17 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Lego Movie" (O Filme Lego)

 "The Lego Movie" reutiliza com sucesso a clássica história do indivíduo perfeitamente comum que se torna o herói improvável, naquele que é um filme de animação enérgico e frenético, marcado por bons gags, uma inspirada escolha do elenco vocal e um cuidadoso trabalho a nível da criação dos personagens e dos cenários que os rodeiam ao ponto de procurarem emular as características dos bonecos da Lego. É um filme não só para os fãs e coleccionadores de Lego, mas para toda a família, com especial enfoque para o público mais jovem, não tendo problemas em repetir imensas vezes a mensagem que todos podemos ser especiais ao mesmo tempo que efectua uma defesa pela criatividade e expõe a capacidade destes brinquedos em puxarem pela mesma. No fundo, existe um pouco de marketing inculcado lá pelo meio, bem como muitas participações especiais para a marca vender mais bonecos, mas tudo é integrado de forma relativamente coerente e homogénea ao longo da narrativa com o argumento a apresentar inteligência suficiente para efectuar momentos que prometem agradar a crianças e a adultos. Não faltam referências a "Terminator", "Harry Potter", "Batman", "Super-Man", "Green Lantern", "Lord of the Rings", ao mesmo tempo que somos apresentados a uma miríade de mundos da Lego e a uma realidade primordial onde ficamos perante um espaço ditatorial dominado pelo temível Lord Business (Will Ferrell), um elemento que procura coartar a criatividade e criar um padrão de gosto popular. Os programas de televisão inócuos são o "ópio" para esquecer a realidade pueril e os perigos preparados pelo político, com todos os cidadãos comuns a terem de utilizar e seguir os livros de regras, num território onde tudo parece controlado por um sistema de segurança à la "Big Brother", com "The Lego Movie" a não ter problemas também em utilizar o conceito de "1984". No prólogo do filme encontramos Vitruvius (Morgan Freeman), um feiticeiro, e Lord Business a disputarem a "Kragle", uma super-arma, com o segundo a levar a melhor, algo que conduz o primeiro a profetizar que um indivíduo "especial" vai encontrar a "Peça da Resistência" que permitirá deter o antagonista e os efeitos da sua arma. O momento é marcado por toda uma tensão mas também alguma irreverência na procura em desconstruir as convenções do género, com Vitruvius a proferir um discurso emotivo e a salientar que toda a profecia é verdadeira “porque rima”. Diga-se que não vai ser caso único, com o argumento a aproveitar muitas das vezes para explorar situações aparentemente grandiosas para logo de seguida ironizar com as mesmas, tais como ser anunciado que o Lord Business vai efectuar uma entrada dramática, mas também o constante egocentrismo de Batman (Will Arnett), o facto de vários personagens pensarem que Wyldstyle é uma DJ devido ao nome tirando o impacto que esta pretende dar ao mesmo, as piadas da constante aversão de Super-Man a Green Lantern quando este último se aproxima, ou Emmet a apresentar de forma séria o sofá beliche que inventou ao mesmo tempo que o personagem que conta com a voz de Will Arnett exibe a decepção em relação ao protagonista de uma forma hilariante, em momentos que resultam em grande parte pelo timing e pelo tom com que as falas são expostas. Muito do que funciona em "The Lego Movie" centra-se no timing utilizado para colocar as piadas, bem como no próprio trabalho dos actores a nível vocal, com o elenco original a adequar-se praticamente na perfeição aos seus personagens, uma situação notória desde logo com a escolha de Chris Pratt para emprestar a sua voz a Emmet.

 Chris Pratt consegue atribuir um tom de voz de tipo aparentemente comum a Emmet, conseguindo convencer-nos da procura do personagem em ser simpático mas a raramente conseguir destacar-se, pelo menos até encontrar Wyldstyle (Elizabeth Banks), uma jovem irreverente que procura encontrar a "peça da resistência" no local onde o protagonista se encontra a trabalhar nas obras. Emmet é um simples construtor que trabalha e habita em Bricksburg, que raramente desperta a atenção de alguém, vive sozinho (ou acompanhado pela sua planta com quem toma o pequeno almoço) e é fã da música "Everything is Awesome", a canção do momento que procura expor o quão fantástico é o estilo de vida que o protagonista e os restantes habitantes de Bricksburg levam. Não anda assim tão distante com o que acontece nos dias de hoje, com uma canção ou duas a tornarem-se moda anualmente e a serem seguidas por um conjunto enorme de pessoas, embora "The Lego Movie" ironicamente crie uma música contagiante para expor algo comum à nossa sociedade, acabando por nos fazer cair na mesma "armadilha". Mas voltemos ao enredo. Esta música, programas, obras de construção civil, sistema de voto, vigilância, ou seja, quase tudo encontra-se a ser organizado pela Octane, a empresa do Lord Business, uma figura sinistra e pouco dada a grandes liberdades criativas no território que comanda. Emmet acaba inesperadamente por encontrar a peça destinada a ser descoberta pelo "escolhido", algo que o leva a ser protegido por Wyldstyle e perseguido por Bad Cop/Good Cop (Liam Neeson), um agente da autoridade com dupla personalidade que se encontra ao serviço de Lord Business. Bad Cop/Good Cop interroga o protagonista em momentos a variarem o intenso quando é o lado mau do polícia e cómicos quando é o segundo, até Wyldstyle irromper pelo local e efectuar um comentário "à Terminator" ao salientar "vem comigo se não quiseres morrer" (invertendo o "come with me if you want to live"). Estes momentos ocorrem oito anos e meio depois dos acontecimentos do prólogo, com Emmett a não resistir à curiosidade sentida em relação à estranha e a ficar afectado pela peça qual anel de "O Senhor dos Anéis". A peça vermelha fica colada a Emmett, com este a ser transportado por Wyldstyle até ao The Old West, uma dimensão distinta da Bricksburg, com "The Lego Movie" a dar-nos a noção que existem vários territórios para explorar (e as possibilidades que esta situação pode dar para as sequelas). É neste local que encontramos Vitruvius, com o feiticeiro a procurar manter-se escondido do seu inimigo. No The Old West, Wyldstyle e Vitrivius descobrem que Emmet não é um Master Builder, ou seja, não consegue construir nada sem o auxílio de um livro de instruções, algo que inicialmente gera alguma decepção. Lord Business procurou enclausurar vários dos Master Builders, de forma a evitar o livre pensamento e a criatividade, um pouco como aqueles elementos que utilizam os legos como peças inamovíveis após as montarem, seguindo à risca as instruções sem tentarem dar largas à imaginação que estas colecções podem proporcionar (levanta uma interessante dicotomia entre as peças da Lego para criar e brincar ou apenas para montar algo seguindo tudo à risca). O cenário do Velho Oeste é marcado pelo Saloon, mas também pela perseguição do Bad Cop/Good Cop, com Wyldstyle, Emmet e Vitruvius a terem de fugir dos aliados do Lord Business, em momentos frenéticos pelas areias do Velho Oeste. Não faltam sons associados aos westerns, bem como vários personagens e cenários da Lego associados ao Velho Oeste, com o fumo, a água e os tiros das pistolas a surgirem em formato de peças. Apesar de Emmet ter um momento de estranha inspiração que os acaba por salvar de caírem num penhasco, quem acaba por resgatar o trio é Batman, com Will Arnett a parecer tirar um enorme gozo a dar voz a este personagem que é exposto com muita ironia na narrativa.

 Batman surge como um herói egocêntrico, que conta com uma voz imponente (claramente existe uma paródia ao tom sério dado por Christopher Nolan a Batman), tem uma relação amorosa com Wyldstyle (que por sua vez desperta o interesse amoroso de Emmet) e gosta de realçar as suas qualidades e o equipamento de ponta do seu batmobile. Nesta versão o Batman até compõe e canta uma música onde realça que os seus pais foram assassinados, algo que surge presente em quase toda a santa história sobre o personagem (vide este vídeo), com o argumento a revelar-se aguçado nos momentos mais satíricos. É então que o quarteto se desloca até à Middle Zealand, onde sobem um arco-íris para chegarem até à Cuckoo Cloud, um local cheio de cor e alegria, que logo irrita Batman, onde não existem regras e se encontra a Princesa Unikitty (Elizabeth Banks), uma personagem meio gata, meio unicórnio, de tonalidades cor-de-rosa e uma irritante simpatia que vira uma fera quando é colocada no limite (como diria John Rambo "When you're pushed, killing is as easy as breathing"). Diga-se que, a par de Batman, esta é a personagem que rouba mais sorrisos, sendo delicioso ver esta a lembrar-se de elementos que a alegrem num momento de maior tristeza só para afastar os pensamentos menos positivos e exibir uma postura sorridente. É nas imediações deste local apresentado por Unikitty que se vão reunir vários Master Builders, entre os quais Super-Man, Tartarugas Ninja, Milhouse, Shaquille O'Neal, Abraham Lincoln, Green Lantern, entre outros que não mostram grande entusiasmo para com Emmet, apesar de caber a este ser o elemento responsável por salvar o destino de tudo e todos ao longo desta frenética obra de animação. Phil Lord e Chris Miller não poupam em perseguições, cenas de acção intensas, muito humor, uma miríade de personagens e um vasto conjunto de cenários que nos mantêm em alta rotação num filme que praticamente nos obriga a um segundo visionamento para conseguirmos captar todas as referências. A premissa base não é das mais originais mas é explorada com acerto, com "The Lego Movie" a dar uma lição às sagas cinematográficas de "Transformers" e "G.I. Joe" de como é possível criar uma história aprazível e até com alguns momentos de inteligência tendo como inspiração um conjunto de bonecos. Não vão faltar vários bonecos anónimos da Lego a rodearem o enredo, mas também vários elementos associados à cultura pop, enquanto assistimos à procura dos personagens em evitar que o Lord Business coloque em prática o seu plano de utilizar a Kragle na "Terça do Taco", um dia supostamente de celebração mas que na realidade servirá para os planos malignos do antagonista. Na realidade a Kragle é um tubo de cola, com o último terço a acabar por expor de forma demasiado óbvia algumas interpretações que podemos tirar sobre a utilização da mesma. Diga-se que a reviravolta, apesar de corajosa, também não é totalmente necessária, ou pelo menos poderia ter sido feita de forma a respeitar o formato do filme, com Phil Lord e Chris Miller a quererem tirar um coelho da cartola que cause efeito de surpresa no espectador. No entanto, não deixa de ser interessante esta dicotomia entre ter os bonecos da Lego para estarem colados ou utilizar os mesmos para brincar sem respeitar as regras, com os brinquedos desta marca a surgirem assim associados à criatividade (mais acima já tinha feito referência que "The Lego Movie" conta com uma faceta de divulgação da marca, embora volte a repetir, utilizada com inteligência), num filme de aventura e humor que por vezes procura subverter as convenções dos géneros nos quais se integra ao mesmo tempo que sabe utilizar as mesmas.

 O humor é assertivo, embora como em qualquer filme do género nem sempre resulte, com "The Lego Movie" a não poupar nas piadas sobre elementos da cultura popular, tais como trocadilhos sobre o nome Dumbledore, para além do caso já citado de Batman, ao mesmo tempo que assistimos a uma mescla de personagens que vão desde Legos anónimos até super-heróis bem conhecidos. No entanto, cabe a Emmet, um boneco da Lego anónimo, ser o herói do dia, com Chris Pratt a assumir com competência a voz deste elemento que até então pouco se destacara no interior da sociedade que o rodeava. Emmet é também um caso onde o trabalho a nível de vozes acaba por ter um papel de enorme relevo. Se de Chris Pratt e Will Arnett já falámos, vale a pena salientar a tranquilidade e imponência da voz de Morgan Freeman como Vetruvius, a malícia e exagero na voz de Will Ferrel como Lord Business a simbolizar a megalomania do personagem que conta com o apoio de um polícia com problemas de personalidade. Liam Neeson, actor predilecto da dupla "Key & Peele" (vide este vídeo), dá voz a este polícia que varia entre a fúria e a simpatia, sendo uma das escolhas mais felizes para o elenco vocal, já para não falar de Alison Brie como a Princesa Unikitty, uma personagem quase irritante de tanta doçura que apresenta mas que nos promete fazer rir como poucos elementos que constam do filme. Unikitty, tal como Metal Beard (Nick Offerman), um Master Builder em forma de pirata que se quer vingar do antagonista, e Benny (Charlie Day), um elemento viciado em construir naves, vão acompanhar Emmet, Batman e Wyldstyle na sua jornada para travarem os planos do antagonista. Temos em oposição um grupo de heróis que defende a criatividade contra um antagonista que pretende eliminar a mesma, com o protagonista a não ser um poço de criatividade mas a ter qualidades inatas para a liderança que gradualmente vão sendo reveladas. A premissa não é inovadora, mas "The Lego Movie" sobressai exactamente pela capacidade da dupla de realizadores em saber jogar com as convenções e até subverter as mesmas, num filme marcado por muito humor (quer para adultos, quer momentos mais infantis para chegar aos mais novos), aventura, um ritmo frenético e um meticuloso trabalho a nível de animação que procura reproduzir a forma como podemos movimentar os bonecos da Lego (quase a fazer recordar stop-motion embora seja em CGI). No final fica a ideia que "The Lego Movie" consegue conjugar harmoniosamente a sua vertente mais comercial de procurar explorar a marca Lego no cinema e vender mais brinquedos, ao mesmo tempo que nos proporciona alguns agradáveis momentos cinematográficos que prometem agradar ao público de várias idades, naquele que é um aprazível e divertido pedaço de entretenimento.

Título original: "The Lego Movie".
Título em Portugal: "O Filme Lego".
Realizadores: Phil Lord e Chris Miller.
Argumentistas: Phil Lord e Chris Miller.
Elenco vocal: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett, Nick Offerman, Alison Brie, Charlie Day, Liam Neeson, Morgan Freeman.

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