16 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Pianist" (O Pianista)

 Mais assustador do que “Rosemary's Baby”. Mais perturbador do que “The Tenant”. Mais claustrofóbico que “Death and the Maiden”. Mais inquietante que “Knife in the Water”. “The Pianist” confronta-nos de forma pungente e profundamente humana com um lado mais negro da História, naquele que é um dos filmes de mais fino recorte de Roman Polanski, onde este expõe-nos a jornada de sobrevivência de Władysław Szpilman (Adrien Brody) em plena II Guerra Mundial. Este não é um Rambo capaz de enfrentar exércitos, não é um Tony Stark equipado com a sua armadura, não tem super poderes para enfrentar os perigos, procurando acima de tudo utilizar o seu instinto de sobrevivência. É um ser humano comum, com um talento invulgar para tocar piano que vê a sua vida ser praticamente destroçada com a entrada dos alemães na Polónia e o dealbar da II Guerra Mundial. Poucos filmes são capazes de despertar um sentimento de revolta, dor e vergonha como “The Pianist”. Revolta por sabermos que, apesar de ser um filme de ficção, muitos episódios retratados em “The Pianist” são verídicos e até pecam por escassos. Dor por vermos milhares de pessoas a sofrerem, a terem as suas vidas destroçadas e a serem tratadas de forma desumana devido a uma política de anti-semitismo atroz colocada em prática por um louco seguido por mais gente do que deveria. A vergonha vem exactamente de nos perguntarmos como é possível que o Mundo tenha durante tanto tempo deixado passar esta situação em claro. É um filme que deveria ser visto em todas as escolas, exibido a todos os políticos, ou melhor, a todas as pessoas, para expor o quão desumanas são as guerras e estes ataques às minorias. Em França, um dos países co-produtores deste filme, parecem ter-se esquecido destes tempos negros da nossa História, ou então torna-se difícil perceber a subida recente do eleitorado da Frente Nacional. No caso de Adolf Hitler, as consequências dos seus actos e medidas, bem como daqueles que os seguiram, foram nefastos. Não vamos aqui fazer uma tese sobre a II Guerra Mundial, mas sim elogiar esta magnífica obra cinematográfica que é “The Pianist” que se desenrola durante um período de tempo compreendido entre o iniciar do conflito militar citado, a chegada da Rússia à Polónia e a rendição da Alemanha. A história não é protagonizada por um personagem heróico, ou melhor, é surpreendente a forma heróica como este resiste estoicamente a todas as contrariedades e dificuldades, com alguma sorte à mistura, desde os momentos em que a rádio Varsóvia, onde tocava piano, foi bombardeada pelos Nazis em Setembro de 1939. Pouco tempo depois os judeus passam a ter de utilizar um elemento sinalizador com a estrela de Davi, pronto a expor quem eram estes seres humanos dos quais faziam parte os pais de Szpilman (Frank Finlay a interpretar o pai e Maureen Lipman a interpretar a mãe), bem como o seu irmão, Henryk (Ed Stoppard), e as suas duas irmãs. Temem o pior e têm razões para isso. Władysław Szpilman não quer fugir. Pretende ficar em Varsóvia, mas logo são expulsos da sua casa, com todos os judeus a terem de ir viver para um gueto e despojar-se dos seus bens pessoais. O espaço do gueto é sufocante, superpovoado, com as gentes a mal se poderem mexer, enquanto assistimos a momentos de enorme aflição, sofrimento, humilhação e pobreza extrema. A paleta cromática não mente ao apresentar tonalidades frias que evocam os sentimentos pouco apolíneos que grassam nestes momentos. Polanski não conta apenas com um cenário primordial fechado como em várias das suas obras, mas consegue criar com a mesma habilidade toda uma atmosfera claustrofóbica nestas cenas filmadas em espaços exteriores que é típica dos seus filmes, ao mesmo tempo que assistimos a actos de crueldade entre os próprios judeus e polacos, mas sobretudo da parte dos alemães. Veja-se quando encontramos um indivíduo a roubar a comida de uma mulher, deixando a alimentação cair no chão, algo que pouco o incomoda, comendo de forma sôfrega como se fosse um animal selvagem irracional e esfomeado. A cena é poderosíssima, tal como são poderosíssimos os momentos em que assistimos os soldados alemães a obrigarem os judeus a dançar ao som da música quando a situação é de tudo menos comemoração, para além da cena em que uma criança vende um caramelo ao pai de Szpilman por um preço caríssimo antes de vários judeus serem encaminhados para os campos de concentração.

 Władysław Szpilman encontra-se no meio de toda esta gente acompanhado pela sua família. O seu passado como pianista respeitável não está assim tão longínquo mas parece ser uma sombra de um presente nefasto, cinzento e pouco dado a grandes ambições ou expectativas positivas. Bem pelo contrário. O protagonista ainda vai tocar piano para um restaurante frequentado pelos polacos mais abonados e até alguns judeus que parecem passar temporariamente ao lado da crise. Henryk é o mais revoltado, chegando a ser preso, algo que acaba por conduzir o protagonista a pedir ajuda a Itzak Heller, um indivíduo judeu que se juntou à polícia local para controlar os próprios elementos judaicos, com o filme a explorar como a crise conseguiu colocar alguns elementos da mesma etnia contra eles próprios. O avançar do tempo não traz melhorias. Vários judeus são levados à força para os campos de trabalho, outros agredidos e mortos sem grandes contemplações. Entre esses judeus encontram-se Szpilman e a sua família, embora o primeiro seja salvo de entrar no comboio que o levaria a uma morte certa por Itzak. Ainda reluta mas decide fugir. Não é a atitude mais solidária para com a família, talvez até não seja a mais corajosa, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto, com Polanski a evitar o melodrama. O regresso ao gueto revelou-se desolador. Praticamente desértico, composto por edifícios destruídos, ruas estreitas e um ambiente onde a morte parece pairar pelo ar e a desesperança ter contaminado as almas, o gueto é o paradigma da destruição que a guerra estava a causar ao território e aos judeus. Władysław Szpilman participa em algumas obras e trabalhos comandados por nazis, conseguindo fugir para junto de Janina Godlewska (Ruth Platt) e Andrzej Bogucki (Ronan Vibert), um casal amigo, indo depois ter a casa de Dorota, uma mulher com quem saiu no início do filme e apresentou simpatia para consigo, embora esta agora seja casada e esteja à espera de um filho. “The Pianist” não nos poupa a uma jornada dolorosa, que mexe com os nossos sentimentos e desperta a atenção para uma realidade que não pode, nem deve ser esquecida e muito menos repetida. É uma obra muito pessoal de Roman Polanski, ou não tivesse este também fugido de um gueto de Cracóvia, com o cineasta a ter em “The Pianist” aquele que talvez seja um dos seus trabalhos mais polidos, ambiciosos e pessoais, ao mesmo tempo que nos deixa perante um enredo que nos consegue perturbar e inquietar mais do que muitas das suas obras anteriores. Não temos um cenário primordial como “Knife in the Water”, “Cul-de-sac”, “Death and the Maiden”, mas sim um conjunto variado de cenários, desde a rádio que é arrasada no início do filme com os bombardeios alemães, passando pela casa do protagonista e o gueto superpovoado, para além de outros locais por onde este passa, sejam habitações de conhecidos, edifícios destruídos, ruas estreitas, sempre a procurar esconder-se de tudo e de todos. Se nas obras citadas de Roman Polanski este aproveitava alguns dos cenários primordiais para aumentar gradualmente a tensão no enredo, criando por vezes uma atmosfera opressora em volta da narrativa, já no caso de “The Pianist” esta opressão está em quase todo o filme. Mesmo nos planos mais abertos, é impossível ficar indiferente à destruição da cidade de Varsóvia e à presença alemã no território, ao mesmo tempo que Roman Polanski nos faz sentir a passagem do tempo nos personagens e nos cenários. Quando os territórios ficam cobertos de neve tudo ainda fica mais intenso, ao mesmo tempo que assistimos a uma gradual esperança a crescer junto dos judeus e dos polacos quando começam a ouvir notícias sobre a entrada da Rússia na Polónia, embora a família  do protagonista também tenha demonstrado alguma alegria no início do filme por saber que a Inglaterra declarou guerra à Alemanha e a França poderia seguir este caminho. Tudo parece servir para estes elementos marcados pela guerra criarem alguma esperança quando esta parece estar quase a morrer. Os próprios polacos começam finalmente a apresentar alguma revolta, com Roman Polanski a explorar ainda algo de elogiar, ao apresentar num momento do filme um soldado alemão que poupou o protagonista, algo revelador que este não foi um conflito que agradou a todos os alemães. O momento é de alguma tensão, com este a pedir a Szpilman para tocar piano, dar-lhe comida e até o seu casaco, com o filme a tirar inspiração de um caso verídico ocorrido na vida do protagonista, um personagem baseado numa figura real.

O argumento de "The Pianist" é baseado no livro  de memórias homónimo de Władysław Szpilman, escrito e elaborado por Jerzy Waldorff, com o filme a procurar respeitar alguns episódios do mesmo, tais como o encontro com Hosenfeld: "The officer’s unit left during the first half of December, 1944. The officer left Szpilman with food and drink and with a German Army great coat, so he would be warm while he foraged for food until the Soviets arrived. Szpilman had little to offer the officer by way of thanks, but told him that if he should ever need help, that he should ask for the pianist Szpilman of the Polish Radio". A cena em que Hosenfeld encontra o pianista é um dos pontos altos do filme, com Polanski a evitar o melodrama embora crie momentos que claramente ficam gravados na memória. Existe um enorme cuidado de Roman Polanski na representação dos episódios, encontrando-se preocupado em explorar a violência e os efeitos destrutivos da guerra e do anti-semitismo, a desumanização presente nestes conflitos, embora este episódio final até restaure um pouco de fé na humanidade. Polanski dá ainda a oportunidade a Adrien Brody de ter aquele que é um dos grandes papéis da sua carreira. Não faltam cenas memoráveis protagonizadas por Brody, ficando particularmente na memória quando este se encontra na casa arranjada por Dorota e o esposo, e não pode fazer barulho para não atrair as atenções dos vizinhos, tocando piano imaginariamente. Este é um compositor e pianista exímio (em particular a tocar músicas de Chopin), um homem aparentemente passivo em relação ao destino embora demonstre ao longo de todos os seus actos um enorme instinto de sobrevivência. Mais do que os bombardeamentos e estratégias militares, "The Pianist" preocupa-se com o factor humano, com os civis, em particular os judeus, enquanto assistimos à destruição do território e das almas de muitos destes personagens. Szpilman sobreviveu a todo este conflito, algo que não é um spoiler, sobretudo se tivermos em conta que o filme é baseado numa história verídica, mas não deixa de ser heróica a forma como este conseguiu resistir a tantas provações, contratempos, mortes de elementos importantes para a sua vida, violência e mantido a sanidade. Adrien Brody consegue incutir esse sentido quase de vazio que rodeia o personagem, um elemento racional e solitário, que raramente vemos a perder as estribeiras e por vezes até parece algo cínico na forma como encara todos estes episódios. Quando a família é levada para o comboio que a conduzirá à morte é notória a dor do pianista, tal como é notório o sofrimento que este tem em constantemente ter de ver o território que outrora fizera parte da sua vida a estar completamente destruído. Existe uma enorme frieza a rodear os cenários, com a esperança a não parecer fazer parte do quotidiano dos personagens. Falta comida, faltam condições, falta liberdade e a quem for judeu falta tudo. Logo nos momentos iniciais da II Guerra Mundial assistimos ao protagonista a ser proibido de entrar no café por ser judeu, quando ia sair com Dorota, para além de não poder frequentar ou sentar-se no jardim. A presença alemã no território já é sentida desde os bombardeamentos iniciais, mas a forma como o enredo nos apresenta aos actos de marginalização aos judeus demonstra de forma bem efectiva a violência psicológica a que estes elementos estavam sujeitos. Se a violência inerente aos bombardeamentos e disparos desperta o nosso choque, a brutalidade a nível psicológico deixa vir ao de cima a nossa revolta, com "The Pianist" a não poupar o espectador a um conjunto de episódios que dignificam em muito pouco o ser humano. A própria sobrevivência do pianista é exibida com alguma contenção, ou este não tivesse perdido vários elementos queridos pelo caminho, para além do território encontrar-se claramente conspurcado pela Guerra e uma imensidão de judeus terem sido exterminados, com o último terço a exibir-nos mais uma vez a enorme humanidade de Władysław Szpilman e a forma sublime como Roman Polanski nos expõe estes eventos. São momentos para não esquecer e recordar para não se repetirem, expostos numa obra onde a música belíssima do piano é contrastada com o feroz som dos tiros e bombardeamentos, num enredo no qual assistimos a um indivíduo a procurar sobreviver a todo o custo num território hostil devido à presença alemã e às contingências absurdas da II Guerra Mundial, ao mesmo tempo que Roman Polanski nos deixa perante um dos grandes trabalhos da sua carreira.

Título original: "The Pianist".
Título em Portugal: "O Pianista".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Ronald Harwood.
Elenco: Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Frank Finlay, Maureen Lipman, Emilia Fox.

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