09 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Knife in the Water" (A Faca na Água)

 Andrzej (Leon Niemczyk) e Krystyna (Jolanta Umecka) formam um casal de classe média/alta que se prepara para desfrutar de um dia de sossego no mar no interior do barco de ambos. Ou pelo menos estes eram os planos iniciais do casal, com ambos a depararem-se pelo caminho com um estranho indivíduo que se coloca em frente ao seu carro, com Andrzej a quase atropelar o mesmo. Este indivíduo (Zygmunt Malanowicz) é bastante mais jovem, caminhando sem rumo, acompanhado por uma mala onde consta uma faca. É sobre este trio de personagens que se vai centrar o enredo de "Knife in the Water", a primeira longa-metragem realizada por Roman Polanski, com o cineasta a contar com um elenco onde constavam dois estreantes na interpretação cinematográfica, Jolanta Umecka e Zygmunt Malanowicz. O resultado final é uma obra de grande interesse, não só por estarmos nos primórdios da carreira de Polanski, mas também por já encontrarmos a capacidade deste em explorar histórias que se desenrolam num cenário restrito ao mesmo tempo que adensa gradualmente a tensão em volta dos seus personagens, algo que vai marcar outros filmes do cineasta, tais como "Repulsion", "Rosemary's Baby", "The Tenant", "The Ghost Writer", entre outros. Andrzej é um homem maduro, capaz de velejar sem problemas, cujas histórias entediam o seu interlocutor, tendo em Krystyna uma esposa com quem demonstra alguma aparente cumplicidade e no seu cachimbo um vício. Krystyna é uma bela mulher, aparentemente calma e pouco faladora, que parece incapaz de se impor ao esposo, pelo menos até ao último terço do filme onde percebemos claramente que nem tudo vai bem entre os dois. Andrzej escreve para o Sports Courier, procurando demonstrar a sua superioridade junto do seu interlocutor em vários momentos, sobretudo para se evidenciar, chegando ao ponto de estranhamente o convidar a velejar consigo. Quais as razões para o convite? Parece ficar implícito que o casal não poderá ser tão feliz como aparenta, trazendo assim um novo ingrediente a um dia que poderia ser banal e assim terá o seu quê de inesperado devido a não se saber o que esperar do jovem. Forma-se uma estranha relação entre estes três, onde gradualmente assistimos a um crescer de tensão entre Andrzej e o jovem, sobretudo quando este último não tem problema em espreitar Krystyna quando esta se encontra a trocar de roupa ou quando lhe tiram a sua faca. Ao longo do filme assistimos a este trio no interior do barco, quer a dialogar bastante, quer a efectuar jogos, quer a esgrimir argumentos, quer a ter de lidar com um acidente que encalha temporariamente o veículo, com Roman Polanski a utilizar apenas estes três personagens ao longo do enredo, estabelecendo as suas personalidades e os seus relacionamentos até nos dar um final surpreendente. Inicialmente o calor parece ser latente, com a dupla masculina a andar durante boa parte do filme em tronco nu, enquanto Krystyna utiliza um biquíni que realça as suas formas corporais e parece torná-la como objecto de desejo destes dois homens, apesar de durante boa parte do tempo existir uma certa repressão dos sentimentos do jovem em relação a esta. Quando começa a chover são obrigados a ir para o interior de um espaço inferior do barco, onde ficam ainda mais fechados, embora a intimidade não seja muita. Ingerem bebida alcoólica para aquecerem e se soltarem, jogam, no caso de Krystyna até canta, enquanto o personagem interpretado por Zygmund Malanowski recita poesia, até acordarem e surgirem ainda mais divergências, com o facto de Andrzej esconder a faca do jovem a despoletar uma enorme raiva junto deste último.

 O jovem e Andrzej apresentam diversas diferenças e uma crescente rivalidade que se torna quase infantil. O personagem interpretado por Leon Niemczyk parece mais culto e mais experiente, mas também mais arrogante, não tendo problemas em colocar o jovem a comandar o barco para demonstrar a dificuldade deste acto e a incapacidade do seu interlocutor. Diga-se que os dois entram em pequenas querelas em várias situações, por vezes a parecer para ver quem é “mais homem”, seja quando o jovem anda com uma faca a fazer pontaria por entre os espaços dos dedos no barco, seja quando Andrzej segura uma panela com uma pega para não se queimar e o personagem interpretado por Zygmunt Malanowicz ironiza com a incapacidade deste em segurar o recipiente quando se encontra quente, entre vários outros momentos ao longo de "Knife in the Water". Roman Polanski apresenta uma maturidade surpreendente na sua primeira longa-metragem, conduzindo uma narrativa diminuta no número de personagens e grande na sua ambição, com este a desafiar o regime comunista da Polónia com uma obra que não agradou aos seus elementos. Veja-se Wladyslaw Gomulka, na época líder do Partido Comunista e da Polónia, que salientou sobre "Knife in the Water": "displayed the kind of thinking for which there is no place anywhere in the Communist world". Seria a primeira longa-metragem de Roman Polanski na Polónia e a última até filmar alguns trechos de "The Pianist" no território, com o cineasta a conseguir construir uma carreira sólida apesar dos vários problemas do foro pessoal. Em "Knife in the Water", Roman Polanski já demonstra traços bastante interessantes que vão marcar a sua carreira, incluindo a utilização paradigmática dos espaços e a criação de algumas imagens em movimento que ficam na memória, bem como a tensão gradual ao longo do enredo. A cinematografia de Jerzy Lipman destaca-se quer a criar uma atmosfera meio sufocante quando os personagens estão no interior do espaço inferior do barco, quer a explorar os planos gerais onde nos deixa perante o cenário do mar que dá todo um clima de claustrofobia em relação ao que pode acontecer aos personagens, quer a expor os corpos e os sentimentos dos mesmos. O argumento, escrito por Jerzy Skolimowski (vale a pena dar uma olhadela na carreira deste senhor como realizador), Roman Polanski e Jakub Goldberg, consegue explorar estas estranhas dinâmicas entre os personagens e conceder-lhes dimensão, enquanto os elementos do elenco cumprem com competência nos respectivos papéis. Jolanta Umecka como uma mulher misteriosa e muitas das vezes silenciosa que parece algo subjugada a Andrzej, parecendo bem mais nova do que este, que nem sempre compreende, tal como nós, a atitude do marido em trazer o jovem para passar com estes o dia que tiraram para descansar e viajar no barco. Logo nos momentos iniciais percebemos a procura de Andrzej em ser um elemento controlador, com este a deixar a mulher conduzir durante algum tempo, até tirar o carro do comando da mesma, tal como irá procurar sempre ser ele a capitanear o barco. Já do personagem interpretado por Zygmunt Malanowicz nunca sabemos bem o que esperar, ou não fosse este um estranho para o casal e para nós, revelando uma personalidade que varia entre o afável e o inconveniente, protagonizando alguns momentos intensos com Andrzej e de erotismo com a protagonista. Leon Niemczyk cria um personagem com quem nem sempre é fácil de gerarmos afinidade, tanto capaz de convidar um estranho que anda à boleia a passar o dia consigo e a sua mulher, como procura demonstrar a sua superioridade em relação ao mesmo. Veja-se quando proíbe o jovem de assobiar, bem como quando atira a faca ao mar, entre um conjunto de actos que o exibem como um homem que gosta de estar no controlo, parecendo algo intimidado pela juventude e irreverência do seu convidado. No entanto, o grande arquitecto do sucesso do filme é mesmo Roman Polanski ao controlar os ritmos da narrativa, explorando o argumento de forma muito segura, ao mesmo tempo que nos surpreende num último terço onde nos deixa perante os elementos inesperados que podem surgir dos relacionamentos entre os seres humanos. 

Título original: "Nóz w wodzie".
Título em inglês: "Knife in the Water".
Título em Portugal: "A Faca na Água". 
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: Jerzy Skolimowski, Roman Polanski, Jakub Goldberg.
Elenco: Leon Niemczyk, Jolanta Umecka, Zygmunt Malanowicz.

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