05 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Exodus: Gods and Kings" (Exodus: Deuses e Reis)

 Fossem todos os problemas de "Exodus: Gods and Kings" o facto do filme contar com um elenco principal praticamente ocidental e estaríamos bem. Diga-se que esta é uma não polémica, sobretudo se tivermos em conta que Ridley Scott só conseguiria o financiamento do filme com actores e actrizes conhecidos do público (algo que explica a presença de Sigourney Weaver a interpretar uma personagem unidimensional que é incapaz de beneficiar do talento da actriz), tal como "Exodus: Gods and Kings" só está a ter uma atenção global devido, em boa parte, ao seu elenco, já para não falar que Charlton Heston em "The Ten Commandments" também estava longe de satisfazer o padrão que os moralistas exigem. Ah, então e casos como o "Apocalypto"? Mel Gibson é um realizador com alguma coragem e ideias muito próprias, algo que explica esta opção de realizar a obra com actores praticamente desconhecidos do grande público, para além do filme apresentar um orçamento muito menor (40 milhões de dólares contra provavelmente mais de 140 milhões de dólares de "Exodus: Gods and Kings"). Diga-se que Mel Gibson tem em "Braveheart" um épico histórico inspirador e capaz de emocionar que contrasta com a falta de emoção que Ridley Scott incute a "Exodus: Gods and Kings". Os cenários despertam a atenção e o fascínio do nosso olhar, sejam estes a cidade de Tebas, sejam os territórios montanhosos, bem como o guarda-roupa pronto a dar um tom de época e até o trabalho de caracterização, mas muito do que vemos ao longo de "Exodus: Gods and Kings" parece ter sido realizado sem paixão, com muitos dos personagens secundários a serem completamente descurados ao longo do filme sendo meras caricaturas de uma obra que começa logo com o pé esquerdo ao nos oferecer uma batalha em Kadesh onde se encontram Moisés e Ramsés, onde o primeiro revela toda a sua capacidade militar e o estúdio demonstra a sua habilidade a apertar as partes baixas de Ridley Scott ao ficarmos com coreografias vistosas nas quais vemos muitas mortes, pouco sangue e o chão muito limpinho. Como é que as espadas atravessam corpos e assistimos a tantas mortes mas o sangue não aparece? Ah e tal, é preciso para baixar a classificação etária do filme e assim vender mais bilhetes, tu é que é picuinhas, podem dizer vocês. Até posso ser, mas é impossível sentir a intensidade e fisicalidade das batalhas quando temos esta falta de sangue e quase só encontramos elementos irrelevantes na narrativa a morrerem. Antes da batalha somos apresentados rapidamente a Moisés (Christian Bale), Ramsés II (Joel Edgerton) e Séti I (John Turturro), o faraó. Séti I é o progenitor de Ramsés II, que será o seu sucessor, e surge quase como um pai adoptivo para Moisés, com este a ser o homem da sua confiança (um motivo que leva Ramsés a ficar muitas das vezes ressentido com o pai), uma situação que nos faz recordar um pouco da estrutura inicial de "The Gladiator", também realizado por Ridley Scott. Pouco tempo depois somos colocados perante a batalha de Kadesh contra os hititas, na qual Ramsés falha a estratégia sendo salvo por Moisés em momentos de acção coreografados de forma intensa mas que perdem o impacto devido à violência não ser sentida. O regresso a Tebas marca um certo ressentimento de Ramsés em relação ao irmão adoptivo, com o personagem de Joel Edgerton a ser alvo de muitas desconfianças por parte do pai que o indica a ir verificar a conduta de Hegep (Ben Mendelsohn), um vice-rei corrupto (Ridley Scott: no Antigo Egipto o estatuto de faraó é distinto dos reis), que se encontra a lidar com problemas com os hebreus, algo considerado humilhante para o futuro herdeiro do Faraó. Moisés oferece-se para ir ao território de Pithom, acabando por perceber a real situação dos escravos hebreus, alvo de violência e situações desumanas enquanto o excêntrico Hegep governa como se fosse o líder, construindo monumentos e tratando os elementos de classes inferiores como se fossem lixo. Diga-se que é raro o cidadão egípcio simpático que encontramos ao longo do filme, com Ridley Scott a estar-se completamente a lixar por atingir um mínimo de cuidado histórico, a começar na representação de Ramsés II, já para não falar na incapacidade de explorar com alguma assertividade os elementos religiosos associados ao Antigo Egipto, com a menção a alguns dos deuses e os monumentos a parecerem estar no enredo apenas para enfeitar, embora tenhamos de ter em atenção que estamos perante uma obra de ficção.

 Mas voltemos ao filme. Moisés encontra no território toda uma realidade que parecia desconhecer, conhecendo pela primeira vez Josué (Aaron Paul), um indivíduo que vê a ser chicoteado enquanto resiste de forma corajosa ao salientar que não sente dor, entre outras situações melindrosas que conduzem o personagem interpretado por Christian Bale a entrar em confronto com Hegep. Se Hegep pretende mais militares para dissuadir os hebreus de uma possível sublevação, já Moisés revela coragem suficiente para falar com os anciãos, entre os quais Nun (Ben Kingsley), um indivíduo que revela a verdade sobre o passado do personagem interpretado por Christian Bale. Ao invés de exibir a história do jovem hebreu a ser deixado na cesta e adoptado por Bithia, a irmã do faraó, Ridley Scott opta e bem por só mencionar o passado do protagonista, embora Moisés inicialmente duvide da palavra de Nun. A morte de Seti I conduz a que Ramsés II seja instituído como Faraó, com este a procurar desde logo exercer a sua autoridade ao mandar erguer um monumento inspirador que simbolize poder. Ramsés II é representado como um indivíduo odioso, pouco dado a grandes benevolências, sempre pronto a exercer o poder pela força e a contar com estranhos hábitos de deixar cobras passarem pelo seu corpo. É então que Hegep revela a Ramsés II que Moisés se reuniu com Nun, salientando que este é um elemento adoptado, algo que conduz ao exílio do hebreu. A partir daqui vamos assistir a todo um conjunto de episódios que vão conduzir à mudança de Moisés que passa a estar em contacto com o seu Deus através de Malak (Isaac Andrews), uma criança, que apenas o protagonista consegue ver, procurando a todo o custo que os escravos sejam libertos, algo rejeitado por Ramsés II. Entre a expulsão do protagonista e a sua primeira reunião com Ramsés II passaram-se nove anos, com este finalmente a sentir-se compelido a defender o seu povo, deixando temporariamente para trás Séfora (Maria Valverde), a sua esposa, e o filho do casal. A relação entre Séfora e Moisés é o paradigma de muito do que corre mal em "Exodus: Gods and Kings": os relacionamentos entre os protagonistas e os personagens secundários raramente são desenvolvidos de forma eficaz. Séfora e Moisés conhecem-se e passado poucos minutos já estão a casar, a relação do protagonista com Josué e Nun pouco é explorada, o casamento entre Ramsés II e Nefertari pouco é abordado, para além de que a decisão de colocar logo uma batalha após uma breve apresentação dos personagens interpretados por Christian Bale e Joel Edgerton não ajuda a que geremos imediatamente empatia com as figuras. Moisés surge representado como alguém de bom coração, justo, com as suas dúvidas em relação a Deus, que aparece muitas das vezes como espectador dos actos divinos, mas quando tem de desempenhar o papel de líder como galvanizador dos escravos em direcção a Canaã raramente convence. Falta convicção e emoção a Christian Bale na forma como expõe o discurso do seu personagem para os restantes hebreus terem fé em si. Se em "Braveheart" Mel Gibson atribui um tom vibrante e inspirador aos discursos de William Wallace, emocionando-nos quase ao ponto de querermos estar no campo de batalha com este homem e defender os seus ideais, já Christian Bale tem uma interpretação mediana que fica longe daquilo que já nos mostrou em outras obras cinematográficas (ignoremos "Terminator Salvation", ou, talvez, recordemo-nos do filme). A interpretação de Christian Bale é o paradigma de "Exodus: Gods and Kings": certinha mas sem chama. Falta alma, falta garra, falta capacidade de nos emocionar com esta história épica, sejamos nós crentes na mesma ou não.

 Essa falta de "chama" de "Exodus: Gods and Kings" é o calcanhar de Aquiles do filme, mas também o receio de Ridley Scott em arriscar. As cenas das pragas divinas que se abatem sobre o Egipto são paradigmáticas do que pode funcionar bem no filme, sobretudo quando as águas do Nilo surgem recheadas de sangue após um ataque de crocodilos, as rãs e posteriormente os gafanhotos atacam, algo que conta com alguma brutalidade. Moisés ainda tenta avisar Ramsés II da fúria do seu Deus contra o comportamento dos egípcios, mas este ainda faz mais ameaças ao irmão adoptivo. Escusado será dizer que mais desgraças se abatem, embora tenhamos mais um problema. Morre muita gente mas poucas mortes são sentidas, com "Exodus: Gods and Kings" a poder ter como subtítulo "Exodus: A morte dos figurantes", tal a forma como são eliminados elementos sem a mínima relevância no enredo. Mesmo quando Ramsés II manda executar famílias egípcias através de enforcamento não nos identificamos com as mesmas, parecendo apenas mais um episódio para realçar a crueldade do personagem interpretado por Joel Edgerton. Existe uma morte de um personagem de algum relevo para Ramsés II, mas o Faraó é representado sempre de forma tão odiosa ao longo do filme que fica praticamente impossível de acreditar que este elemento está mesmo num momento de enorme fragilidade, tal como é complicado sentirmos alguma pena pelo mesmo. Joel Edgerton parece ter-se divertido imenso a interpretar esta versão transviada de Ramsés II, completamente megalómano e dissimulado, levado pelos ódios e emoções, sendo a par de Christian Bale os elementos de maior destaque. Já o elenco secundário é um espectáculo de desperdício, com excepção de Ben Mendelsohn como o traiçoeiro Hegep, um elemento meio efeminado, disposto a tudo para manter o poder. Por sua vez Sigourney Weaver tem duas ou três falas no filme como mãe de Ramsés II e viúva de Séti I, Golshifteh Farahani pouco destaque tem como Nefertari, a esposa do Faraó e mãe do seu filho (o relacionamento entre ambos é abordado de forma negligente pelo enredo), John Turturro pouco tem para fazer como Séti I, tal como Aaron Paul, Ben Kingsley e María Valverde não conseguiram destacar-se. Ganharia a narrativa se Ridley Scott tivesse apostado mais em criar um universo narrativo forte a rodear o seu protagonista, embora valha a pena realçar vários dos méritos do filme. O interior do palácio do Faraó é sublime e decorado com enorme requinte, os planos mais abertos procuram expor-nos aos imponentes edifícios da cidade de Tebas e a larga dimensão do território, os momentos das pragas surgem rodeados por enorme intensidade, a perseguição de Ramsés II e os seus homens aos hebreus em direcção ao Mar Vermelho apresenta alguns momentos dignos de nota, para além de que as dúvidas de Moisés em relação ao seu passado e à sua jornada atribuem alguma humanidade ao personagem. Moisés limita-se muitas das vezes a observar, contactando com Deus através de Malak, um jovem interpretado por um eficaz Isaac Andrews, ao mesmo tempo que Ridley Scott recupera a tradição de Hollywood dos épicos religiosos, que teve este ano em "Noah" um primeiro reavivar, ainda que mal sucedido. "Exodus: Gods and Kings" é superior a "Noah", mas também está longe de ser uma obra completamente recomendável. É louvável a procura de Ridley Scott em elaborar épicos do género, mas o cineasta parece pouco disposto a cometer riscos, apresentando-nos uma obra que causa o pior dos sentimentos quando terminamos de ver um filme: indiferença. Se "The Counselor" gerou paixões e ódios, parece difícil que "Exodus: Gods and Kings" gere sentimentos tão díspares. Não é péssimo, não é excelente, fica a meio caminho das  suas pretensões grandiosas, acabando por falhar em emocionar. Numa história onde a fé está muito presente, seja em Moisés, seja em Deus, seja no ser humano, pede-se que a emoção tome conta do enredo. Ao invés disso temos um filme que não é um desastre, mas também não promete deixar a marca de "The Ten Commandments".

 Ridley Scott tem ao seu dispor um elenco de luxo, ou pelo menos recheado de nomes conhecidos, efeitos especiais de ponta, mas falta-lhe um argumento de peso para elevar o seu novo trabalho. Como é possível formarmos um elo de ligação com personagens como Nefertari, Séfora, Josué, Nun e companhia se estes raramente são desenvolvidos? Essa é uma questão que fica em aberto. Não sou propriamente um fã de Ridley Scott. Admiro alguns trabalhos do cineasta como "Alien" e "Thelma & Louise", desprezo "The Counselor" e confesso não ser o maior dos fãs de "Kingdom of Heaven", tendo alguma simpatia por "The Gladiator". Em "Exodus: Gods and Kings" o cineasta opta por um regresso aos épicos, desta vez de cariz religioso, algo que lhe permite tomar ainda mais liberdades em relação à história do Egipto (se não teríamos de mudar o título para "Exodus: Gods and Pharaos"), mas a grandiosidade do enredo e das temáticas raramente parecem estar à altura das pretensões do cineasta. Pedia-se mais paixão, mais emoção, mais desenvolvimento dos personagens secundários, mais exploração dos relacionamentos, mais arrojo na forma como a narrativa é apresentada. É certo que acerta ao não exibir toda a história de origem de Moisés (algo que o difere de “The Ten Commandments”), mas falha ao não conseguir explorar na justa medida alguns elementos que são expostos na narrativa. Veja-se o ódio da mãe de Ramsés II em relação a Moisés, bem como o já citado relacionamento deste com a esposa. É que nem existe tempo para ficarmos a conhecer bem o que os levou a casar para além de uma possível atracção física. No último terço ficamos perante a difícil jornada do protagonista com o seu povo mas, se não fosse a acção divina nas dez pragas sobre o Egipto e o facto deste poder ter sido o escolhido aquando da sua nascença para liderar os hebreus, fica por vezes difícil perceber como este conseguiu guiar uma multidão constituída por milhares de pessoas. Moisés é apresentado como alguém disposto a sacrificar-se pelos seus, bondoso, com as suas dúvidas, mas Christian Bale nunca atribui a este personagem a aura de um líder que nos faça querer seguir a sua jornada. Longe de ser uma obra cinematográfica completamente nula, "Exodus: Gods and Kings" procura recuperar uma tradição de Hollywood de elaborar épicos clássicos, surgindo como um filme marcado por cenários grandiosos, momentos de alguma intensidade, mas que falha em gerar emoção, com Ridley Scott a parecer ter realizado o filme sem uma mínima dose de paixão. Até poderei estar enganado e o cineasta ter aqui uma obra que sempre procurou desenvolver, mas não deixa de parecer tudo demasiado tépido, quer a nível de relacionamentos, quer até a nível de algumas interpretações, com "Exodus: Gods and Kings" a destacar-se sobretudo durante as pragas, num filme onde a fé é uma das temáticas centrais, bem como a procura pela igualdade e a capacidade do ser humano em desafiar os seus medos. Tivesse mais engenho a desenvolver os relacionamentos entre os seus personagens, criasse elementos secundários mais elaborados e procurasse dar uma maior "chama" a "Exodus: Gods and Kings" e Ridley Scott teria aqui um épico para recordar pela positiva. Assim, "Exodus: Gods and Kings" faz-nos recordar quando vamos a jantares de família ou amigos, a refeição até parece ter bom aspecto, mas depois descobrimos que o cozinheiro esqueceu-se de colocar sal no prato principal e cometeu a ousadia de elaborar o arroz doce sem canela e açúcar.

Título original: "Exodus: Gods and Kings". 
Título em Portugal: "Exodus: Deuses e Reis".
Realizador: Ridley Scott. 
Argumento: Steven Zaillian, Jeffrey Caine, Bill Collage, Adam Cooper.
Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, Sigourney Weaver,Ben Kingsley.

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