19 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Bitter Moon" (Lua de Mel, Lua de Fel)

 Tendo como cenário primordial um barco cruzeiro que se encontra a caminho de Istambul e Bombaim, "Bitter Moon" é Roman Polanski em toda a sua irreverência delirante mesclando obsessões amorosas, repressão e humilhação sexual, algum humor negro e estranhas relações sentimentais ao longo de uma obra onde o cineasta volta a deixar a sua marca. É uma viagem meio louca na qual participamos com um prazer voyeurístico, onde encontramos dois casais que vão dominar a narrativa, nomeadamente Nigel (Hugh Grant) e Fiona Dobson (Kristin Scott Thomas), dois elementos britânicos, e os excêntricos Oscar Benton (Peter Coyote) e Mimi (Emmanuelle Seigner), um americano e uma francesa que se casaram quando este se encontrou a viver em Paris. Se Nigel e Fiona representam a repressão sexual, apresentando claros problemas do foro pessoal, já Oscar e Mimi vivem uma estranha relação com este a encontrar-se numa cadeira de rodas e impotente, enquanto a personagem interpretada por Emmanuelle Seigner, a esposa de Roman Polanski, deixa um rasto de sedução por onde passa. Roman Polanski transforma a sua esposa num objecto de desejo dos homens ao longo do filme, com a actriz a encarnar com enorme à vontade esta faceta de mulher fatal misteriosa, viciada em sexo e algo obcecada, despertando a atenção de Nigel. Ao aperceber-se do interesse de Nigel na esposa, uma mulher que o personagem interpretado por Hugh Grant ajuda quando esta se sente mal e reencontra posteriormente num bar onde a personalidade dominadora e inebriante de Mimi vem ao de cima, Oscar decide contar de forma bem viva como conheceu esta mulher ao elemento aparentemente interessado. Nigel demonstra-se inicialmente desconfortável, ao mesmo tempo que não consegue deixar de ouvir as histórias marcadas por alguma sordidez de Oscar, algo que vai trazer consequências na relação do primeiro com Fiona, uma mulher relativamente apagada. Através de vários flashbacks descobrimos que Nigel é um elemento que vive de uma fortuna que herdou do seu avô, tendo viajado para Paris para ser escritor, mas apenas conseguiu elaborar um conjunto de obras não publicadas. É em Paris que conhece Mimi, uma empregada de restaurante por quem fica obcecado desde o primeiro momento, nomeadamente quando a ajudou no autocarro ao dar-lhe o seu bilhete para esta não ser multada. Esta tem como hobbie dançar, sabendo falar inglês devido aos seis meses que passou nos EUA, iniciando uma relação com Nigel marcada pela atracção e desejo mútuo. Este venera-a, deseja-a, explorando detalhadamente as relações sexuais entre ambos que começaram a envolver sado-masoquismo após momentos inicialmente idílicos. O sexo marcou o período de felicidade de ambos, mas quanto mais exageros cometeram para apimentar a relação mais esta se foi desgastando com a falta de opções e a rotina em relação aos dias que passavam em casa. Existe algum erotismo e humor negro a rodear estes flashbacks, mas também alguns exageros tais como vermos Oscar a fingir que é um porco, ou este a relatar com enorme felicidade quando a amada urinou em cima de si. Diga-se que Roman Polanski parece estar completamente a lixar-se para os pudores ou se achamos ou não alguns elementos da narrativa exagerados. Este apresenta a sua ideia e é fiel aos seus ideais, algo que não deixa de se revelar acertado com o cineasta a colocar-nos praticamente hipnotizados com esta história sobre o passado de Mimi e Oscar, deixando-nos na mesma posição que Nigel, ao mesmo tempo que assistimos ao deteriorar da relação e descobrimos como o personagem interpretado por Peter Coyote ficou paraplégico.

A Torre Eiffel e os espaços de Paris, a cidade luz, muitas das vezes associada ao amor, surgem muito presentes nos flashbacks, mas também o apartamento de Oscar para onde Mimi vai habitar. Estes parecem habitar num mundo completamente à parte. Ele escreve e venera-a. Ela mescla uma forte sexualidade e presença com alguma fragilidade. Aos poucos parecem querer destruir-se mutuamente, não sem antes terem tórridos momentos de sexo. Os personagens interpretados por Emmanuelle Seigner e Peter Coyote ofuscam praticamente os outros dois elementos do filme, com as suas excentricidades sexuais, e não só, a revelarem-se praticamente a força motriz da narrativa. Existe um enorme mistério inicial em relação às suas pessoas que aos poucos vai sendo desvendado por Oscar. Este é um homem de obsessões e desejos, mesmo que isso envolva insistir numa actividade como a de escritor onde não parece ser bem sucedido e fazer de tudo para reencontrar a mulher que contaminou a sua alma. Explica as suas aventuras sexuais com a esposa com enorme deleite e por vezes rancor e saudosismo, simultaneamente fascinando e constrangendo Nigel com os detalhes, bem como o espectador. Diga-se que "Bitter Moon" não poupa nos elementos de erotismo, seja entre Oscar e Mimi, entre este e outras mulheres e esta com outros homens, com Nigel e Fiona a parecerem ficar com o papel dos personagens sexualmente reprimidos que constam em algumas obras de Roman Polanski. "Bitter Moon" traz-nos as perversões e humilhações sexuais presentes em trabalhos de Polanski como "Cul-de-sac" e "The Tenant", bem como o humor negro, para além de remeter para "Knife in the Water", onde também tínhamos o trio de protagonistas num barco, ainda que de menores dimensões, ao mesmo tempo que a tensão ia avançando com o desenrolar do enredo e o cineasta revelava as suas qualidades exímias a explorar os cenários e a aproveitar os espaços. A narrativa de "Bitter Moon" alterna assim entre o presente no barco e o passado de Mimi e Oscar em Paris, com o veículo a surgir como um local de revelações para ambos os casais de protagonistas. Nigel e Fiona passam notoriamente por uma crise, com a estabilidade matrimonial ao longo dos sete anos de casamento a parecer ter destroçado a chama que existia entre ambos. Parecem mais dois amigos que viajam juntos do que um casal que se encontra de férias. Dizem que vão para a Índia para procurarem paz interior mas essa parece estar perdida há muito tempo, com Mimi a despertar em Nigel o desejo que Fiona já não consegue. Existe um enorme mistério a rodear Mimi, mesmo com as revelações que nos vão sendo feitas, com os momentos finais do filme a evidenciaram isso mesmo quando encontramos esta a ter uma estranha parceria para alimentar a sua lascívia. Kristin Scott Thomas parece o elemento mais subtil e pragmático do quarteto principal do elenco, atribuindo à sua personagem alguma frieza que contrasta com a inquietante personagem interpretada por Emmanuelle Seigner. Roman Polanski parece querer expor Mimi como um objecto de desejo incontrolável, com esta mulher a ser ela própria incapaz de apresentar contenção. Descobrimos que em alguns momentos esta até tentou abrandar, mas o seu espírito de vingança foi despertado e o seu apetite sexual é devorador. Roman Polanski explora o mistério e tensão em volta destes elementos, com a inquietação a aumentar de tom, bem como a nossa vontade em sabermos o que vai acontecer ao quarteto neste barco em vésperas de ano novo. O ano está prestes a mudar mas será que estes personagens são capazes de controlar os seus ímpetos e tomar as melhores decisões? Se é que podemos falar em boas decisões de dois casais que parecem viver do passado.

 Oscar ainda parece deleitar-se por ver a esposa ter outros casos, mas é óbvio que isso o corrói, sobretudo se tivermos em linha de conta a sua reacção à primeira traição. Mimi e Oscar sempre tiveram uma relação de extremos. Inicialmente intrigamo-nos porque estão juntos, mas aos poucos os flashbacks são reveladores dos tempos de maior calor que os uniram. Já de Nigel e Fiona não precisamos de grandes flashbacks para tirarmos o "raio-x" da relação, com estes ainda a contactarem com Mr. Singh (Victor Banerjee), um simpático indiano viúvo que viaja com a sua jovem filha. Apesar do barco estar recheado de gente, é sobre quatro personagens, para não dizer em muitos momentos apenas em Mimi e Oscar, que se centra o enredo, com Roman Polanski a explorar mais uma vez de forma exímia um conjunto restrito de relações num cenário primordial que facilmente se torna claustrofóbico. Não falta ainda algum humor negro típico das obras do cineasta, tais como Oscar a gritar que o barco é o novo Titanic durante uma tempestade, ou o pão a saltar da torradeira durante um orgasmo, para além do momento em que descobrimos quem Mimi prefere nos momentos do último terço para lhe fazer companhia durante a noite. A história não deixa de estar mergulhada num tom algo negro, onde o erotismo e mistério estão presentes mas também a tensão, onde Roman Polanski apresenta uma visão algo cínica e sombria do casamento. No final, a desgraça parece estar destinada para alguns elementos. O caminho que leva o enredo assim o indica, com o estado mental de Oscar a estar longe de poder ser considerado estável. Se Nigel mescla uma indecisão em relação aos seus actos e indignação com o desejo pela mulher de Oscar, algo explorado de forma exímia por Hugh Grant, já Peter Coyote assume todos os exageros do seu personagem. A própria forma como Oscar procura obsessivamente por Mimi já exibe algum descontrolo, mas os momentos de enorme prazer sexual gradualmente transformam-se em ressentimento tendo como ponto alto, ou melhor, baixo quando este fica paraplégico. O sexo entre Mimi e Oscar expõe o lado mais quente desta mulher, disposta a tudo para encontrar novas fontes de prazer, enquanto Roman Polanski parece tirar um enorme gozo em explorar este lado mais sensual da sua esposa. Poucos cineastas teriam a ousadia de exporem assim a sua esposa, tal como poucas actrizes conseguem entregar-se de corpo e alma como Seigner para interpretar uma mulher fatal que parece adorar jogar com os sentimentos dos homens. Oscar também gosta de arquitectar os seus jogos, algo visível quando procura simultaneamente avisar Nigel sobre a personalidade da sua esposa e aguçar o apetite do suposto rival ou aliado. Entre o erotismo, o sadomasoquismo, traições e sexo, "Bitter Moon" não poupa na tensão e humor negro enquanto nos apresenta a dois casais bem distintos na forma como se relacionam entre si, embora o matrimónio de ambos já tenha conhecido melhores dias.

Título original: "Bitter Moon". 
Título em Portugal: "Lua de Mel, Lua de Fel".
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: Gérard Brach, John Brownjohn, Roman Polanski. 
Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote.

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