02 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Opening Night" (1977)

 Myrtle Gordon (Gena Rowlands), a protagonista de "Opening Night", é uma actriz temperamental que apresenta claros problemas em lidar com o avançar da idade, fumadora e pronta a beber o seu copo de whisky. Esta prepara-se para protagonizar "The Second Woman", uma peça de teatro, onde interpreta Virginia, uma mulher que lida praticamente com os mesmos problemas que os seus, entre os quais o avançar da idade, o consumo excessivo de álcool, más decisões e relacionamentos sentimentais falhados no passado. Os momentos iniciais do filme estabelecem-nos desde logo a entrada desta em palco, antecedida por um copo de bebida alcoólica, até Cassavetes nos apresentar ao palco e ao público, o qual parece idolatrar Myrtle. Quando Nancy, uma fã de dezassete anos de idade, é atropelada após perseguir o carro de Myrtle, a protagonista não consegue esconder um enorme sentimento de culpa e perturbação. A cena é marcada por chuva carregada, tonalidades frias e uma morte que se aproxima após um momento de excessiva adulação, onde o rosto de uma jovem prepara-se para afectar a alma daquela que idolatrara em vida. Para todos a vida continua normalmente, mas para Myrtle parece óbvio que este episódio marcou-a. Essa situação é notória quando começa a alucinar com esta jovem, ou será que está possuída pela mesma, ou terá criado uma versão da falecida no seu interior que procura recordar como a sua faceta mais nova? Aos poucos Myrtle entra numa espiral descendente a roçar a loucura e paranoia, regada com muito álcool e doses de nervosismo em quantidades generosas, algo que se repercute nas suas interpretações na peça de teatro. As barreiras entre o teatro e a vida real diluem-se em "Opening Night", com Myrtle a ser a principal força motriz desta quebra, com o primeiro a influenciar o seu quotidiano por considerar insuportável interpretar uma mulher que se encontra a lidar com as consequências do envelhecimento, ao mesmo tempo que os seus problemas pessoais afectam o desenvolvimento do espectáculo teatral. A rodear Myrtle encontram-se elementos como Manny Victor (Ben Gazzara), o indivíduo responsável por realizar a peça, um indivíduo casado com Dorothy (Zohra Lamper), procurando a todo o custo mimar a sua estrela para que esta consiga cumprir com as suas funções na representação; Gus Simmons (John Tuell), o intérprete do ex-marido de Virginia; Maurice Aarons (John Cassavetes), um indivíduo que parece ter mantido um caso com a protagonista na vida real, interpretando o segundo esposo de Myrtle em "The Second Woman"; Sarah Goode (Joan Blondell), a argumentista da peça, uma mulher já nos seus sessenta e poucos anos de idade que procura aconselhar Myrtle da melhor maneira possível, embora nem sempre tenha paciência para aturar os devaneios da vedeta; entre outros elementos. Boa parte do enredo desenrola-se em volta do palco de teatro e dos seus bastidores, quer nos ensaios, quer durante a peça, com o filme a deixar-nos também perante este espectáculo e a sua preparação. Myrtle é uma diva em decadência que se recusa a aceitar dizer todas as falas que estão no argumento, procurando adaptá-las à sua pessoa de forma a não ficar com o estigma de mulher envelhecida, temendo que comecem a tomá-la como tal, criando algumas fissuras no interior do grupo responsável pela peça.

"Opening Night" deixa-nos não só perante a vida desta actriz, mas também perante a peça e as mutações que esta por vezes conhece devido às liberdades dos actores, com Myrtle a interpretar uma mulher casada com Marty que decide visitar o primeiro marido, apresentando alguns problemas em lidar com o avançar da idade. A dinâmica entre John Cassavetes e Gena Rowlands surpreende pela intensidade emocional que os seus personagens colocam a interpretar Marty e Virginia na peça de teatro, tanto sendo capazes de protagonizar momentos de alguma tensão como de algum humor, com o último terço a surpreender pela forma como esta mulher consegue sobressair mesmo quando se encontra num estado lastimável. Myrtle decide muitas das vezes desrespeitar o argumento, desafiando o mesmo e a si própria, procurando que a personagem que interpreta não caia nos estereótipos associados ao avançar da idade da mulher, embora seja afectada pelos mesmos. Fora dos palcos encontramos Myrtle em constante queda, entrando num abismo emocional difícil de sair, algo que gera a preocupação geral. Gena Rowlands tem uma interpretação arrasadora como Myrtle, uma actriz talentosa que tem problemas em aceitar a passagem do tempo, digladiando-se contra os seus fantasmas interiores, ao mesmo tempo que se afunda numa rotina perigosa de excesso de álcool, tabaco e pouca ponderação nos actos a tomar. Esta por vezes é um enigma. Imprevisível e fleumática, Myrtle tem na morte de uma fã um momento de mudança da sua vida, perturbando-a mais do que seria expectável. Existe um momento particularmente marcante e desconcertante quando Myrtle começa a bater com a cabeça na parede, ferindo-se gravemente, partindo os seus óculos, surgindo diante nós num estado entre a loucura e a fragilidade. É impressionante ver a forma como esta mulher se descontrola e praticamente se destrói diante nós sem que praticamente possamos fazer nada. O seu olhar ferido inquieta-nos. Ela parece ser a sua maior inimiga, mas também a única que poderá sair desta situação, com Gena Rowlands a conseguir arrebatar-nos com o seu desempenho como esta mulher que adora as palmas e a adoração do público mas parece pouco preparada para lidar com o envelhecimento e as consequências que este pode trazer para a sua carreira. Rowlands é o nome que brilha mais alto, numa obra que conta com um leque diversificado de personagens, algo que permite a nomes como John Cassavetes, Ben Gazzara, Joan Blondell sobressaírem. Blondell interpreta com bastante acerto uma argumentista já envelhecida e ponderada, que decide levar a protagonista à sua espírita deparando-se com episódios nem sempre agradáveis na presença de Myrtle. Gazzara destaca-se como o elemento responsável por conduzir a peça, procurando mostrar a sua admiração por Myrtle e mantê-la pronta para o espectáculo teatral, ao mesmo tempo que mantém uma relação matrimonial estável que contrasta claramente com o turbilhão que envolve o espectáculo. A certa altura de "Opening Night" questionamo-nos sobre o comportamento de Myrtle e se será capaz de protagonizar a peça, apresentando tiques de vedeta a ver a idade a avançar à la Margo Channing em "All About Eve", numa obra que explora questões ligadas com o avançar da idade, psicologia, espiritismo, alcoolismo, devaneios das estrelas e o esbater de fronteiras entre a peça de teatro e a vida.

A peça de teatro é fulcral para o enredo, com John Cassavetes a nunca descurar a preparação e exibição da mesma, bem como as reacções  que duas exibições distintas provocaram no público (se não contarmos com a exibição efectuada na espécie de prólogo). A câmara de filmar por vezes surge posicionada de forma a deixar-nos como se fôssemos um membro da plateia, embora facilmente nos coloque também no interior da peça e até nos seus meandros, com todos os cenários a terem sido decorados de forma a parecer que estamos mesmo diante de um espectáculo teatral. Não falta até a vedeta embriagada a chegar à última da hora, no caso Myrtle, numa obra cinematográfica marcada por personagens com personalidades muito próprias, com John Cassavetes a deixar-nos perante um universo narrativo onde este grupo praticamente é apresentado como uma família disfuncional onde cada membro procura aguentar o outro de forma a que a peça saia nas melhores condições. A noite de abertura da peça em Nova Iorque traz momentos de algum nervosismo, com Myrtle a contribuir para o mesmo ao aparecer completamente embriagada, com Cassavetes a conseguir deixar-nos perante uma representação ficcional dos bastidores de uma peculiar peça de teatro e como esta se articula durante o seu desenvolvimento. Cassavetes consegue que a narrativa tanto nos transmita enorme tensão, como logo de seguida desperte um sorriso, seja este nervoso ou sincero, algo que acontece no último terço onde Myrtle domina os palcos como poucas vedetas conseguem, surgindo bem acompanhada por Maurice, com ambos a darem um tom algo farsesco à relação do casal que interpretam, dois elementos que começam a sentir o peso da idade a avançar. O estado físico e psicológico de Myrtle acaba por afectar a sua personagem, com John Cassavetes a dotar a obra de alguma complexidade, explorando como a realidade pode influenciar a ficção e vice-versa (algo que explica como a peça "ganha" diferentes versões devido a Myrtle). Como salienta Matthew Clayfield do Senses of Cinema, "For Myrtle, as for Cassavetes, binary oppositions between reality and fiction, onstage and offstage, performer and audience, and performance and being, are false oppositions, liable to breakdown and susceptible to interference". O filme foi praticamente financiado por John Cassavetes, com este a trabalhar mais uma vez de forma independente, à parte do sistema de Hollywood, algo que lhe permitiu ter várias liberdades criativas e criar mais uma obra cinematográfica marcante. Com uma intensa interpretação de Gena Rowlands e uma banda sonora que se ajusta à atmosfera muitas das vezes tensa que rodeia o filme, "Opening Night" deixa-nos perante uma actriz que beira a fronteira da loucura, numa obra onde o cinema e o teatro se reúnem para nos deixarem perante um drama intenso e marcante.

Título original: "Opening Night".
Título em Portugal: "Noite de Estreia".
Realizador: John Cassavetes.
Argumento: John Cassavetes.
Elenco: Gena Rowlands, Ben Gazzara, Joan Blondell, Paul Stewart, Zohra Lampert, John Cassavetes.

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