29 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Ghost Writer" (O Escritor Fantasma)

 Thriller político com muitas conspirações, intrigas e inspiração em casos reais, "The Ghost Writer" não poupa o seu protagonista, um escritor fantasma (Ewan McGregor), a um conjunto de descobertas que prometem colocar a sua vida em perigo. Roman Polanski é um mestre a gerar a paranoia e o mistério, voltando a exibir a sua mestria em "The Ghost Writer" ao transformar uma história aparentemente simples sobre um indivíduo que foi contratado como escritor fantasma pela Rhinehart Inc, uma grande empresa ligada à publicação e edição literária, para elaborar a autobiografia de Adam Lang (Pierce Brosnan), o antigo (e ficcional) Primeiro-Ministro britânico, num thriller misterioso onde os perigos podem estar onde menos se espera. O caso começa desde logo por ser bizarro devido ao protagonista conseguir o cargo após Mike McAra, o seu antecessor no trabalho e antigo assessor de Lang, ter falecido, especulando-se que este se suicidou ou sofreu um acidente, tendo morrido afogado em condições algo estranhas. No entanto, o pagamento é praticamente irrecusável com o personagem interpretado por Ewan McGregor a receber 250 mil dólares por cerca de um mês de trabalho para alterar um manuscrito praticamente finalizado, embora o resultado não agrade à maioria dos envolvidos. Ainda em Inglaterra este é assaltado após a reunião onde fora contratado, num evento que o escritor pensa estar ligado ao facto de lhe terem dado um manuscrito de outra obra, algo que poderá ter servido de isco para os assaltantes pensarem que era a autobiografia de Adam Lang. O protagonista fica visivelmente abalado, embora este incidente não o conduza a desistir do trabalho. É então que o escritor viaja até aos EUA, onde se encontra Adam Lang, acompanhado por Ruth (Olivia Williams), a esposa do ex-Primeiro Ministro, bem como Amelia Bly (Kim Cattrall), a secretária e suposta amante do personagem interpretado por Pierce Brosnan. O local é marcado pelas tonalidades frias e algumas paredes de vidro que permitem ver o exterior da casa onde estes se encontram, pertencente a Marty Rhinehart, localizada em Old Haven, um território ficcional isolado localizado no Massachusetts. A segurança no local é levada ao extremo, sobretudo a partir do momento em que eclode a notícia de que Adam Lang permitiu a utilização de soldados britânicos para capturarem supostos terroristas no Paquistão, em parceria com os EUA, algo que resultou na morte de um dos elementos torturados. Adam é acusado por elementos como Richard Rycart (Robert Pugh), o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, preparando-se para ser investigado e por ver entrar um processo contra a sua pessoa no Tribunal Europeu em Haia, algo que conta com o apoio do Governo Britânico. Neste sentido, se regressar a casa, Lang poderá ser detido para ser interrogado devido a crimes de guerra, com as suas fortes ligações aos EUA a fazerem-no ponderar ficar no território, reunindo-se até com ministros americanos para conseguir tentar mudar a opinião pública local. Os protestos são mais do que muitos, com o escritor fantasma a parecer ter aparecido no tempo errado e na altura errada da vida deste antigo político que claramente omite verdades nas poucas conversas que têm para a biografia, tais como as suas motivações para a entrada no mundo da política, embora quem guarde mais segredos seja a sua esposa. 

Roman Polanski volta a explorar um espaço maioritariamente fechado como cenário primordial, com a propriedade onde se encontra o protagonista, o político, o seu staff e Ruth a encontrar-se rodeada de alta segurança, enquanto no exterior encontramos a presença do mar e um território quase desértico, algo que adensa ainda mais o isolamento desta habitação. Este cenário é um espaço decorado de forma moderna, embora nem sempre transmita acolhimento, com a presença de elementos do staff do político a adensarem esta impessoalidade. Inicialmente é pedido ao escritor que leia todo o manuscrito em seis horas, com este a não ficar excepcionalmente impressionado com o resultado final, bem pelo contrário, algo que expõe a Ruth. A relação do escritor com Ruth parece sempre ser mais cordial do que com Adam Lang, com este último a não gostar de falar sobre certos assuntos incómodos que podem manchar ainda mais a sua reputação como político, tais como a sua actividade como actor em Cambridge. Diga-se que, apesar das várias questões colocadas, o protagonista nem é um indivíduo muito interessado em política, algo que o levou a ser seleccionado para o lugar, em parte devido a pretender chegar ao coração dos leitores e não escrever mais um texto burocrático e entediante que pouco lucro traria à editora. Este escritor fantasma aos poucos percebe que nem tudo bate certo em relação ao passado de Adam, tal como a morte de McAra parece ganhar contornos suspeitos quando um habitante local (Eli Wallach num pequeno mas marcante papel) diz que seria impossível o corpo ser levado para aquela direcção por aquelas ondas. Temos ainda a descoberta da possível ligação de Adam a Paul Emmett (Tom Wilkinson), ambos estudantes em Cambridge durante um período das suas vidas, com o protagonista a perceber que este último conta com uma ligação à CIA. Emmett ainda tenta desmentir a ligação a Adam, mas o protagonista consegue entrar em contacto com o personagem interpretado por Tom Wilkinson e exibir a foto que Mike McAra escondera num espaço pessoal do seu gabinete, com esta a servir como prova de que os dois primeiros chegaram a manter alguma proximidade nos tempos de estudantes. Tom Wilkinson surge misterioso e com um ar sempre pouco confiável como Emmett, embora só tenhamos certezas sobre o seu personagem com o avançar da narrativa, com o escritor a envolver-se por caminhos por onde provavelmente não devia ao procurar investigar a fundo a vida do biografado. Ewan McGregor interpreta com a sobriedade necessária este escritor fantasma que se envolveu num trabalho por dinheiro e acaba por encontrar uma realidade bem mais problemática do que esperava. Adam encontra-se a ser alvo de protestos populares e a ser fortemente atacado pela imprensa, a relação deste com a esposa já parece ter conhecido melhores dias, enquanto o escritor tem enormes dificuldades em avançar com o seu trabalho tendo em conta o constante turbilhão de acontecimentos que rodeiam o antigo político. Diga-se que quando tenta ir mais a fundo parece melindrar o político, ao mesmo tempo que percebe que o mito sobre a sua pessoa está completamente em queda e o livro provavelmente irá conter algumas inverdades, um pouco ao jeito da Governação de Adam. O personagem a quem Ewan McGregor dá vida ainda tenta ir para um hotel para se concentrar no trabalho, mas o staff do político não o permite devido aos protestos contra Adam que assolam as ruas, com este aos poucos a pensar, e a ter razões para isso, de que se encontra a ser perseguido. Estamos diante de um thriller de Roman Polanski por isso não poderiam faltar elementos como paranoia, mistério, algum suspense e pessimismo, numa obra que conta ainda com alguns momentos de humor, na maioria devido ao sarcasmo do escritor fantasma que não tem problemas em atirar com uma piada nos momentos mais indevidos. 

 O cineasta volta ainda a explorar os espaços fechados com a habilidade exímia do costume, algo que vai desde a espaçosa casa rodeada de elementos de vigilância para o protagonista escrever o livro, passando pelo quarto de hotel que parece ter sido invadido, para além do encontro na casa do misterioso Paul Emmett, até ao encontro do personagem interpretado por Ewan McGregor com Richard Rycart no café num momento a fazer recordar os melhores thrillers políticos dos anos 70. A paleta cromática é marcada muitas das vezes por tonalidades frias, tal como a temperatura que rodeia os espaços por onde estes personagens se deslocam está longe de ser a mais calorosa, não faltando precipitação e nuvens carregadas, embora os sentimentos estejam ao rubro e muitas das vezes prontos a entrar em erupção. Será possível que o protagonista esteja em perigo? Quais os casos escondidos por Adam? Estará o envolvimento de Paul Emmett com a CIA ligado à ascensão do político? A forte ligação de Adam aos EUA parece trazer consigo uma enorme inspiração nas políticas de Tony Blair, bem como à contestação a este último, embora Roman Polanski prefira utilizar um personagem ficcional para efectuar um thriller onde se embrenha pelos meandros da política e da escrita das biografias com recurso a escritores fantasmas. Pierce Brosnan é um dos destaques óbvios, naquele que é um dos grandes papéis deste actor nos anos mais recentes, atribuindo sempre ao seu personagem uma convicção típica dos políticos, por vezes a parecer acreditar nas suas próprias mentiras e historietas, embora carregue consigo uma aura de figura respeitável apesar dos seus actos nem sempre condizerem com a mesma. Também é eficaz a demonstrar o lado mais agressivo de Adam, enquanto Olivia Williams não se fica atrás dos seus colegas de elenco ao interpretar a aparentemente dedicada esposa do ex-político, uma mulher que conserva ainda um enorme charme, personalidade e segredos que apenas iremos descobrir nos momentos finais. A tensão é latente ao longo do filme, começando desde logo nos momentos iniciais quando vemos o corpo de Mike McAra a dar à costa, passando pelo assalto ao protagonista até a todos os episódios que rodeiam a estadia deste nos EUA e a sua curta fuga da casa do político, com Roman  Polanski a revelar-se mais uma vez exímio em criar uma inquietação crescente junto do espectador. "The Ghost Writer" surge-nos assim como um thriller inteligente e intrigante, marcado por personagens bem construídos e interpretados com mestria, numa obra onde não falta algum mistério e paranoia muito ao jeito do melhor Roman Polanski.

Título original: "The Ghost Writer".
Título em Portugal: "O Escritor Fantasma".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Roman Polanski e Robert Harris (baseado no livro "The Ghost" de Robert Harris).
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Cattrall, Olivia Williams, Tom Wilkinson, Timothy Hutton, Eli Wallach.

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