05 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi)

 É particularmente interessante verificar os pontos em comum entre as obras do início da carreira de Zhang Yimou e filmes elaborados já em pleno Século XXI como "Riding Alone for Thousand of Miles". Não falta a atenção dada às gentes e aos espaços rurais, uma enorme capacidade de aproveitar a paleta cromática e apresentar-nos alguns planos belíssimos, os comentários de cariz social e cultural, mas também protagonistas obstinados no cumprimento do seu objectivo. Gouichi Takata (Ken Takakura), o protagonista de "Riding Alone For Thousand of Miles", não anda assim tão distante de elementos como a protagonista de "The Story of Qiu Ju" e "Not One Less", com ambos a apresentarem uma enorme teimosia a tentarem cumprir aquilo a que se propuseram. O personagem interpretado por Ken Takakura é um homem de idade já algo avançada, que vive num território piscatório japonês algo isolado de tudo e todos, encontrando-se afastado de Kenichi (Kiichi Nakai), o seu filho, desde que a esposa faleceu, devido a este último culpá-lo devido a vários problemas que se sucederam. É então que é contactado por Rie (Shinobu Terajima), a esposa de Kenichi, com esta a revelar que o filho do protagonista se encontra hospitalizado, incitando Takata a viajar até Tóquio para visitar o mesmo. Kenichi decide rejeitar ver o pai, algo que deixa Takata num estado visível de tristeza. Este nem é muito de exibir os seus sentimentos e emoções, embora em alguns momentos possamos ouvir os pensamentos deste homem através da narração em off. Rie exibe a Takata uma cassete de um vídeo gravado por Kenichi onde este entrevista Li Jiamin, um artista de ópera Nuo (considerado o melhor da região), de Yunnan, um território rural da China que lhe promete apresentar à sua representação da peça "Riding Alone for Thousands of Miles" se este se deslocar ao local no próximo ano. O vídeo foi oferecido por Rie a Takata sobretudo para este conhecer um pouco do filho, um especialista em artes folclóricas orientais, e dos seus gostos, mas o protagonista logo decide partir em direcção à China para gravar o vídeo para Kenichi e assim poder compensar um pouco a falta de afecto entre ambos ao longo dos anos. Rie fica surpreendida com a decisão do sogro embora implore para que Takata regresse pois foi diagnosticado que Kenichi padece de um cancro terminal no fígado. Takata mantém-se fiel aos seus ideais, tendo em Jiang Wen uma tradutora num território que desconhece e em Qiu Lin um guia local que conhece poucas palavras de japonês embora por vezes finja ter mais conhecimento do que aquele que realmente tem (algo que proporciona alguns momentos de humor). Quando chega ao território de Lijiang, Takata descobre que Li Jiamin foi condenado a três anos de prisão devido a ter apunhalado o rosto de um elemento do elenco da peça, após este último ter insinuado que o filho do artista é bastardo. Takata procura encontrar Li Jiamin na prisão, uma situação da qual Jiang procura inicialmente descartar-se, embora o protagonista e Qiu Lin se envolvam numa demanda até entrarem em contacto com este homem. O vídeo elaborado pelo personagem interpretado por Ken Takakura para convencer os responsáveis da prisão a deixarem-no gravar um espectáculo de Jiamin no estabelecimento prisional é comovente, com este a ter um dos raros momentos onde expõe de forma aberta os seus sentimentos. Com alguma sorte à mistura e para a narrativa avançar da forma que esperamos, o protagonista consegue superar a burocracia do território (existe uma ressonância da burocracia encontrada por Qiu Ju em "The Story of Qiu Ju"), com o director da prisão a deixar que Li Jiamin dê um espectáculo na prisão para que Takata possa gravar, mas o artista logo entra num pranto devido às saudades que sente do filho. É então que Takata decide viajar até ao local rural de Stone, onde se encontra Yang Yang (Yang Zhenbo), um jovem de nove anos de idade que nunca conheceu o pai, que é educado pelos aldeões deste território.

Após alguns mal entendidos devido à incompetência de Qiu Lin para a tradução, os locais decidem viajar com o protagonista e Yang Yang até à prisão, mas um contratempo vai fazer com que tudo se altere e o veterano forme uma relação de amizade com o petiz numa obra onde somos deixados perante o olhar do outro sobre a China. Takata é um japonês bastante discreto, pouco capaz de demonstrar os seus sentimentos, que aos poucos se depara com toda uma nova realidade, com Zhang Yimou a ser capaz de captar a subtileza dos sentimentos e do território. Zhang Yimou conquista-nos pela subtileza com que nos exibe e retrata muitas das situações. No território do Japão, encontramos a região marcada por tons azulados e frios onde se encontra Takada. Na China, ficamos perante os belos territórios rurais, as zonas montanhosas e as suas gentes, com o espírito comunitário dos elementos que cuidam de Yang Yang a conquistar o protagonista e a conquistar-nos. Esta representação do território rural chinês não é novidade em Zhang Yimou, com este desta vez a deixar-nos perante uma história contada nos dias de hoje, naquela que é uma obra bem mais modesta em termos de ambição do que os dois filmes que este realizara anteriormente: "Hero" e "House of Flying Daggers". Diga-se que "Riding Alone for Thousand of Miles" parece quase um regressar "à base" de Zhang Yimou, com este a realizar uma obra mais na senda dos seus trabalhos iniciais do que os magníficos wuxia que viriam também a contribuir para a popularidade da sua carreira. Ficamos perante um drama humano, sobre um pai que não conseguiu manter uma relação de proximidade com o filho e tem em si um enorme sentimento de culpa, algo que explica a sua decisão de tentar completar o trabalho de Kenichi. Rie bem pretende que o sogro não parta, mas Takada é teimoso e voluntarioso, procurando ao mesmo tempo perceber o que o filho viu naquele território chinês e naquelas pessoas para se deslocar até ao mesmo. Aos poucos descobre que Kenichi também não era um primor em termos de comunicação, sendo um elemento especialista na ópera Nuo, dando atenção a esta arte do folclore tradicional chinês. Mais do que a obtenção do vídeo, "Riding Alone for Thousand of Miles" sobressai pela procura deste homem em encontrar alguma paz consigo mesmo e com as memórias do seu filho, sejam estas as que viveu com o mesmo e aquelas em que não participou, ao mesmo tempo que conhece um grupo de pessoas que modificam a sua vida. Ken Takakura tem uma interpretação magnífica pela sobriedade que incute a este homem silencioso, por vezes quase distante, que percebemos ainda ser afectado pelas marcas profundas do passado. Não precisamos de saber tudo o que se passou entre Takada e Kenichi para percebermos que o afastamento deixou marcas em ambos, com o aproximar da morte inesperada deste último a trazer um elemento inesperado à vida de ambos.

 Por vezes nem sempre compreendemos porque Takada decide permanecer no território chinês, mesmo quando sabe que o filho está em estado terminal e parece ser mais importante estar ao lado de Kenichi do que gravar o vídeo, mas Zhang Yimou consegue tratar desta situação com uma delicadeza que faz com que raramente nos questionemos sobre esta situação. Diga-se que esta parece mais uma homenagem que este pretende fazer ao filho do que tudo o mais, acabando por estabelecer uma relação quase paternal com o jovem Yang Yang que aprende a respeitar. O argumento é eficaz a estabelecer as relações, quer seja entre este veterano e o jovem, quer seja entre Takada e o seu incompetente guia, quer seja com a sua tradutora, quer seja pelos momentos ao telefone com a nora. Rie é interpretada por Shinobu Terajima, uma actriz que pouco aparece, a não ser para dar más notícias e procurar reunir pai e filho, com esta a conseguir dar o impacto emocional que as cenas necessitam. Os restantes actores e actrizes do elenco são muitos deles amadores, algo visível em Li Jiamin, Jiang Wen e Qiu Lin, três elementos que interpretam personagens com os mesmos nomes e profissões que têm na vida real, com Zhang Yimou a procurar atribuir algum realismo a uma obra cujo título é inspirado na história da perigosa jornada de Guan Yu, um elemento que procurou reunir-se com Liu Bei, o seu irmão, no romance histórico "Romance of the Three Kingdoms" de Luo Guanzhong. No caso do filme ficamos perante a jornada de um elemento de certa idade, tendo em vista a completar e homenagear o trabalho filho, ao mesmo tempo que procura conhecer um pouco mais sobre alguém de quem se distanciou. As relações familiares nem sempre são fáceis de compreender e "Riding Alone for Thousand of Miles" exibe-nos isso mesmo, enquanto nos coloca perante uma obra que conta com a delicadeza típica dos filmes de Zhang Yimou. As relações humanas são abordadas com acerto, os cenários são bem aproveitados (veja-se como ficamos em pouco tempo a saber como funciona e é gerido o pequeno território rural, quase comunitário, onde vive Yang Yang), os aspectos culturais da China não são descurados, entre outros elementos que funcionam ao longo de "Riding Alone for Thousand of Miles". Confesso que esta obra escapou-me por completo na época do seu lançamento, onde certamente estava mais absorvido pelos trabalhos mais mediáticos de Zhang Yimou, embora estejamos perante um trabalho de relevo do cineasta, marcado pelos seus traços habituais sobretudo dos filmes da fase mais inicial da carreira. Delicado, terno e pontuado por alguns belos planos, "Riding Alone for Thousand of Miles" é daquelas obras de Zhang Yimou que podem passar despercebidas antes de as vermos mas deixam marca depois da sua visualização. 

Título original: "Qian li zou dan qi"
Título em inglês: "Riding Alone for Thousands of Miles".
Título em português: "Caminho Solitário".
Realizador: Zhang Yimou. 
Argumento: Zou Jingzhi
Elenco: Ken Takakura, Li Jiamin, Jiang Wen, Shinobu Terajima, Qiu Lin.

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