07 novembro 2014

Resenha Crítica: Welcome to New York

Bem sei que não foi esse caso mas, se me pedissem para singularizar a cena mais perturbadora de “Welcome to New York”, diria que foi aquela em que o Gérard Depardieu nos mostrou a sua “courgette”. Não necessariamente pela natureza do ato em si, mas sim pela forma como ele nos foi apresentado. A personagem de Depardieu acabara de ser encarcerada e está consequentemente a dar entrada numa penitenciária meio escura e de longos corredores. Acompanham-no dois guardas que, em tons autoritários mas profissionais, lhe ordenam para que se encaminhe para uma divisão praticamente vazia, adornada unicamente com uma mesa comprida de madeira, colocada entre o encarcerado e os seus capatazes. Dizem ao protagonista que dispa as suas roupas, uma a uma, e que as coloque no tampo da mesa. Assim que Depardieu desabotoa a camisa, a sua enorme barriga, free at last, descai imediatamente sobre o seu corpo todo. A operação prossegue, e entre gemidos e grunhidos de impotência o ator consegue libertar-se sem ajuda das suas calças e dos seus boxers. Vemos emergir, entre a penumbra do quarto, um gigantesco “derrière” e a já citada “courgette”. Assim inglório e em pelo, é-lhe de seguida ordenado para que se agache. Desorientado mas sem intenções de recusar, o protagonista reúne a coragem necessária para a realização desse esforço hercúleo. Firma as mãos na mesa, geme, dobra-se de joelhos, grunhe, tenta levantar-se, não consegue, os guardas riem-se, toma balanço, ferra os pés no chão, geme outra vez, e consegue-se apoiar sozinho novamente em duas patas. A tristíssima figura deste Obelix caído em desgraça só terá o seu culminar depois de, enfim, lhe imperarem para que dê uma voltinha sobre si mesmo, ao que ele acede, muito, muito lentamente.
     Se esta cena em particular é ilustrativa da linha de raciocínio que orientou Abel Ferrara durante a realização deste filme, centrada na exploração e na exposição absoluta (neste caso a nu) desta espécie de animal interpretado por Gérard Depardieu, é também uma demonstração da entrega indescritível que o ator concedeu a esta sua personagem, resultante provavelmente numa das melhores interpretações da sua carreira. A inspiração para a sua personagem partiu do nosso bem conhecido Dominique Strauss-Kahn, um sexagenário francês detentor do cargo de diretor do FMI até 18 Maio de 2011, data em que decidiu apresentar a sua demissão depois ter sido acusado de agredir sexualmente uma empregada de um hotel. Estando Strauss-Kahn, por esta altura, empenhado em candidatar-se às presidenciais do seu país, a notícia do seu aprisionamento foi ainda mais mediatizada. O desfecho das circunstâncias não aparentava ser particularmente favorável: fora encontrada uma amostra do seu sémen na camisola da vítima e esta nem era a primeira acusação deste género de que era alvo. Kahn passou subsequentemente alguns dias encarcerado, e após o pagamento de uma fiança de um milhão de dólares foi-lhe concedido o direito de prisão domiciliária. Foi libertado definitivamente, desta vez do seu apartamento de luxo em Nova Iorque, apenas um mês mais tarde, após a justiça norte-americana ter concluído que não havia provas suficientes para o sentenciar a uma pena.
     O francês continuou a ser alvo de numerosos processos judiciais, que pelo seu número e pela sua natureza deixavam transparecer uma decadência moral de proporções assustadoras. Não só voltou a ser acusado por uma jornalista de tentativa de violação, como foi investigado posteriormente por ter, alegadamente, contratado prostitutas para participar em festas de sexo em hotéis franceses e norte-americanos. No primeiro caso admitiu (apenas) ter tentado beijar a jornalista e, no segundo, reconheceu a sua participação nas celebrações, desconhecendo no entanto que as mulheres estavam a ser pagas. Em ambos foi considerado inocente por “falta de provas”. O que se torna óbvio após o visionamento de “Welcome to New York”, porém, é que para Abel Ferrara a máxima de ser “inocente até prova de contrário” não é para ser inteiramente levada a sério. O cineasta tomou conhecimento dos processos judiciais em que o milionário estava envolvido, e considerou-o culpado de todas as acusações. Expôs ainda os três crimes que mencionei em cenas difíceis tanto de observar, como de esquecer.
     A maior parte desses momentos tem lugar nos minutos iniciais do filme, e desenrolam-se num hotel em Nova Iorque. Observamos Deveraux (nome dado à personagem) a participar numa diversidade de sequências de sexo com prostitutas diferentes para cada ocasião, chegando a estar, numa delas, regado numa mistura de gelado com conhaque e viagra. As cenas são demoradas e incomodativas, e pretendem introduzir-nos à obsessão do protagonista pela realização do intercourse. Numa circunstância vemo-lo a soltar rosnares assustadores e a assemelhar-se a um animal descontrolado, e noutra a tentar desesperadamente não ceder à exaustão e “aproveitar” a presença de duas mulheres seminuas que se estão a beijar à sua frente. Denotamos que o sexo até é capaz de lhe proporcionar algum prazer, mas parece ser acima de tudo uma maneira de satisfazer temporariamente o monstro animalesco que ele deixou de tentar restringir. Na manhã seguinte, ocorre o incidente com a empregada. A violação não é inteiramente exposta pela câmara de Abel Ferrara, mas as costas largas e peludas de Depardieu sobrepondo-se aos gritos e súplicas da sua vítima vão-nos sugerir até que ponto vai a doença e a canalhice do protagonista.
     O resto do enredo continuará a centrar-se na epopeia de Deveraux, enquanto este começa a ser julgado e é obrigado a passar alguns dias no referido cárcere. Os momentos em que se encontra enjaulado expõem alguma da sua desorientação, bem como uma diversidade de sentimentos difíceis de decifrar que, ocasionalmente, nos fazem pensar que estamos perante um tipo instável e possivelmente perigoso. Seja como for a estadia não é longa e, passados uns dias, o protagonista é autorizado a residir num espaçoso apartamento de três andares em Nova Iorque. É nesta altura que entra em cena a sua mulher Simone (Jacqueline Bisset), uma francesa de personalidade forte baseada na riquíssima esposa de Strauss-Kahn entre 1991 e 2012. Será ela a tomar o controlo da situação, contratando com toda a naturalidade os advogados mais caros e experientes do mercado para safar o marido. Foi graças à sua fortuna que Deveraux pôde sair da prisão, e será pelo mesmo caminho que o acusado será posteriormente ilibado. O filme focar-se-á no relacionamento entre Deveraux e Simone através da exposição de alguns diálogos longos, intensos e bem escritos, que permitirão à narrativa aprofundar as personalidades de cada um e evidenciar os motivos por detrás dos seus comportamentos. Saberemos, consequentemente, que Deveraux tem a perfeita noção dos seus vícios e da destruição que estes provocam nos que o rodeiam, e que as tentativas da sua mulher em ajudá-lo nunca terão o mínimo efeito: «Sabes o que fizeste? Ao longo dos anos, parte por parte, pedaço por pedaço? Fizeste-me odiar-me a mim próprio. E conseguiste
     Apesar do interesse e da intensidade que o relacionamento entre Simone e Deveraux proporcionam ao último terço do filme, as verdadeiras idiossincrasias do protagonista só serão verdadeiramente expostas numa cena arrepiante em que este se encontra sozinho, a vaguear pelo seu luxuoso apartamento no meio da penumbra, e a observar os prédios iluminados em tons vermelhos que se erguem à sua volta. As reflexões de Depardieu são-nos apresentadas pela sua voz em off, com um tom seguro e uma certa superioridade que contrastam com a perturbação das suas feições: «Compreendi a futilidade da luta contra esse invencível tsunami que consiste nos problemas com os quais somos confrontados. As coisas não vão mudar. Os esfomeados vão morrer; os doentes, morrerão também; a pobreza, sim, é um bom negócio. Mesmo sem os aceitar, os homens conhecem os seus limites. Terei ficado abismado com essa revelação? Não. Para quê andar a remoer nisso? Para mim não há redenção
     Na verdade, não sei se as intenções de Abel Ferrara aquando da realização deste filme merecem o tecimento de elogios ou o franzimento do sobrolho - retratar como um monstro violador um indivíduo cuja culpabilidade nunca foi assegurada é uma questão moral demasiado complexa. É certo que a “dúvida razoável” ou a “falta de provas” nunca nos convenceram da inocência de ninguém e que os juízes podem ser corrompidos ou pressionados pelos que exercem mais poder. Além do mais, as numerosas investigações de que foi alvo e as justificações pouco convincentes que esboçou parecem fazer de Strauss-Kahn um sacana animalesco. Mas serão as aparências sólidas o suficiente para o podermos culpabilizar de forma tão agressiva? Seja como for, as acusações do cineasta ao longo de “Welcome to New York” não recaíram unicamente sobre a figura de Strauss-Kahn. Abel Ferrara insistiu em várias entrevistas que a essência do seu filme estava num indivíduo perturbado e corrompido pelos seus próprios vícios, mas também o utilizou, de forma menos evidente, como um paradigma de uma realidade mais abrangente correspondente à capitalista, simbolizada pela cidade de Nova Iorque. Daí se explica o título do filme, bem como a entrevista efetuada a Gerard Depardieu que nos é exposta antes do início da narrativa, na qual este reconhece que é «um individualista. Um anarquista. Não gosto das pessoas que fazem política, não acredito nelas. Eu odeio-as.» Também por estes motivos, segundos depois das declarações do ator, ser-nos-á reproduzida ironicamente a canção “America the Beautiful” ao mesmo tempo que são expostos alguns símbolos norte-americanos como uma estátua de George Washington envelhecida, o Washington Monument a ser alvo de obras ou umas centenas de notas de dólares a serem fabricadas. A associação dos Estados Unidos à corrupção de valores até é compreensível e está longe de ser uma inovação, mas, tendo em conta que o filme nunca se irá afastar da figura de Deveraux para explorar um universo mais amplo, a ideia parece gratuita e pouco fundamentada.
     Por outro lado, é de elogiar o risco tomado por Abel Ferrara em realizar uma obra que se centra num protagonista odioso e capaz de cometer crimes abomináveis cuja visão raramente nos é poupada. Estes momentos levam-nos por vezes a querer desviar os olhos do ecrã, mas as qualidades do filme levar-nos-ão a resistir e a observá-lo até ao seu desfecho. Um delas é a sua cinematografia, que evidencia o talento de Ferrara e do cinematógrafo Ken Kelsch em explorar os espaços físicos nos quais se desenrola o enredo, seguindo as personagens à medida que estas vão passando de divisão para divisão, a conversar ou a refletir. Realça-se acima de tudo a magnífica interpretação de Gérard Depardieu, capaz de oscilar entre a simpatia e a perturbação com a mesma facilidade com que se exprime em inglês e em francês na mesma frase. É graças à sua presença e aos ocasionais traços de humanidade que ele incute no seu protagonista que vamos querer seguir as suas passadas, e será a sua interação, por vezes acesa, com Jacqueline Bisset (irrepreensível) a providenciar um dos principais motivos de interesse ao último terço da narrativa.
     Assim sendo “Welcome to New York” não é muito fácil de ser visualizado e não parece ter sido dirigido com intenções particularmente nobres, mas é apesar de tudo uma obra arriscada e interessante. A preocupação de Abel Ferrara em explorar o seu protagonista permite-nos gradualmente compreender a sua maneira de pensar e os terríveis vícios que o impelem, e a interpretação de Gérard Depardieu incentiva-nos a querer segui-lo nem que seja para vermos o sacana a apodrecer na prisão. Os diálogos não são geniais mas estão interessantes, e a cinematografia é cuidada e não menos eficaz. Acima de tudo é uma obra à qual é difícil ficar indiferente, que o diga Strauss-Kahn que até já instaurou um processo contra o seu realizador. Apesar desta ação judicial, calcula-se que o incómodo do milionário não tenha sido limitativo: há menos de uma semana foi anunciada a sua nova reabilitação política. Só o futuro dirá se os franceses o receberão de braços entreabertos ou, nas palavras da deputada Ana Gomes, como “um predador patológico” que “devia estar na prisão ou num hospital a ser tratado”. Mas uma coisa é certa: mesmo sem o seu consentimento, Strauss-Kahn já nos conseguiu proporcionar cerca de duas horas de algum interesse, nem que sejamos obrigados a observá-lo a “tentar beijar” as suas vítimas ou a ter relações sexuais com mulheres que, afinal de contas, não passavam de prostitutas.

Ficha técnica:

Título original: Welcome to New York
Realização: Abel Ferrara
Argumento: Abel Ferrara e Christ Zois
Elenco: Gérard Depardieu, Jacqueline Bisset, Paul Calderon, Amy Ferguson, entre outros.

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