26 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Ninth Gate" (A Nona Porta)

 Não faltam elementos de filmes noir, mistério, terror e um humor negro muito próprio das obras de Roman Polanski em "The Ninth Gate", um dos diversos trabalhos pouco consensuais do realizador. O seu desfecho nem sempre está à altura do estabelecimento e desenrolar dos acontecimentos, mas nem por isso deixamos de estar perante um filme inquietante, onde Johnny Depp surge como um elemento mordaz, fumador e por vezes imoral que parece saído das obras cinematográficas noir dos anos 40. Depp interpreta Dean Corso, um negociador de livros raros para coleccionadores que apresenta uma conduta reprovável, não tendo problemas em enganar vendedores e colegas de profissão para conseguir concluir com sucesso os seus negócios. Como este salienta, "(...) na minha profissão, quando falam bem de nós, pode ser um desastre", algo evidenciado logo nos momentos iniciais quando engana dois herdeiros de um coleccionador abastado tendo em vista a ficar com os exemplares raros de "D. Quixote" a baixo custo, enquanto encontramos o idoso numa cadeira de rodas, sem poder falar e se mexer devido a um ataque que teve, a efectuar um olhar de raiva que atribui algum humor negro a toda esta situação. Logo depois um colega de profissão salienta efusivamente a falta de ética do personagem interpretado por Johnny Depp, enquanto este se desloca até à livraria de Bernie (James Russo), um parceiro de negócios e amigo pessoal de Corso, para este efectuar a venda da edição em quatro volumes de "D. Quixote". Corso parece tirar um enorme prazer deste tipo de negócios, sendo conhecido como um dos profissionais mais eficazes deste meio, algo que o leva a ter em Boris Balkan (Frank Langella) um cliente habitual. Balkan é um indivíduo misterioso, disposto a tudo para conseguir os seus objectivos, tendo uma coleccção impressionante de livros sobre o Diabo na sua portentosa biblioteca pessoal. Corso e Balkan nem apreciam propriamente a personalidade um do outro, com o primeiro a adormecer numa conferência do segundo enquanto aguardava pelo cliente. No entanto, a personalidade algo "mercenária" de Corso conduz Balkan a contratar regularmente os seus serviços, algo que explica ao salientar as razões para o contratar para o seu próximo objectivo: "Nada mais confiável do que um homem cuja lealdade pode ser comprada". O próprio Corso anteriormente já tinha salientado que a sua fé é a sua percentagem, quando Balkan lhe tinha apresentado uma cópia de "The Nine Gates of the Kingdom of Shadows", edição de Veneza, 1666, tendo como autor e impressor Aristide Torchia, um indivíduo que foi queimado pela Inquisição, juntamente com as suas obras. Apenas restaram três cópias do livro, que se encontram individualmente na posse de Victor Fargas (Jack Taylor), Frida Kessler (Barbara Jefford) e Andrew Telfer (Willy Holt), com Balkan a comprar o livro a este último um dia antes do indivíduo cometer suicídio, numa cena que nos surge apresentada logo no prólogo. Acredita-se que Torchia teria adquirido o "Delomelanicon", um livro escrito pelo próprio Satanás, com as gravuras do "The Nine Gates of the Kingdom of the Shadows" a terem sido adaptadas por Torchia. Segundo Balkan estas gravuras "Formam uma espécie de enigma satânico que ao ser corretamente interpretado com a ajuda do texto original, e alguns conhecimentos especiais, diz-se que pode conjurar o próprio Príncipe das Trevas". Corso não se acredita muito na conversa mas não deixa de ficar intrigado com o livro, bem como com o pagamento para a missão. Este tem de comparar o exemplar com o de Fargas e Kessler e ver qual das obras é a original ou se as três formam um todo que permitem elaborar o ritual satânico que fascina Balkan.

A missão vai conduzir o protagonista a contactar inicialmente Liana (Lena Olin), a viúva de Telfer, uma mulher misteriosa que fica surpreendida e algo consternada pelo facto do marido ter vendido o livro. Esta revela que o exemplar foi adquirido em Espanha, em Toledo, algo que vai levar o protagonista a deslocar-se ao local, bem como a Portugal onde se encontra Fargas e a Paris onde se encontra localizada Kessler. Antes destas deslocações é perseguido, tem uma noite de sexo com Liana que posteriormente revela um lado violento por pretender o livro, acabando por descobrir que Bernie foi assassinado por ter guardado o exemplar de Balkan num local secreto da sua livraria. Corso ainda pensa em desistir da missão, com o pânico a ser visível quando liga a Balkan, mas mais um zero à direita no pagamento convence-o a seguir em frente, com este aos poucos a descobrir mais informações sobre os livros. Junto de Fargas, o protagonista percebe que as gravuras apresentam algumas diferenças, sendo assinadas por ordem distinta (contam com as iniciais AT - Aristide Torchia; LCF - Lúcifer). Corso telefona a Balkan a salientar a descoberta, bem como o facto de Fargas se encontrar irredutível na decisão de não vender o livro, com tudo a piorar quando encontra este último morto, uma situação que o conduz a deslocar-se rapidamente para Paris, ao mesmo tempo que é perseguido por elementos desconhecidos e protegido por uma estranha (Emmanuelle Seigner) que posteriormente descobre ter sido contratada pelo personagem interpretado por Frank Langella. Aos poucos os elementos sobrenaturais do enredo vão sobressaindo, com os mistérios a serem revelados, não faltando pelo meio algum terror, rituais satânicos, assassinatos, enquanto Corso vê a sua vida em perigo. Johnny Depp tem em Corso um personagem que parece claramente saído dos filmes noir. Com uma relação algo complicada com as mulheres, fumador e bebedor, cínico, pouco dado a grandes amizades e uma enorme capacidade para se envolver em confusões, Corso permite encontrarmos um Johnny Depp bem distinto das extravagâncias de um Jack Sparrow, o índio Tonto e tantos outros personagens que interpretou nos últimos anos. Surpreende pela forma como torna convincente que Corso é mesmo um especialista em livros, apesar de estar longe de estar à espera de todas as reviravoltas que envolvem toda a sua missão. É um elemento cínico que até com uma sociedade secreta satânica se depara, tendo na personagem interpretada por Emmanuelle Seigner uma protectora inesperada e em Liana uma estranha femme fatale. Roman Polanski joga na fronteira dos géneros, prometendo algo próximo a "Rosemary's Baby", onde os elementos satânicos e associados a bruxaria estavam presentes, mas também aos filmes noir ou neo-noir do qual o seu "Chinatown" é um exemplo magnífico. Se em "Rosemary's Baby" a casa da protagonista tinha um papel de relevo, já em "The Ninth Gate" encontramos o protagonista de local em local, pronto a descobrir pistas que diferenciem as gravuras dos livros e descobrir a verdade sobre as mesmas. A tarefa já por si parecia complicada, algo confirmado ainda com a morte do amigo de Corso, mas com o avançar da narrativa torna-se óbvio que a vida do personagem interpretado por Johnny Depp pode estar por um fio, sobretudo quando se aventura para fora do território dos Estados Unidos da América e se depara com informações de relevo sobre os exemplares que procura analisar. Não falta muito mistério, enigmas por revelar, misticismo e tensão a esta obra, com Emmanuelle Seigner e Lena Olin a serem o exemplo paradigmático de duas personagens inicialmente enigmáticas que aos poucos vão revelando os seus propósitos.

Lena Olin como uma viúva que inicialmente até parece afável, uma mulher de enorme sensualidade que procura tirar proveito do corpo para conseguir convencer o protagonista a dar o exemplar que agora é propriedade de Balkan. Não consegue e torna-se agressiva, devido a, como posteriormente descobrimos, esta ter sido originalmente a proprietária da obra, com o marido apenas a ter financiado a compra da mesma. Olin representa o perigo, tal como Seigner, a mulher de Polanski na vida real, com esta última a voltar a envolver-se numa investigação do protagonista, um pouco como acontecera em "Frantic". Em "The Ninth Gate" a personagem interpretada por Emmanuelle Seigner está consciente da sua missão, apresentando um lado combativo e dado para a acção que o protagonista não conta, algo que permitirá ser uma fonte de apoio relevante para este homem após Corso desconfiar da mesma. Inicialmente encontra-a numa biblioteca, posteriormente num comboio e numa mota a perseguir elementos que queriam "fazer a folha" a Corso, até revelar que está ali para protegê-lo dissipando as dúvidas em relação à sua pessoa e a tensão em volta da mesma. Numa obra de Roman Polanski espera-se também humor em momentos mais inesperados. Foi assim em "Knife in the Water", "Cul-de-Sac", "Fearless Vampire Killers" e até "Rosemary's Baby" e "The Tenant", algo que se verifica também em "The Ninth Gate". Veja-se quando depois de fazer sexo com Corso, a personagem interpretada por Lena Olin pede o livro e diz para este não a foder e este salienta "já o fiz", ou o próprio relacionamento entre o protagonista e a sua "protectora", já para não falar de quando engana a dupla no momento inicial e o elemento inválido que ouve as negociações e faz um olhar que desperta o nosso sorriso. O próprio personagem interpretado por Frank Langella varia entre o elemento culto e refinado e o tipo completamente louco que é capaz de tudo para se reunir com o diabo. Aos poucos vão sendo revelados segredos sobre estes personagens, com "The Ninth Gate" a não poupar em reviravoltas embora no final talvez tenha faltado alguma contenção. Não tira valor a uma das obras mais injustiçadas de Roman Polanski, embora este não seja um cineasta propriamente de grandes consensos (basta ler algumas críticas aos seus primeiros trabalhos) e "The Ninth Gate" esteja longe de figurar entre as suas melhores obras. A banda sonora sobressai a adensar a atmosfera tensa e misteriosa do filme, bem como a cinematografia sublime de Daris Khondji e o notável trabalho a nível da decoração dos cenários (veja-se as bibliotecas privadas dos elementos com quem Corso contacta, bem como o castelo em França onde Liana lidera um culto satânico). Nem tudo faz sentido ao longo de "The Ninth Gate", tal como nem tudo faz sentido na vida e no cinema, embora por vezes Polanski caia em alguns exageros nas reviravoltas, apesar da narrativa apresentar uma fluidez tal que não consegue fazer retirar a nossa atenção dos acontecimentos. "The Ninth Gate" consegue manter-se nas margens do neo-noir ao mesmo tempo que mescla elementos de obras associadas ao mistério e sobrenatural, com Roman Polanski a não poupar ainda em alguns pedaços de humor negro e acção, ao mesmo tempo que nos deixa perante um protagonista com carisma que poderia perfeitamente ter saído de um filme noir dos anos 40.

Titulo original: "The Ninth Gate".
Título em Portugal: "A Nona Porta".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Roman Polanski, John Brownjohn, Enrique Urbizu.
Elenco: Johnny Depp, Lena Olin, Frank Langella, James Russo, Jack Taylor, Emmanuelle Seigner.

1 comentário:

Unknown disse...

Magnifico e extraordinário melhor filme clássico de Roman Polansky a respeito do famoso,
nefasto,profano e amaldiçoado compêndio livro
Delomelanicon os 9 portais para o reino das sombras dos 9 Infernos Ardentes do Sheol