22 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Cul-de-sac" (1966)

 Roman Polanski é um mestre na arte de desenvolver os relacionamentos dos seus personagens num cenário primordial e explorar este espaço, ao mesmo tempo que é capaz de criar uma tensão gradual em volta dos acontecimentos do enredo. Essa situação é visível desde logo em "Knife in the Water", a primeira obra cinematográfica realizada por Roman Polanski, onde tínhamos um casal e um estranho durante boa parte do tempo no espaço restrito de um barco. As tensões entre os dois homens aumentam gradualmente, bem como a rivalidade entre ambos, ao mesmo tempo que a figura feminina surge como alvo de desejo dos dois indivíduos e surpreendentemente acaba por trair o marido. Em "Cul-de-Sac", a terceira longa-metragem de Roman Polanski, o cineasta coloca-nos também perante uma mulher infiel, nomeadamente Teresa (Françoise Dorléac), que logo nos momentos iniciais encontramos sem roupa da cintura para a cima, a namoriscar Christopher (Ian Quarrier), o seu amante, nas imediações de um castelo localizado na ilha de Lindisfarne em Northumberland. O cenário faz-nos mais uma vez recordar "Knife in the Water", marcado pela presença do mar, desta vez também de areia, com o castelo a surgir como um local desprotegido, tendo sido supostamente habitado por Rob Roy, uma figura que todos os elementos, com excepção de George (Donald Pleasence), o esposo de Teresa, apenas parecem conhecer pelo filme sobre o mesmo. George pensa que a esposa se encontra a pescar camarões com Christopher, um vizinho loiro, mais próximo da idade de Teresa, cujo material que caça está longe de ser marisco. Se Christopher e Teresa gozam de uns momentos de prazer, já Dickie (Lionel Stander) e Albie (Jack MacGrowan) vivem alguma consternação após um assalto falhado que resultou num desastre a ponto do segundo ter sido baleado e o primeiro ter sido ferido no braço. A juntar a isso, o carro onde fugiam emperra, algo que leva Dickie a procurar um telefone nas imediações para falar com o seu superior, o misterioso Katelbach, uma situação que o conduz ao castelo. Este cenário apresenta largas dimensões, sobretudo se contarmos que é habitado apenas por Teresa e George, com o seu exterior a ser marcado pela presença de várias galinhas que constantemente saem do galinheiro. Diga-se que ovos é o que não falta à habitação, bem como quadros pintados por George, um indivíduo britânico algo neurótico que venera a esposa e pouco respeito consegue ter da mesma e de Dickie, ao longo deste filme com um enredo meio surreal onde Roman Polanski mescla uma enorme tensão com humor negro. O criminoso é um indivíduo pouco subtil, algo abrutalhado e perigoso, que logo acaba por ver morrer o seu companheiro, enquanto aguarda pela chegada dos elementos associados ao seu superior. Dickie torna o casal refém, com Roman Polanski a explorar a tensão entre o trio, embora Teresa estranhamente até tenha alguns momentos em que parece pender mais para o lado do criminoso do que para o do marido. Veja-se quando Teresa consegue fugir do quarto onde se encontra trancada com o marido e contacta com o criminoso, ajudando-o até a cavar o buraco para enterrar Albie, para além de servir a sua vodka caseira a Dickie, entre todo um conjunto de actos surpreendentes. Esta é uma mulher de origem francesa, bela, dada a utilizar pouca roupa, ouvir música e a manter casos extra-conjugais, apresentando um gosto enorme por vodka caseiro que fabrica embora quase todos os que o provam dizem parecer álcool etílico evidenciando a pouca perícia desta. Os momentos entre o trio fazem-nos recordar "Knife in the Water", embora George pareça incapaz de se impor ao seu oponente ou meter o mínimo respeito, com tudo a piorar com a chegada inesperada de um conjunto de amigos do personagem interpretado por Donald Pleasence, algo que aumenta os perigos mas também o tom meio surreal do filme.

Quando tudo já parecia complicado para os excêntricos protagonistas, é então que chegam os Fairweather, um casal amigo de George, acompanhados pelo filho, um rapaz traquina e mal educado, para além de trazerem consigo Cecil e Jacqueline York, dois elementos que são apresentados a Teresa e ao personagem a quem Donald Pleasence dá vida. Dickie finge ser o elemento que trata do galinheiro e da jardinagem, embora Teresa logo se procure aproveitar da situação para gozar com o facto deste estar a servi-los, ao mesmo tempo que não parece apreciar totalmente os convidados, com excepção de Cecil. A tensão é latente e nunca sabemos o que esperar em relação ao que pode acontecer, embora também não falte algum humor negro e surrealismo. Dickie está armado, enquanto os outros elementos estão em maior número e a ser servidos... pelo criminoso... com uma gravata da Dior que roubou a George. Só o trio de protagonistas sabe da verdade em relação ao que se passa, mas aos poucos começa também a surgir uma crispação entre os convidados surpresa (que na realidade nem sequer foram convidados). Teresa passa-se por completo com o filho dos Fairweather depois deste ter riscado um disco seu, para além de ter um momento de infidelidade com Cecil, um homem que conta com uma espingarda que será surpreendentemente utilizada pelo jovem que parte os vitrais e desperta a fúria de George. Logo são expulsos da casa do protagonista, com este a demonstrar um lado menos ponderado, ao mesmo tempo que tudo parece piorar entre George, Teresa e Dickie quando este descobre que o seu chefe não vem a caminho, com Roman Polanski a mostrar-se mais uma vez um mestre na arte de criar um nervosismo gradual em volta dos seus personagens, ao mesmo tempo que aproveita paradigmaticamente os cenários por onde estes se encontram. O castelo, cheio de história, espaçoso, com vitrais valiosos, é frio e pouco funcional, albergando no seu interior um casal unido matrimonialmente há dez meses mas pouco cúmplice. Ainda os vemos a brincar no início do filme, com Teresa a vestir George com roupa de mulher e pintá-lo com a sua maquilhagem, mas parece mais um momento onde este demonstra que é o elo mais fraco da ligação, com a masculinidade do protagonista a ser muitas das vezes colocada em causa. Fora do castelo encontramos a areia e o mar, num espaço quase desértico, claustrofóbico e pouco frequentado por outros seres humanos, uma situação que parece aumentar o aborrecimento de Teresa e agradar a George, ao mesmo tempo que incrementa a situação de urgência e perigo em volta do casal com a presença de Dickie. Roman Polanski mescla elementos de filmes de assalto a casas com drama familiar, algum humor, acção, paranoia e reviravoltas inesperadas. O final é marcado por violência e alguma loucura, com George a exibir o seu lado mais instável e Teresa a exibir o quão traiçoeira pode ser. Raramente esperamos que estes personagens vivam felizes para sempre. George até parece amar Teresa, mas esta parece apenas estar com este homem devido à sua estabilidade financeira. Teresa é interpretada por Françoise Dorléac - a irmã mais velha de Catherine Deneuve, tendo falecido aos vinte e cinco anos  de idade devido a um acidente de viação - uma actriz que incute uma deliciosa safadeza à sua personagem, uma mulher adúltera, que gosta de desfrutar dos prazeres momentâneos da vida, sejam estes ingerir bebidas alcoólicas, ouvir música, ler uma revista, fazer sexo, procurando escudar-se das tarefas caseiras, com o marido a ser sempre uma figura subjugada a si. Teresa é um contraste do esposo, surgindo como uma mulher livre de pudores, que gosta de dormir nua, despindo-se sem problemas à frente do elemento que os mantém cativos, apresentando comportamentos que evidenciam bem a sua personalidade dada a enormes liberdades, algo que nem sempre agrada a George, embora esta pouco se preocupe. Donald Pleasence, o intérprete de Ernst Stavro Blofeld em "You Only Live Twice", consegue quase sempre explorar com sucesso o lado emocionalmente mais frágil, instável, exagerado e reprimido do seu personagem. O momento em que este é visto pela primeira vez por Dickie exibe mesmo esse lado menos masculino do personagem, com este a surgir com as roupas da esposa, após um momento de diversão com esta. É alvo de troça do antagonista e até do espectador, tal como será alvo de críticas por parte da esposa, bem como dos amigos por ter casado com Teresa e pelo seu comportamento ao expulsá-los.

Donald Pleasence consegue também expor um lado mais inquieto do personagem, um homem que sofre de uma úlcera, que é obrigado a ingerir bebida alcoólica por Dickie passando alguns momentos pouco agradáveis devido à presença deste na casa. Um desses momentos é quando o criminoso o obriga a barbeá-lo, com George a ter um enorme receio de cortar Dickie, algo que se confirma apesar do fora da lei não lhe fazer nada de grave, com Polanski a fazer-nos recear o pior e depois tirar-nos um sorriso do acontecimento. De modos rudes, pouco cuidado, violento e aparentemente pouco inteligente, não surpreende que Dickie tenha sido descartado pelo seu superior, com Lionel Stander a criar um antagonista que, apesar dos seus actos, raramente nos repele. Dickie entra na casa deste casal de forma despreocupada, não tendo problemas em comer ovos crus, ligar do telefone da casa dos mesmos e torná-los reféns no interior do castelo. "Cul-de-sac" centra-se maioritariamente neste trio de personagens, apresentando um escopo menos grandioso do que "Fearless Vampire Killers", uma sátira aos filmes de vampiros que seria a quarta longa-metragem de Polanski, com o seu tom a parecer sempre mais próximo de "Knife in the Water". Mesmo a própria cinematografia que sobressai quer pela sua capacidade de explorar a presença dos personagens no território em planos mais abertos, quer pelos seus planos fechados que nos deixam por vezes perante os rostos dos protagonistas prontos a exporem os seus sentimentos, surge próxima da primeira longa-metragem realizada por Roman Polanski, também filmada a preto e branco. Temos ainda a tensão gradual em volta dos protagonistas, a utilização paradigmática dos cenários e dos espaços, relações sentimentais complicadas, humilhação sexual (ver George vestido de mulher faz-nos recordar o protagonista de "The Tenant"), o humor negro, algo que encontramos a espaços em filmes como "Knife in the Water", "Repulsion", "Rosemary's Baby", "The Tenant", entre outras obras do cineasta. No caso da inquietação esta é mantida desde logo pela presença de Dickie, mas também pela forma como o relacionamento deste com o casal se desenvolve, com Teresa a estar longe de ser a esposa que apoia o marido e George a estar distante de ser um elemento corajoso. Essa situação é notória quando Teresa decide tomar banho nua no mar, mesmo contra as ordens do marido, e contar com a presença de Dickie no local. A chegada dos convidados traz uma novidade à narrativa e uma maior imprevisibilidade, bem como a presença do amante de Teresa, com o argumento de Roman Polanski e Gerard Brach a conseguir estabelecer paradigmaticamente um conjunto de situações que são expostas de forma eficaz pelo primeiro na sua função como realizador. Teresa e George não só são reféns de Dickie, mas também são prisioneiros de si próprios, enveredando por uma relação que parece ter tudo para falhar tais as diferenças que os separam. Entre infidelidades, violência, discussões, momentos meio surreais, humor negro, ingestão de bebidas alcoólicas, cenários marcados pela presença de elementos como o mar e um castelo, "Cul-de-sac" apresenta uma tensão latente que nos inquieta ao longo dos episódios que decorrem no enredo e promete terminar mal para vários dos intervenientes.

Título original: "Cul-de-sac".
Título em Portugal: "Cul-De-Sac - O Beco".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Roman Polanski e Gerard Brach.
Elenco: Donald Pleasence, Françoise Dorléac, Lionel Stander, Jack MacGowran.

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