11 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Fearless Vampire Killers" (Por Favor Não Me Mordam o Pescoço)

 Mesclando elemento de comédia e terror, "The Fearless Vampire Killers" coloca-nos perante o Professor Abronsius (Jack MacGowran) e Alfred (Roman Polanski), o seu fiel e atrapalhado assistente. O professor Abronsius é conhecido pelos seus estudos sobre vampiros, tendo sido desacreditado por esta obsessão e demitido da Universidade de Königsberg, viajando de local em local com Alfred, o seu único e fiel seguidor. Jack MacGowran atribui quase sempre um tom pitoresco ao personagem que interpreta, um indivíduo de idade algo avançada, a fazer-nos recordar um pouco o Inspector Clouseau, tal a sua atrapalhação, embora as suas teorias sobre vampiros até estejam mais certas do que todos pensam. Este é quase sempre acompanhado por Alfred, um personagem interpretado por Roman Polanski, o realizador do filme, que dirige uma obra que nos aparece num registo distinto das suas fitas mais tensas e sérias como "The Knife in the Water", "Cul-de-sac", "Repulsion", "Rosemary's Baby", "The Tenant", entre outras, remetendo até um pouco para o tom mais leve de "Venus in Fur", uma das suas obras mais recentes, onde a guerra dos sexos surge representada com um tom algo humorístico. Polanski também protagonizaria algumas das suas obras, tais como "The Tenant", tendo em Alfred um ajudante de caçador de vampiros que apresenta um enorme receio em relação aos mesmos, para além de uma notória falta de coragem e atrapalhação, algo latente quando tem de colocar uma estaca numa destas criaturas mas não consegue tal a sua falta de sangue frio. Se a Alfred falta sangue frio, no caso dos cenários que rodeiam o filme não falta neve e pouca iluminação, ou não estivessem os protagonistas a chegar à Transilvânia no início de "The Fearless Vampire Killers", uma obra cinematográfica cujo título até entra em contradição com o personagem interpretado por Roman Polanski e Abronsius. Estes dois elementos até são bem intencionados nos seus propósitos de procurarem encontrar o Conde Drácula e vampiros, mas são muitas das vezes inconsequentes e por vezes até incompetentes no cumprimento dos seus desideratos, encontrando numa pequena estalagem da Transilvânia os primeiros indícios reais de que estes seres podem existir. A estalagem pertence a Yoine Shagal (Alfie Bass), um indivíduo casado com Rebecca (Jessie Robins), embora tenha um caso com Magda (Fiona Lewis), a sua funcionária. A chegada da dupla de protagonistas a este cenário recheado de figuras peculiares surge desde logo marcada por algum humor, com o professor a encontrar-se imóvel, praticamente congelado, sendo necessária uma série de cuidados que exemplificam o tom leve que Roman Polanski pretende juntar aos elementos de terror em "The Fearless Vampire Killers". A estalagem encontra-se largamente decorada com alho, com os dois novos hóspedes a nunca terem respostas directas sobre as causas desta planta se encontrar a rodear o local, tendo na visita de Koukol (Terry Downes), um elemento corcunda e deformado, o primeiro personagem suspeito ou não fosse este um servo do Conde von Krolock (Ferdy Mayne), um vampiro que morde o pescoço e rapta Sarah Shagal (Sharon Tate), a bela filha dos estalajadeiros, para a transformar em vampira. Esta chamara desde logo à atenção pela sua enorme beleza e roupas decotadas, com Alfred a não esconder a sua admiração pela mesma e pelas suas partes corporais mais descobertas. Também Yoine acaba por ser transformado em vampiro, com Alfred e o professor Abronsius a tomarem a decisão de entrarem no castelo de Krolock para recuperarem Sarah e eliminarem alguns vampiros. O castelo surge como um local espaçoso e gótico, com uma aura algo tenebrosa, embora a dupla de protagonistas logo alivie o possível clima pesado que ameaça rodear o filme com as suas tentativas de entrada no cenário.

Krolock é uma figura com alguma presença, com roupas e uma capacidade para a oratória que lhe dão uma aura de superioridade, tendo um castelo onde sobressai a enorme biblioteca mas também o salão de baile e o local onde se encontram os túmulos onde os vampiros descansam durante o dia. Este tem em Herbert von Krolock (Iain Quarrier), o seu único herdeiro, um elemento homossexual, vestido de tonalidades como azul bebé, que se interessa por Alfred. Por sua vez Alfred interessa-se por Sarah, com a sua procura em entrar no castelo a estar muito ligada a esta bela mulher interpretada por Sharon Tate, uma actriz que viria a ter um curto casamento com Roman Polanski devido a ter sido assassinada em 1969 por um grupo chamado de "Família Manson". Tate surge bela e hipnotizante como esta ruiva que está prestes a transformar-se numa vampira, despertando as atenções destes seres e do atrapalhado protagonista, ao longo de um filme que apresenta um tom bem mais leve do que "Repulsion", a obra anterior de Roman Polanski, apesar deste voltar a evidenciar elementos já presentes nos seus trabalhos anteriores, tais como a capacidade de criar tensão, a utilização paradigmática dos cenários e dos espaços fechados, entre outros elementos. Se em "Repulsion" a obra tinha sido filmada a preto e branco, em "The Fearless Vampire Killers" temos uma obra onde a paleta cromática tem um enorme relevo, seja para expor as personalidades dos personagens (veja-se as roupas mais coloridas dos von Krolock em relação à dupla de caçadores vampiros, com o personagem interpretado por Ferdy Mayne a utilizar um casaco vermelho, cor do sangue), seja para expor as marcas vermelhas da mordidela dos vampiros, seja para incrementar a famosa cena do baile. O baile tem como anfitrião o Conde von Krolock, que aproveita o evento para apresentar Sarah aos restantes vampiros, num momento de grande inspiração de "The Fearless Vampire Killers", coreografado por Tutte Lemkow ("Fiddler on the Roof"), onde sobressai mais uma vez a mescla desta atmosfera próxima de um pesadelo que rodeia o castelo com o humor da presença da dupla de protagonistas para resgatar a personagem interpretada por Sharon Tate. Alfred e Abronsius infiltram-se no baile, com o primeiro a procurar tirar Sarah do local. As cenas interiores foram filmadas na sua maioria em sets em Londres, enquanto as cenas exteriores foram gravadas nos Alpes, com os cenários rodeados pela neve a exibirem bem o quão pouco aprazível é este território. Diga-se que é um espaço que certamente afastaria várias pessoas, mas não tira a curiosidade a Ambrosius, um investigador que nos surge inicialmente acompanhado pelo seu chapéu e cachecol de elevadas dimensões, um bigode farfalhudo, longos cabelos brancos e uma enorme vontade em comprovar as suas teorias embora inicialmente até contacte com um vampiro sem parecer estar ciente disso ou pelo menos muito preocupado, algo comprovado por aceitar passar a noite no local, uma situação que gera um enorme receio em Alfred. Este logo pega numa estaca e em alho, com "The Fearless Vampire Killers" a respeitar um pouco a mitologia dos vampiros como seres com medo da cruz, que não gostam do cheiro de alho, descansam durante o dia e são sensíveis à luz do Sol, ou seja, totalmente diferente dos vampiros purpurina da saga "Twilight". Minto quando digo que os vampiros têm medo da cruz, devido Yoine ser transformado em vampiro mas a não temer a cruz devido a ser judeu, com o filme a não ter problemas em ironizar com os clichés associados ao género, ou não estivéssemos perante uma paródia aos filmes de vampiros.

 "The Fearless Vampire Killers" apresenta ainda uma dimensão mais ambiciosa em relação a alguns dos trabalhos anteriores de Roman Polanski, tais como "Knife in the Water" onde tínhamos um curto orçamento e apenas três personagens em boa parte tempo do tempo num barco, ou "Repulsion" onde tínhamos a queda da protagonista num abismo psicológico difícil de sair, tendo boa parte do enredo tido lugar no apartamento onde esta vive com a irmã. Em "The Fearless Vampire Killers" encontramos desde logo os cenários exteriores filmados nos Alpes e recheados de neve, cenários interiores como a estalagem e o castelo, sobressaindo sobretudo este último, não só devido à decoração mas também devido à sua dimensão. Para além do salão onde ocorre o baile e a biblioteca do protagonista, temos ainda o local onde se encontram os caixões onde dormem durante o dia o Conde von Krolock e o filho, bem como um espaço onde se encontram os diversos túmulos de vampiros, algo que nos deixa com a certeza naquele momento do enredo que existem muitos mais elementos desta espécie do que os personagens interpretados por Iain Quarrer e Ferdy Maine. Quarrer atribui um tom algo efeminado ao seu personagem, enquanto Maine procura dar ao seu personagem uma aura de superioridade como se tivesse a certeza em relação ao cumprimento dos seus objectivos. Já Professor Abronsius e Alfred finalmente encontram vampiros mas parecem demasiado incompetentes para lhes conseguirem fazer frente, correndo alguns perigos pelo caminho, ao mesmo tempo que desperdiçam oportunidades únicas para eliminarem os seus inimigos. O argumento é eficaz, embora longe de ser brilhante, sendo capaz de construir uma dupla de protagonistas peculiar e um antagonista de peso, sobressaindo sobretudo pela forma como mescla eficazmente terror e humor, ao mesmo tempo que nos deixa com episódios como Abronsius a colocar uma estaca num barril e aproveitar para beber vinhaça (a remeter para o sangue a jorrar), o professor preso enquanto o seu discípulo não consegue colocar uma estaca num vampiro, um caçador de vampiros que apresenta mais cobardia do que curiosidade, entre vários outros momentos que são mesclados com a tensão da noite que a dupla passa na casa do conde. O terror rodeia o enredo, mas também o humor, com o cineasta a conseguir criar um equilíbrio que faz com que a obra nunca perca o interesse, mantendo-nos atentos aos eventos que rodeiam a dupla de protagonistas, com Roman Polanski e Jack MacGowran a apresentarem uma dinâmica interessante como estes investigadores e caçadores de vampiros que vão contribuir mais para a disseminação destes seres do que para a eliminação dos mesmos. No final não falta alguma tensão, risos, cenários interiores que apresentam um enorme cuidado na sua decoração e utilização, uma história simples mas capaz de nos prender, com Polanski a expor um lado mais leve que nem sempre apresenta nas  suas obras nesta paródia aos filmes de terror de série B.

Título original: "The Fearless Vampire Killers".
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: Roman Polanski e Gérard Brach.
Elenco: Jack MacGowran, Roman Polanski, Sharon Tate, Ferdy Mayne.

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