar de parecer sempre claro que algo de errado se passa em volta dos elementos que rodeiam a protagonista). Iria repetir essa técnica mesmo em thrillers como "Frantic", colocando-nos quase no mesmo pé de igualdade do protagonista, embora em "Rosemary's Baby" os indícios sobrenaturais sejam mais do que muitos. A própria iluminação contribui para incrementar o tom misterioso do filme, com a cena da violação a ser marcada por uma atmosfera inebriante, simultaneamente sedutora e macabra, onde o erotismo surge associado à violência e a uma entidade demoníaca prepara-se para deixar o seu descendente na Terra. "Rosemary's Baby" surge assim como uma obra marcada por enorme paranoia, reviravoltas surpreendentes, elementos macabros, bruxaria e alguns sustos. Não daqueles sustos de ficarmos a berrar e a tapar a cara com os dedos bem abertos. É do medo gradual que vamos formando. É do medo que sentimos pela personagem principal. É do receio que temos ao ver esta a tocar no berço. Não conseguimos ficar quietos, queremos saber mais embora saibamos que não vêm aí boas notícias num filme que nos dá alguns dos pormenores do melhor Roman Polanski. O cineasta revela-se capaz de criar toda uma atmosfera opressora, aproveitando mais uma vez o espaço de um apartamento ao serviço do enredo, transformando este espaço idílico num antro maléfico onde a perdição parece o caminho mais certo (o aproveitamento paradigmático dos cenários e a criação de uma atmosfera que gradualmente fica mais intensa são imagens de marca do cineasta). A casa está inicialmente vazia, sendo decorada a preceito pelo casal, contrastando com a requintada casa dos seus vizinhos vetustos. Quem não queria um apartamento espaçoso e barato? Ocorreram actos macabros no passado? Para o casal de protagonistas isso não parece ser problema, pelo menos a nível inicial com Guy até a brincar de forma jocosa com os avisos de Hutch, um amigo do casal que acaba por ser vítima das entidades malignas que rodeiam o prédio onde a dupla habita. E onde fica Rosemary no meio disto tudo? Como nós, anda ao sabor da narrativa, embora não levemos connosco a semente do Diabo, só o medo e a tensão que Polanski cria junto do espectador. Inebriante, tenso, assustador e intrigante, "Rosemary's Baby" é um dos grandes filmes de terror psicológico da carreira de Roman Polanski e da História do Cinema, com o cineasta a envolver-nos para o interior de uma história macabra, onde o misticismo está sempre presente e o acto belíssimo de uma gravidez surge associado ao mal. Algo parece certo, não dá para ficar indiferente às emoções que Polanski nos desperta ao longo de "Rosemary's Baby". Leva-nos para o interior de um pesadelo, deixa-nos presos ao mesmo, até nos soltar no final, não aliviados por sabermos as descobertas, mas inquietos com o que poderá ter acontecido à protagonista depois dos acontecimentos que nos são exibidos.

Título original: "Rosemary's Baby".
Título em Portugal: "A Semente do Diabo".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Roman Polanski.
Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans.

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