30 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Atonement" (Expiação)

 A sensação de engano no final de "Atonement" apenas é superada pela dor de percebermos que nem tudo correu como esperávamos para o casal de protagonistas pelo qual passámos a nutrir alguma simpatia e empatia. Joe Wright é inteligente na reviravolta final e evita a candura de "Pride & Prejudice", a sua primeira longa-metragem, investindo antes num enredo mais negro, onde o amor é prejudicado por uma mentira que se revela desastrosa e nefasta para os protagonistas. Os mal-entendidos são mais do que muitos, seja entre os personagens, seja aqueles que Joe Wright coloca para nos enganar, enquanto o personagem interpretado por James McAvoy acaba por ser um dos mais prejudicados por algo que não fez devido a uma mentira de uma pré-adolescente com uma imaginação demasiado fértil. McAvoy interpreta Robbie, um indivíduo de vinte e poucos anos, filho da governanta (Brenda Blethyn) da casa dos Tallis, sendo protegido pelo dono da extensa propriedade que lhe pagou os estudos em Cambridge. Nesta casa habitam ainda elementos como Briony Tallis (Saoirse Ronan), uma jovem de treze anos de idade, aspirante a escritora que no início do enredo, em 1935, encontramos efusiva por terminar a sua primeira peça de teatro. Está feliz da vida, mas inquieta pelos seus dois primos não quererem protagonizar a mesma, ao contrário de Lola (Juno Temple), a sua prima, com o trio a encontrar-se no local após ter sido abandonado pelos pais. Briony irá exibir desde logo a fertilidade da sua imaginação quando encontra Cecilia (Keira Knightley), a sua irmã mais velha, a tirar parte da sua roupa e entrar no chafariz com água bem profunda após alguns gestos comprometedores com Robbie. Supostamente Cecilia desprezava o mesmo, algo que descobrimos não ser verdade, tal como sabemos que Briony tem uma paixoneta por Robbie. "Atonement" mostra desde logo ao que vem ao reexibir a mesma cena, mas desta vez do ponto de vista de Cecilia e Robbie, embora tenham em comum a transparência da roupa da primeira após ter entrado na água e o aparente desejo contido e cumplicidade que ambos apresentam. Robbie partira por acidente parte do jarro com flores que Cecilia iria utilizar para receber Leon (Patrick Kennedy), o irmão mais velho, e Paul Marshall (Benedict Cumberbatch), um empresário do sector dos chocolates que se prepara para lucrar com o conflito bélico que se avizinha. Leon convida Robbie para o jantar em casa que contará com a presença de toda a família e Paul. No entanto tudo corre mal. Robbie escreve uma carta para Cecilia onde revela de forma bem explícita o desejo sexual que esta lhe desperta, algo que não deveria ser enviado mas sim uma versão bem menos "anatómica" da mesma, embora o protagonista entregue o texto mais picante por engano a Briony para esta entregar à irmã. Já a carta de Darcy a Elizabeth tinha provocado consequências em "Pride & Prejudice", mas em "Atonement" estas servem para chocar, instigar, culpabilizar e até expurgar os personagens e os seus sentimentos. Briony fica chocada e desiludida. Cecilia não parece saber bem o que fazer. Robbie mostra-se envergonhado. O resultado é uma quente cena de sexo na biblioteca entre Cecilia e Robbie, com o vestido verde desta a permitir um abrir de pernas após uma troca de beijos e um desejo notório entre ambos. São apanhados por Briony que não perdoa o momento e terá numa mentira a mais vil das vinganças. É então que é dada a notícia do desaparecimento dos irmãos de Lola, com vários elementos a encetarem a busca durante a noite, algo que culmina em tragédia devido a esta última ser violada.

 Briony não viu quem violou Lola mas acusa desde logo Robbie, enquanto esta última sabe quem foi o culpado mas não revela a verdade. As culpas são colocadas por Briony em Robbie, o último a aparecer, com quase todos a se acreditarem nesta menos Cecilia. Robbie é preso. A narrativa parece parar no rosto de Briony, com esta a criar na sua mente uma versão transviada de Robbie. Nós paramos estupefactos com o que vemos. Uma mentira resulta na prisão de um inocente. Uma mentira arrasa com o rumo que a narrativa tinha tido até então, onde tínhamos observado todo um contexto mais apolíneo. Uma mentira termina com uma relação que se preparava finalmente para avançar. Um close-up cada vez mais fechado é utilizado no rosto de Briony, enquanto ouvimos incessantemente sons próximos de uma máquina de escrever. Mais tarde saberemos o significado destes sons, com Joe Wright e a sua equipa a terem uma decisão feliz ao colocarem esta pista na banda sonora que irá ter todo o sentido no último terço do filme. A narrativa avança quatro anos. É dado a Robbie a opção de combater na II Guerra Mundial pelo exército britânico ou manter-se cativo, com este a escolher a primeira opção, encontrando-se inicialmente no Norte de França, integrado no Royal Sussex Regiment. Sabemos também  que Cecilia abandonou a família e foi viver para uma casa menor, trabalhando como enfermeira a cuidar dos feridos. As suas roupas são bem diferentes, marcadas por tonalidades azuladas, longe do requinte inicialmente apresentado. Encontramos Robbie e Cecilia reunidos, seis meses antes dos eventos militares, com estes a exporem o amor que os une, ao mesmo tempo que descobrimos que Briony decidiu também se tornar enfermeira para expiar os seus pecados. Se inicialmente Robbie e Cecilia pareciam separados pelas diferentes classes sociais mas unidos pelo desejo e amor que sentiam, já neste ponto da narrativa a Guerra torna tudo muito mais complicado, com a incerteza a pairar sobre as suas vidas e o ressentimento do protagonista em relação à família da amada a serem mais do que muitos. James McAvoy interpreta este personagem trágico com uma maturidade e competência notórias. É jovem, comete alguns erros, mas é considerado culpado por algo que não cometeu. No exército é notório que se encontra numa situação dolorosa, com o seu rosto a apresentar um sofrimento que advém não só do que encontra no palco de guerra mas também dos episódios passados. O próprio reencontro com Cecilia exibe dois personagens cujos rostos não apresentam a vivacidade de outrora. Cecilia perdera alguma da petulância e arrogância que por vezes a pareciam caracterizar expondo os seus sentimentos com mais frontalidade e sobriedade. Robbie encontra-se com mais incertezas sobre tudo e todos, embora ame Cecilia. Os cenários onde se encontram estão longe de demonstrar o deslumbre e a vivacidade dos momentos iniciais, enquanto a narrativa avança no tempo e ficamos perante os soldados britânicos em França, episódios como a operação Dínamo (evacuação de Dunquerque), bem como a procura de Briony em ajudar os soldados feridos que se encontram internados. Na idade adulta, Briony é interpretada por Romola Garai e posteriormente por Vanessa Redgrave, contando com três intérpretes ao longo do filme, cada uma capaz de atribuir as devidas mudanças que a personagem vai conhecendo ao longo do enredo. Saoirse Ronan atribui um lado mais misterioso e malicioso a Briony, uma jovem imaginativa, algo possessiva e capaz de cometer erros que prometem custar caro a quem a rodeia. Já Romola Garai interpreta a personagem aos dezoito anos de idade, arrependida pelos seus actos e pronta a desculpar-se perante a irmã e Robbie, enquanto Vanessa Redgrave nos surpreende numa versão angustiada desta mulher já em idade avançada e pronta a expiar os seus pecados (em grandes momentos de cinema).

As três actrizes conseguem manter uma coerência interpretativa na personagem, mas também as mudanças que teve ao longo da vida devido à maturidade e arrependimento que foi adquirindo. Briony é peça-chave do enredo. É esta que destrói duas vidas e arruma com a possibilidade de um casal poder ser feliz de forma incondicional. Foi uma birra que saiu caro a quem a rodeou, sobretudo a Robbie e Cecilia, com Keira Knightley a ser capaz de atribuir a classe e a dor necessárias a esta última, expondo os diálogos de forma sublime (é mais uma das grandes interpretações desta actriz). Knightley aparece inicialmente como uma mulher aparentemente fria, mas que se revela bem quente a nível de sentimentos, iniciando uma fugaz relação com Robbie que é interrompida por uma mentira e pela II Guerra Mundial. Na sua segunda colaboração com Joe Wright, Keira Knightley volta a brilhar, apresentando-nos uma personagem distinta de Elizabeth Benneth, a protagonista de "Pride & Prejudice", surgindo mais pragmática mas igualmente dotada de uma enorme personalidade e algumas fragilidades. O próprio guarda-roupa é revelador da mudança do quotidiano destes personagens. Cecilia deixa as roupas luxuosas, tal como Briony deixa temporariamente o conforto da sua casa, enquanto Robbie passa a utilizar as vestes militares. Temos ainda alguns personagens secundários de relevo na narrativa, tais como Paul Marshall (Benedict Cumberbatch num papel pequeno mas de algum relevo), um indivíduo pedante, de posses abastadas, vestido de forma a exibir o seu estatuto, embora até seja este o elemento que na realidade violou a jovem Lola, com quem irá casar no futuro. Já em "Pride & Prejudice" Joe Wright tinha dado relevo aos personagens secundários, algo que volta a acontecer em "Atonement" embora o enredo esteja bastante concentrado em Robbie, Cecilia e Briony, tendo como pano de fundo quase seis décadas de história, uma miríade de cenários e uma convulsão de sentimentos. O cineasta domina os ritmos da narrativa e das revelações efectuadas ao longo desta adaptação do livro homónimo de Ian McEwan, num filme de época que nos emociona e engana, ao mesmo tempo que expõe a capacidade do cineasta em dotar as suas obras de uma mistura de lirismo e realismo. No final somos confrontados com a realidade e esta pode doer. Não esperávamos e provavelmente não a pretendíamos, mas a coragem para este desenlace é uma das grandes vitórias de "Atonement" e Joe Wright, quase que nos obrigando a rever o filme para ter uma nova perspectiva do mesmo. Na realidade, ainda nos afeiçoamos mais aos personagens e ficamos num misto de sentimentos entre o final que queríamos e aquele que nos dão. Logo de início, quando vemos duas exposições diferentes sobre um momento entre Cecilia e Robbie, percebemos que Joe Wright vai procurar jogar com as nossas percepções da narrativa, enquanto avança e recua com a mesma no tempo e explora um argumento competente ao mesmo tempo que se revela um exímio contador de histórias. A própria representação da II Guerra Mundial revela-se perfeita para a exposição do carácter trágico do personagem interpretado por James McAvoy, onde até no plano bélico é derrotado e assiste a uma violência atroz (veja-se o magnífico plano sequência de um dos momentos em Dunkirk onde assistimos a Robbie a observar toda a violência que o rodeia, meio em pânico, meio desejoso de regressar a casa para rever Cecilia). Desde o início que Robbie e Cecilia não parecem destinados a serem felizes. Uma mentira inicia a desgraça, não só dos protagonistas, mas também de uma jovem que tem de lidar com os efeitos secundários da mesma, embora estes nunca estejam à altura daquilo que provocou. É doloroso ver como se separa assim alguém, com Keira Knightley e James McAvoy a dotarem os seus personagens de uma química latente ao longo do tempo em que estão em conjunto, com Joe Wright a saber como mexer com os nossos sentimentos. Com uma cinematografia belíssima capaz de explorar os diferentes sentimentos que envolvem os acontecimentos do enredo, uma banda sonora adequada e uma reviravolta surpreendente, "Atonement" surge como um drama poderosamente envolvente que se apossa de nós e não nos larga, enquanto nos deixa com interpretações de relevo de James McAvoy, Keira Knightley e Saoirse Ronan.

Título original: "Atonement".
Título em Portugal: "Expiação".
Realizador: Joe Wright.
Argumento: Christopher Hampton.
Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Vanessa Redgrave.

Sem comentários: