10 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Repulsion" (Repulsa)

 Igualmente perturbador e estimulante, "Repulsion" mescla alucinações, assassinatos, actos a beirar a loucura, enquanto Roman Polanski deixa Catherine Deneuve brilhar a interpretar uma mulher que cai num abismo psicológico aparentemente impossível de sair. Esta mulher é Carol Ledoux (Catherine Deneuve), uma jovem adulta de origem belga, sexualmente reprimida, que gosta de roer as unhas e trabalha como manicura num salão de beleza. Carol vive com a irmã mais velha, Helen (Yvonne Furneaux), uma mulher que apresenta uma atitude bem distinta da sua. Enquanto Carol apresenta uma atitude introvertida, quase a perambular como se fosse alguém que não pertencesse a este planeta, que tem uma atitude de repulsa para com os homens, já Helen tem um caso com Michael (Ian Hendry), um indivíduo casado com quem vai de férias para Itália. Carol não gosta da presença de Michael em sua casa, sentindo-se claramente incomodada com a presença de objectos que representem a intromissão deste, para além de viver autênticos momentos de pesadelo quando a irmã se encontra a fazer sexo com o amado. Tapa os ouvidos, remexe-se com a almofada, mas os sons de cariz sexual incomodam-na notoriamente. No salão de beleza forma uma espécie de relação de amizade com Bridget (Helen Fraser), uma mulher que também conta com os seus problemas amorosos, com ambas a terem em Madame Denise (Valerie Taylor) uma patroa algo austera. Carol é alvo das atenções de Colin (John Fraser), um jovem que se interessa por esta bela e estranha mulher, apesar dela rechaçar todos os seus avanços. Diga-se que esta parece sentir uma enorme repulsa em relação a todos os elementos masculinos, algo que pode ser resultado de um trauma do passado, embora o filme não indique essa situação de forma clara. Tudo piora para Carol quando Helen e Michael decidem partir temporariamente de férias para Itália, com a segunda a deixar o dinheiro para a irmã pagar a renda em atraso. É então que o estado mental de Carol se degrada, com o espaço da casa a acompanhar a confusão que passa pela sua cabeça, entrando numa paranoia sufocante, com Roman Polanski a adensar toda esta atmosfera opressora que rodeia a mente da personagem interpretada por Catherine Deneuve. A sonoplastia e a banda sonora são utilizadas de forma exímia, enquanto Deneuve brilha e a personagem que a lendária actriz interpreta cai num abismo psicológico a que vamos assistindo. Pensa que fendas gigantes se abrem pela casa, alucina que é violada, que mãos saem pelas paredes, acabando pelo caminho por eliminar Colin quando este procura forçar a entrada na casa para saber se está tudo bem com a protagonista. Também o senhorio (Patrick Wymark) é eliminado pela protagonista que parece destinada a ter um coelho morto em casa e uma mente perturbada que a vai levar a estados aparentemente impensáveis no início do filme. Inicialmente até nos apercebemos da sua estranheza mas raramente pensamos que Roman Polanski vai conduzir a sua personagem para caminhos tão complicados ao longo do enredo, ao mesmo tempo que nos surpreende com este perturbador thriller psicológico. Não é só Polanski que nos surpreende, mas também Catherine Deneuve, com a actriz a manter sempre um enorme mistério em volta da sua personagem, uma jovem desequilibrada do ponto de vista emocional, insegura, tensa, pouco faladora, cujo olhar expressa muitas das vezes mais do que as suas palavras. O que a levou a ficar assim? Não sabemos de forma paradigmática mas levantamos a questão. "Repulsion" também é filme para levantar questões e nem sempre as responder, ou não estivéssemos a lidar com perguntas que nem sempre têm respostas lineares e fáceis de dar.

 Poderia Carol ter evitado cair em todo este abismo? Não sabemos. O que sabemos é que esta, a partir da segunda metade do filme, destrói-se por completo, cai nos abismos da loucura e transporta-nos consigo (um pouco a fazer recordar o protagonista de "The Tenant"). Somos puxados com ela, caímos na sua perdição, entramos na sua casa cheia de fendas e quando saímos percebemos que foi esta quem ficou mais magoada pelos seus actos. Nós experimentámos algo de único, com Roman Polanski a criar um thriller psicológico visualmente e narrativamente potente, ancorado numa grande interpretação de Catherine Deneuve e num trabalho de som sublime. Os próprios cenários demonstram um enorme rigor. Veja-se a casa da protagonista, desorganizada e cada vez mais confusa consoante o estado da sua mente, com Roman Polanski a exibir alguns dos elementos que marcam várias das suas obras tais como “Rosemary's Baby”, “The Tenant”, “Death and the Maiden”, “Carnage”, nomeadamente a utilização paradigmática de cenários primordiais, sobretudo se forem fechados, para além da tensão crescente ao longo do enredo e a repressão sexual. Mesmo a carta que Carol recebe da irmã em Itália não é inocente. Vem acompanhada da imagem da Torre de Pisa, um símbolo fálico, aquele que esta despreza e parece odiar, embora também o pareça desejar nos seus momentos mais reprimidos. John Fraser interpreta o estranho pretendente desta mulher. É óbvio que se sente atraído pela beleza de Carol mas não se sabe onde se vai meter. No trabalho percebem que Carol não está nas melhores condições. Falta três dias e quando regressa corta uma cliente no dedo. Volta para casa que é onde está bem, ou pelo menos é o que pensa a sua chefe sem saber que no interior do seu lar esta mulher ainda dá mais liberdade ao seu cérebro para soltar o seu lado mais selvagem. Ilude-se e ilude-nos, embora estejamos bem cientes do que vemos, ou talvez nem tanto, com Roman Polanski a jogar com os nossos sentimentos e emoções. Faz com que apreciemos esta personagem e até desejamos que esta consiga sair deste chorrilho de loucura, mas também faz com que não larguemos a sua descida ao abismo. A irmã, interpretada por Yvonne Furneaux, é uma mulher bem mais prática e dada aos relacionamentos, não tendo problemas em relacionar-se com um homem casado, tendo uma relação algo afastada com Carol apesar de viverem na mesma casa. Só assim se justifica como não se apercebeu antes que a irmã se encontrava perdida no interior de uma mente em alta rotação e uma face bela mas reveladora de um vazio que a transforma quase numa zombie. E nós? Onde ficamos no meio disto tudo? A ver Carol a ser engolida pelas sombras, sejam estas dadas pelo trabalho dos colaboradores de Polanski, sejam estas meramente metafóricas, num conjunto de momentos intensos onde a morte e a loucura estão sempre presentes. Logo no início do filme ficamos perante close-ups extremos sobre os seus olhos. O que esta guarda no seu interior é o maior mistério que "Repulsion" nos reserva. No final, Carol continuará a repudiar os homens, mas nós apenas nos somos atraídos cada vez mais para o interior deste inquietante thriller psicológico com a marca de Roman Polanski, que inicia aqui a chamada "trilogia do Apartamento", concluída com "Rosemary's Baby" e "The Tenant". O apartamento onde vive Carol, em Kensington, é o paradigma do seu estado mental, mudando consoante o mesmo, enquanto esta revela uma aversão aos homens e ao contacto com o seu corpo, contrastando a sua beleza física com uma mente que parece girar à velocidade de uma montanha russa que a dispara para uma queda aparatosa numa realidade que não aceita e a faz destruir-se. Roman Polanski conduz-nos às entranhas da mente desta mulher, explorando o seu lado mais negro, ao mesmo tempo que nos inquieta, surpreendendo-nos com um retrato final que poderá revelar muito mais do que poderíamos esperar sobre a protagonista e a sua família, neste pesadelo em forma de obra de arte que nos atormenta e inquieta. Os cenários londrinos exteriores são aproveitados com eficácia, na maioria das vezes para Roman Polanski deixar Carol a perambular sem aparente rumo, solitária, pronta a ignorar possíveis piropos ou a esquecer-se de encontros marcados. "Repulsion" leva-nos para caminhos bizarros, enigmáticos e estranhamente sedutores, onde a mente de uma mulher entra no seu ocaso e surge-nos exposta em toda a sua violência e loucura.

Título original: "Repulsion".
Título em Portugal: "Repulsa".
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: David Stone.
Elenco: Catherine Deneuve, Yvonne Furneaux, Ian Hendry, John Fraser.

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