31 dezembro 2014

Resenha Crítica: "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos" (The Hobbit: The Battle of the Five Armies)

     “The Hobbit: The Battle of the Five Armies” não perde tempo nenhum em introduções ou em contemplações e inicia-se precisamente no momento em que terminara o filme anterior, ilustrando com muito estilo e efeitos especiais o ataque enraivecido do dragão Smaug à indefesa cidade de Esgaroth, consumida por chamas e em vias de carbonizar. Aturdidos por este começo e impressionados com a banda sonora, testemunhamos, entretidos, o pânico dos seus cidadãos, que, em botes de madeira e entre as ruínas da povoação, remam para um cenário que os salve preservando quem podem e o que conseguem; observamos ainda, paralelamente, a aventura do heroico Bard para se libertar da cela em que o encarceraram, e testemunhamos a coragem com que, pulando de telhado em telhado, o arqueiro alcança, com perícia, o frágil topo de um campanário com uma assombrosa vista para a povoação e uma exposição direta à imponência da besta e à fúria que ela destila. Temerosamente e com uma pontaria sobrenatural, Bard desfere flechas atrás de flechas na barriga da criatura, mas sem sucesso. Necessita de uma arma maior, mais letal, uma espécie de arpão gigante e de ferro que lhe será trazido pelo filho, escapulido do barco da família para salvar a população. As circunstâncias não podiam ser mais dramáticas – o dragão cessa o ataque, olha-o nos olhos divertido com a sua insolência, e ri-se com a ausência de um suporte para lançar o projétil. Num ato de espontaneidade será a criança, amedrontada, a servir esse propósito. Bard apoia o arpão no ombro do filho, encara a fúria do animal que entretanto se lançara fulminante na sua direção e, no momento certo, interrompe o seu voo fazendo-o baquear sobre os destroços da cidade.
     Depois de testemunharem, aliviados, no cume de uma colina pouco distante, a queda do terrível animal, a companhia dos treze anões acompanhada pelo hobbit Bilbo faz a sua segunda entrada na Montanha Solitária. No seu interior deparam-se, novamente, com as indescritíveis riquezas que noutros tempos foram protegidas por Smaug mas que, agora, se encontram à mão de semear, prosseguindo o seu intento de deitarem mãos à Arkenstone e, assim, completarem a sua busca. Atormenta-os então um misterioso malefício mencionado com subtileza já no filme anterior, que vai turvando gradualmente a mente do líder Thorin Escudo-de-Carvalho, enlouquecendo-o e suscitando-lhe uma constante fúria e paranoia.
     Os anões encurralam-se por opção própria dentro da cidade construída no interior da montanha enquanto testemunham, impotentes, o endurecer do olhar de Thorin, cada vez mais sombrio e impregnado de rancor, e os seus passeios sem rumo aparente entre as toneladas de joias que tem a seus pés. Desconhecem que o detentor da pedra é na realidade Bilbo Baggins, que a esconde no seu casaco hesitando em revelá-la por se preocupar, sensatamente, com o efeito da sua revelação ao rei dos anões. Entretanto ainda receberão, e expulsarão com indignação, o contingente de sobreviventes de Esgaroth que, no dia anterior, assomara às suas portas, não se impressionando com a visão do deleitoso exército de elfos que lhes fazia companhia, resplandecente e cheio de estilo com as suas armaduras cintilantes, disciplinado como uma máquina e chefiado por um indivíduo de aparência fabulosa, empenhado em entrar na montanha pela via da força. Sabem os anões algo que os elfos não sabem, e que o espetador suspeita mas que não tem a certeza – que se aproxima ainda outro exército composto por anões em auxílio de Thorin, liderados pelo seu irmão e com sede de pancadaria.
Outra ameaça ainda vai-se fortalecendo em simultâneo, percorrendo também ela o seu caminho em direção à almejada montanha. Trata-se de um perigo movido não por ganância ou por ódios ancestrais mas sim por pura malevolência e fome de matança, fortalecido pela temida ascensão do poderoso e infame Sauron e corporizado por duas criaturas terríveis e corpulentas, nossas conhecidas dos filmes anteriores da saga, que desta vez comandam dois exércitos de orcs e de goblins e de outras criaturas do mais terrível aspeto. Tanto os anões como os elfos serão avisados antecipadamente do advento desta força, primeiro pelo mago Gandalf e depois pelos elfos Legolas e Tauriel, mas tardarão a fazer-lhe caso. Unir-se-ão apenas no momento crucial e de forma espontânea, dando início a uma batalha com cerca de uma hora de duração.
     O filme embrenhar-se-á neste conflito dirigido com imensa pompa e efeitos especiais, reforçando a ideia de que o seu realizador se sente mais confortável a ilustrar cenas de ação do que a escrever argumentos complexos e equilibrados. Como sucedera n’“ O Senhor dos Anéis”, Peter Jackson volta a retratar com alguma clareza um embate violento e em larga escala entre duas fações distintas, controlando com competência o espaço geográfico em que se desenrola a ação e filmando os combates tanto de perto como de longe, e tanto em planícies espaçosas como nos estreitos corredores de uma cidade, permitindo-nos compreender como, e por onde, se vão situando as frentes da batalha.
Apesar de nos proporcionar esta visão global a narrativa centrar-se-á nas lutas individuais de cada um dos protagonistas, cujos antagonistas deixarão de ser criaturas anónimas e facilmente esquartejáveis para irem tomando a forma dos corpulentos e assustadores líderes do exército inimigo. Estes embates são tensos e ricos em reviravoltas, beneficiam de espantosas coreografias e de uma banda sonora notável, conseguindo causar emoção pela sensação de perigo que, realmente, provocam, resultando até na queda de um ou outro anão por quem nutríramos empatia.
     Finda a batalha e vertidas as lágrimas dos seus intervenientes, o filme termina de forma discreta fazendo uma ponte com ”O Senhor dos Anéis”. De um modo geral esteve longe de resultar numa obra-prima e, aliás, nem foi essa a intenção de Peter Jackson; aliás, esmorecido o entusiasmo suscitado há três anos, já nem era disso que estávamos à espera. Já todos nos apercebemos que, mesmo que se desenrole na Terra Média, e que se apoie na coragem de um Baggins, na imponência de Gandalf e no carisma de Legolas, a trilogia de “O Hobbit” nunca se equipararia à d’“O Senhor dos Anéis” – por um lado porque o livro original de JRR Tolkien foca-se mais estritamente no percurso do seu protagonista, coibindo-se de traçar uma visão global da Terra Média e de explorar as complexidades políticas ou culturais dos territórios, e por outro porque a decisão de Peter Jackson em adaptar a obra literária em três filmes obrigou-o a alterar a estrutura da sua narrativa, deformando a harmonia com que ela foi originalmente concebida. Houve cenas de ação obrigatoriamente prolongadas em excesso nas quais o protagonista é remetido para segundo plano, um romance pouco convincente entre a elfa Tauriel e o anão Kili, e episódios que, no livro, não tinham grande relevância, mas que nos filmes foram transformados em momentos climáticos e emotivos (sobretudo o final do primeiro).
De facto, de um ponto de vista narrativo, “The Hobbit: The Battle of the Five Armies” tem uma estrutura irregular: começa imediatamente com a violenta investida do dragão Smaug à povoação de Esgaroth - que, possivelmente, teria ficado mais bem aproveitada como clímax do segundo filme, pois a sua posição introdutória retira-lhe alguma importância – pelo meio investe no conflito interior de Thorin Escudo-de-Carvalho que, finalmente, suscita uma bela contribuição do carrancudo Richard Armitage para a franquia, e na segunda metade transforma-se no desenrolar de uma longa e emocionante batalha que, por constituir o cerne da história, remete o filme para, na sua essência, uma obra de ação e entretenimento.
     “The Hobbit: The Battle of the Five Armies” acaba, assim, por ser uma confirmação do menor grau de ambição da trilogia que finalizou, que contornou o desequilíbrio da sua história ao investir em cenas de ação prolongadas que não maravilham mas que, tendo sido construídas e geridas com sagacidade por Peter Jackson, e introduzidas numa história original e coerente, entretém o espetador. É indesmentível que beneficia da existência d’”O Senhor dos Anéis” e da ligação afetiva que o espetador já tem com o universo de Tolkien, recorrendo até à introdução de Legolas para guarnecer a narrativa de uma figura forte e carismática; no entanto, de um modo geral, parece-me cumprir os objetivos a que se propôs: transportar o espetador novamente para a Terra Média, não o impressionando como noutros tempos mas, ainda assim, proporcionando-lhe algumas horas de escapismo e de entretenimento.

Ficha técnica:

Título original: "The Hobbit: The Battle of the Five Armies"
Título em Portugal: "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos"
Realização: Peter Jackson
Argumento: Fran Walsh, Peter Jackson, Philippa Boyens, Guillermo del Toro
Elenco: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, entre outros.

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