05 novembro 2014

Resenha Crítica: "Street Fighter" (1994)

 Existem duas grandes formas para encararmos "Street Fighter": como uma paródia, ou uma adaptação a sério a uma popular saga de jogos de computador (neste caso adaptado de "Street Fighter 2"). Se considerarmos o filme uma paródia, então realmente alguns diálogos e momentos de "Street Fighter" passam a fazer sentido, a música intrusiva passa a constar apenas para exacerbar alguns trechos dolorosos para o nosso cérebro, as alterações em relação ao jogo deixam de fazer mossa, enquanto Jean-Claude Van Damme debita as suas falas com um sotaque muito próprio e Raul Julia mostra que não merecia ter como último papel da sua carreira o general Bison, ao mesmo tempo que tudo ganha alguma estranha piada. É que é tudo tão caricatural, tão sem sentido, sem coerência (Guile a dizer o nome do melhor amigo, Carlos Blanca aka "Charlie", na televisão num discurso para Bison, quando aquele se encontra cativo do antagonista, que desconhecia a proximidade entre o refém e o interlocutor), sem uma mínima capacidade de criar tensão em volta dos acontecimentos criados (veja-se quando Guile forja a sua morte para passados cerca de cinco minutos já sabermos que este se encontra vivo), ficando mais uma vez provada a dificuldade em adaptar de forma competente os jogos de computador ao grande ecrã (veja-se que, mais tarde, "Street Fighter: The Legend of Chun-Li" conseguiu ser tão mau ou pior que o filme em análise). O enredo desenrola-se em Shadaloo, uma cidade ficcional localizada no Sudeste Asiático, que se encontra em plena guerra civil, com o general M. Bison (Raul Julia), um ditador megalómano com um exército numeroso, a procurar liderar o local e dominar o Mundo, enquanto as tropas aliadas procuram evitar este desiderato. As tropas aliadas são lideradas pelo Coronel William F. Guile (Jean-Claude Van Damme), contando com Cammy (Kylie Minogue) como sua ajudante, entre vários outros elementos. Bison capturou 63 assistentes das nações aliadas, exigindo 20 bilhões de dólares pelo seu resgate, encontrando-se entre estes Carlos "Charlie" Blanca, um amigo de Guile. Entretanto, Ryu Hoshi (Byron Mann) e Ken Masters (Damian Chapa), dois burlões, procuram vender armas falsas a Viktor Sagat (Wes Studi), o líder de um sindicato do crime, que negoceia directamente com Bison, tendo em Vega (Jay Tavare), um lutador, um dos seus aliados. Sagat conta com um bar onde efectua os seus negócios obscuros, que vão desde lutas ilegais, tráfico de armas, entre outros. Esse local é temporariamente encerrado por Guile, que captura estes elementos, até convencer Ryu e Ken a infiltrarem-se junto de Sagat para descobrirem a localização de Bison, algo que estes aceitam relutantemente forjando a morte do personagem interpretado por Jean-Claude Van Damme. Quem se acredita inicialmente na morte deste é Chun Li, uma suposta jornalista que logo descobre o plano de Guile, pretendendo eliminar o antagonista, contando com a ajuda de Honda (Peter Tuiasosopo) e Balrog (Grand L. Bush), enquanto Bison procura dominar o território e gerir o mesmo de forma despótica. Este pretende ainda criar o soldado perfeito, utilizando as invenções de Dhalsim (Roshan Seth), um cientista a trabalhar de forma contrariada, para efectuar uma lavagem cerebral e corporal nos humanos que se encontram a ser alvos das experiências. Ryu e Ken traem temporariamente Chun Li, Honda e Balrog para ficarem nas boas graças de Sagat e Bison, mas tudo se complica quando o emissário das Nações Aliadas pede a Guile para abortar a missão. Este ignora as ordens e consegue reunir um conjunto de militares para atacar a fortaleza onde se encontra Bison e os reféns, contando ainda com o apoio de elementos como Chun Li, Honda, Balrog, Ryu e Ken, numa missão onde o protagonista quase que morre por várias vezes mas nunca duvidamos que este vai ter sucesso.

Não deixa de ser curioso que Steven E. de Souza, argumentista e realizador de "Street Fighter", também tenha escrito uma das versões do argumento de "The Flintstones", outra das estreias de 1994 que desiludiu, tendo entre um dos motivos para o seu fracasso a nível de crítica a fraqueza do enredo e diálogos. Em "Street Fighter" a pobreza dos diálogos apenas aparece igualada pelas más interpretações de um filme que gostei imenso de ver aquando da sua estreia. Tinha cerca de nove ou dez anos e rever o filme nos dias de hoje equivaleu a uma dor semelhante a um pontapé nas partes baixas. As reviravoltas são mais do que muitas mas pouco sentidas, as cenas de maior tensão geralmente provocam indiferença, os efeitos especiais estão datados, enquanto o último terço dá-nos alguns momentos onde Jean-Claude Van Damme exibe o seu talento para as artes marciais e a sua inépcia para a interpretação. Tem carisma, é certo, e isso esconde várias das limitações para a interpretação, mas é penoso tentar ver Van Damme a proferir discursos emotivos ou frases de efeito, enquanto o seu personagem procura travar os intentos do ditador e salvar os reféns. O mais desastroso é que Van Damme nem é dos elementos que está pior no elenco. Raul Julia, um actor que já dera provas de contar com algum talento, “brinda-nos” com uma interpretação marcada por overacting latente, com os planos do seu personagem a parecerem saídos de um desenho de animado para miúdos de seis anos. O actor viria a falecer passado pouco tempo depois, tanto que o filme foi dedicado à sua pessoa, embora este merecesse melhor homenagem. O filme conta ainda com um sem número de personagens secundários unidimensionais, tais como Zangief (Andrew Bryniarski) um ajudante de Bison que a certa altura anda vestido apenas com uma espécie de speedo, Sagat (um contrabandista completamente caricatural, com uma pala num olho), Vega (um lutador cujo visual pode resultar no jogo mas não resulta no filme), Chun Li, Dhalsim (ridícula a participação do personagem no filme), Cammy, entre muitos outros que apenas parecem constar no enredo devido a Steven E. de Souza procurar juntar vários elementos integrantes do jogo (com algumas excepções). Nesse sentido, o filme até poderia ter beneficiado se contasse com um conjunto mais restrito de personagens, permitindo explorar melhor as suas personalidades e fazer evoluir as mesmas ao longo do enredo. Também beneficiaria se tivesse uma história mais elaborada, um argumento de melhor qualidade, cenas de acção coreografadas com alguma habilidade e criatividade, um conjunto de intérpretes mais talentosos, ou seja, se praticamente tudo tivesse sido diferente. Mesmo a forma como Van Damme e Raúl Júlia parecem levar a sério tudo o que estão a dizer não casa bem com o tom camp/trash do filme, que ganharia muito se assumisse a sua faceta completamente irrealista e espalhafatosa. Nem tudo é mau para Steven E. de Souza e "Street Fighter": deram uma lição de como não fazer um filme baseado na célebre saga de jogos, mas mesmo assim Andrzej Bartkowiak não aprendeu a lição. Em qualquer dos casos, é um compêndio do que não se deve fazer num filme, não é para todos.    

Título original: "Street Fighter". 
Título em Portugal: "Street Fighter - A Batalha Final".
Realizador: Steven E. de Souza.
Argumento: Steven E. de Souza.
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Raul Julia, Ming-Na Wen, Damian Chapa, Kylie Minogue, Wes Studi.

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