08 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Death and the Maiden" (A Noite da Vingança)

 Ao terminar a visualização de "Death and the Maiden" senti uma sensação de leveza e ao mesmo tempo imensamente tortuosa. Roman Polanski sempre foi engenhoso a explorar os relacionamentos de um conjunto restrito de personagens, algo visível desde logo em "Knife in the Water", a sua primeira longa-metragem, um trabalho que nos vem muito à memória em "Death and the Maiden". Também temos três personagens principais, bem como a chegada de um elemento estranho que atomiza a atmosfera aparentemente rotineira do casal de protagonistas, enquanto contamos com um cenário primordial explorado e utilizado até ao tutano ao serviço da narrativa. "Death and the Maiden" remete-nos ainda para "Cul-de-sac", onde um criminoso invadiu o castelo de um casal e tornou-o refém, embora a obra contasse com elementos meio surreais e até algum humor negro a juntar a toda a tensão, algo que não acontece no filme que se encontra a ser analisado. No caso de "Death and the Maiden" ficamos perante Paulina Escobar (Sigourney Weaver) e Gerardo (Stuart Wilson), um casal que passou por diversas agruras no passado, que vive numa casa isolada perto do mar, num país da América do Sul nunca mencionado que acabou de conquistar finalmente a sua liberdade após vários anos de ditadura. Gerardo é um conhecido advogado que se prepara para liderar o comité de Direitos Humanos tendo em vista a julgar os crimes cometidos pelos elementos ao serviço da ditadura entre 1975 e 1980. Paulina continua atormentada pelos maus tratos que sofreu, tendo no passado sido uma presa política, agredida sexualmente e humilhada, um conjunto de actos que contribuíram para se tornar claramente numa mulher transtornada nos dias de hoje. Nos momentos iniciais do filme encontramos o casal num concerto onde são tocadas canções de Franz Schubert, incluindo "String Quartet No. 14" em D menor, também conhecido por Death and the Maiden, uma música que tem um impacto traumático em Paulina, algo explicado no decorrer da narrativa. Pouco tempo depois encontramos Paulina em casa, sozinha, a ouvir o rádio, até faltar a electricidade devido a uma tempestade que ocorreu. Na rádio ouve a notícia de que o presidente se encontra a formar o comité dos direitos humanos, enquanto lá fora chove fortemente. O marido regressa a casa transportado por um estranho bastante simpático que lhe deu boleia até casa, após o pneu do carro ter furado e este não ter os meios para efectuar a troca. Paulina procura perceber como foi a reunião de Gerardo com o Presidente, embora demonstre uma enorme desilusão pelo esposo não ter conseguido impor a ideia de tentar também defender os elementos alvos de tortura, ao invés do comité começar apenas por analisar os casos de assassinatos. Gerardo pede-lhe calma, procurando explicar que este é o primeiro passo para um aprofundamento do inquérito aos elementos que cometeram actos criminosos durante a ditadura, algo que terá de ser feito paulatinamente. O casal parece claramente atravessar alguns problemas, uma situação que é exposta com o desenrolar gradual da narrativa onde episódios sobre o passado dos personagens nos são expostos. O quotidiano destes entra em erupção com a entrada em cena de Dr. Miranda (Ben Kingsley), o elemento que deu boleia ao protagonista, com este a trazer o pneu do carro de Gerardo devido a se ter esquecido do mesmo no seu veículo. Miranda e Gerardo ficam a falar afavelmente, enquanto Paulina entra em pânico. O que se passa com esta mulher? De seguida, rouba o carro de Miranda e atira-o pelo penhasco. Quando regressa, ata o médico e agride-o, revelando que este foi o elemento que a violou e humilhou durante os tempos em que esteve como prisioneira de guerra durante a ditadura. Miranda desmente. Nós próprios duvidamos das palavras de Paulina, tal como Gerardo parece inicialmente colocar em causa as palavras da esposa, com Roman Polanski a atribuir uma enorme ambiguidade ao enredo. Miranda parece ser demasiado afável e simpático, sendo supostamente fã do trabalho do personagem interpretado por Stuart Wilson, defendendo até a prisão dos criminosos que transgrediram as leis ao serviço da ditadura, apresentando um comportamento inicial que nos faz gerar dúvidas em relação a Paulina. Veja-se quando esta foge com o carro e os dois ficam a conversar e a ingerir bebidas alcoólicas, parecendo até formar uma amizade que logo é interrompida pelo facto de Paulina salientar que reconheceu a voz do médico.

Aos poucos a tensão aumenta. Gerardo fica como advogado de defesa de Miranda, enquanto Paulina ameaça matar o médico se este não efectuar a confissão. Esta situação leva a que seja questionada se não está a cometer os mesmos actos dos elementos da ditadura, mas Paulina parece ter demasiadas certezas em relação à culpabilidade do médico. São essas certezas, quer da voz de Miranda, quer do seu cheiro, quer das suas frases de efeito, quer da própria presença da música "Death and the Maiden" de Schubert no carro, que nos fazem também duvidar do personagem interpretado por Ben Kingsley. Aos poucos, Paulina começa a recordar-se dos episódios do passado. Não é algo agradável. Sigourney Weaver desfaz-se por completo do ponto de vista emocional para expor o quão perturbada e ferida emocionalmente está a personagem que interpreta. Quer a todo o custo uma confissão e saber o porquê dos actos do médico. O marido inicialmente duvida mas aos poucos começa a acreditar na esposa. Gradualmente descobrimos também segredos sobre o casal. Esta ficou presa para não revelar o nome de Gerardo às autoridades, na altura o seu namorado e líder de um jornal ligado aos grupos revoltosos. Quando fala sobre as violações e os actos que lhe cometeram, Paulina parece outra mulher. O seu olhar e rosto guardam uma enorme dor e ressentimento, exacerbados pela capacidade de Sigourney Weaver em elevar esta personagem. Por sua vez, Gerardo parece algo atarantado. O que fazer nesta situação? Confiar na mulher ou num estranho? Defensor vigoroso da lei, Gerardo não esquece a gratidão e amor que tem pela esposa, com Stuart Wilson a conseguir expor os dilemas morais do seu personagem. Nos momentos iniciais ainda encontramos Gerardo a tentar confortar a esposa e a ter sexo com esta, mas Paulina parece ainda demasiado traumatizada com tudo o que passou para exibir sentimentos mais calorosos. Esta subverte a lógica de filme de invasão a uma casa e tomada de reféns. É esta, dona da habitação, que toma um estranho como refém e tortura-o. Ben Kingsley atribui uma postura inicialmente simpática e calma a Miranda, surgindo como um homem culto que raramente nos parece poder ser o culpado, tendo até supostamente um álibi perfeito. Claro que aos poucos começamos a duvidar de Miranda, com as tensões a subirem gradualmente ao longo do enredo, com Roman Polanski a transformar este espaço iluminado por uma pequena lamparina num local claustrofóbico onde uma mulher quer a todo o custo uma confissão que não sabemos se irá ou não chegar. Estará esta a delirar ou terá razão? O mistério mantém-se até ao último terço e não iremos revelar aqui a sua conclusão. O que podemos salientar é que raramente nos conseguimos manter sossegados perante todos os episódios que envolvem o desenrolar da narrativa. Paulina tem a pistola na mão, Miranda está amarrado, o esposo procura ser sensato, mas os ânimos vão aquecendo e os erros no discurso do segundo vão aparecendo, embora possam ser demasiado frágeis para sustentarem uma acusação. Ou será que chegam? Aos poucos duvidamos de Paulina e Miranda, até Polanski nos revelar a verdade sobre o segundo e deixar-nos perante a percepção que não teremos um lado vitorioso neste filme.

O final de "Death and the Maiden" remete-nos para um movimento circular da narrativa que termina e inicia no concerto. A diferença é que no início não sabíamos de nada que envolvia o casal. No final sabemos o significado da música e vários dos episódios vividos pelos mesmos durante a ditadura e no apartamento. Somos arrasados emocionalmente com Paulina, Gerardo e Miranda, obrigados praticamente a partilhar este cativeiro em que se encontram, ao mesmo tempo que a falta de luz e a presença das sombras exacerbam a inquietação em volta da narrativa inspirada na peça de teatro "Death and the Maiden" de Ariel Dorfman. O filme até poderia ser representado praticamente num palco teatral, mas a câmara de filmar atribui toda uma vivacidade aos acontecimentos, sobretudo quando começamos a sentir uma maior erosão por parte dos personagens. Existe um enorme mérito de Roman Polanski na criação de toda esta atmosfera de enorme nervosismo, bem como a conseguir explorar com a eficácia do costume os relacionamentos entre um conjunto restrito de personagens a fazer recordar a sua primeira obra cinematográfica, para além de não podermos deixar em claro as decisões felizes efectuadas na escolha do elenco e a forma certeira como o cineasta conduz a narrativa. As interpretações sublimes de Sigourney Weaver, Stuart Wilson e Ben Kingsley ajudam imenso a incrementar "Death and the Maiden", com o trio a entregar-se aos papéis ao mesmo tempo que ficamos perante alguns elementos transversais às obras de Polanski, tais como a tensão gradual, o mistério, a humilhação/repressão sexual, o estranho que explode com o status quo dos protagonistas, entre outros elementos. A própria utilização de um espaço fechado de uma casa remete-nos para a "trilogia do apartamento", composta por "Repulsion", "Rosemary's Baby" e "The Tenant", três obras inquietantes e marcadas por um aproveitamento exímio do cenário primordial. Mesmo a música é utilizada com acerto, embora talvez o momento em que o rádio se liga com o regressar da luz e nos deixa perante uma música frenética não combine com as imagens que estão a ser expostas, parecendo, ou uma tentativa falhada de exibir o furacão de sentimentos, ou uma tentativa falhada de dar algum humor negro. No entanto, rara é a situação onde encontramos o humor negro de Polanski. "Death and the Maiden" deixa-nos antes perante o lado negro dos fascismos, sejam estes de que país forem e dos abusos de poder destes regimes, com a personagem interpretada por Sigourney Weaver a ser um exemplo paradigmático das marcas deixadas por estas transgressões. Esta procura respostas e vingar-se, mas será possível encontrar conforto quando descobrir a verdade? Já Miranda pode surgir como um representante de um passado macabro que o país não parece querer esquecer, mas também não pretende investigar de forma pragmática, parecendo querer varrer para debaixo do tapete alguns episódios mais perniciosos da sua história. No entanto, não terá este também sido um produto de toda uma conjuntura capaz de corromper os menos idealistas? Por sua vez, Gerardo representa uma tentativa em fazer valer a lei mas também as limitações da mesma, procurando respeitar a mesma e ser fiel aos seus ideais ao longo do filme, embora em algumas situações seja colocado "entre a espada e a parede". O trio é colocado perante situações de enorme tensão, com Paulina a não parecer disposta a dar tréguas para conseguir saber a verdade sobre Miranda, ao mesmo tempo que ficamos perante um dos filmes mais intensos de Roman Polanski, com o cineasta a colocar-nos perante uma atmosfera inquietante e sufocante, onde os nervos andam quase sempre à flor da pele. Com excelentes interpretações de Sigourney Weaver, Ben Kingsley e Stuart Wilson, "Death and the Maiden" não nos poupa a momentos de enorme tensão, com Roman Polanski a conseguir jogar com os nossos sentimentos e elaborar um thriller psicológico intenso, onde os personagens certamente irão sentir os efeitos destes acontecimentos para o resto das suas vidas.

Título original: "Death and the Maiden".
Título em Portugal: "A Noite da Vingança".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Ariel Dorfman e Rafael Yglesias.
Elenco: Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Stuart Wilson.

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