21 novembro 2014

Resenha Crítica: "A Scanner Darkly" (2006)

 Tendo como pano de fundo um futuro onde os territórios dos EUA parecem aparentemente monitorizados por câmaras de segurança e a Substância D, uma droga que causa perigosas alucinações e tem efeitos nocivos para o cérebro, surge como uma epidemia difícil de controlar, "A Scanner Darkly" apresenta-nos a uma obra de ficção-científica marcada por um argumento inteligente, momentos meio surreais e um conjunto de personagens que facilmente capta a nossa atenção. Richard Linklater e a sua equipa utilizaram o interpolated rotoscope, uma técnica que permite tornar o filme em formato de animação, após ter sido gravado em live action, de forma a que os actores e actrizes nunca percam verdadeiramente as suas expressões, deixando-nos perante um universo narrativo estilizado, adequando-se a este enredo que não nos poupa a alucinações, personagens com dupla personalidade, traições, paranoia e muito consumo de drogas. O enredo desenrola-se em Anaheim, Califórnia, "Daqui a sete anos", num futuro em que a polícia se encontra a montar uma operação alargada para encontrar os elementos que se encontram por detrás da distribuição e produção desta perigosa e viciante droga. Os efeitos desta droga são visíveis desde logo quando encontramos Charles Freck (Rory Cochrane), um viciado em Substância D, a alucinar com insectos que invadem o seu corpo, lavando-se de forma bastante intensa na banheira, bem como ao seu cão. Este é amigo de Barris (Robert Downey Jr.), Ernie Luckman (Woody Harrelson), Donna (Winona Ryder) e Bob Arctor (Keanu Reeves), com o grupo a reunir-se regularmente na casa deste último, vivendo um estilo de vida marcado pelo consumo de drogas, conversas aparentemente banais e um interesse latente entre estes dois últimos personagens. Arctor é um elemento supostamente procurado pelas autoridades, devido ao seu envolvimento com o grupo e às suas actividades suspeitas. A vigilância da polícia aperta, com Barris a não ter problemas em denunciar os seus companheiros junto das autoridades. Entre esses elementos da polícia encontra-se Fred (Keanu Reeves), um elemento que contacta de perto com os seus superiores, incluindo Hank, através de um fato especial que permite disfarçar a identidade de cada personagem. Com excepção dos médicos que começam a ficar preocupados com os comportamentos de Fred, poucos são aqueles que aparentemente parecem conhecer o seu verdadeiro aspecto físico. Nós sabemos que Fred é na realidade Bob Arctor, tendo-se infiltrado no interior deste grupo de viciados em Substância D, vendida por elementos como Donna e Barris. Aos poucos existe uma diluição da personalidade de Fred e Bob, com este polícia a tornar-se ele próprio um viciado em Substância D, começando a alucinar e a perder a noção da realidade e do seu papel na sociedade. Assume cada vez mais a faceta de Bob como elemento integrante dos dependentes de Substância D, embora Fred seja apenas um nome de código, com este a levar uma vida dupla que nem é assim tão dupla. Richard Linklater desenvolve uma teia narrativa complexa, misteriosa e meio surreal em volta desta obra cinematográfica adaptada do livro "A Scanner Darkly", de Phillip K. Dick, onde as reviravoltas são mais do que muitas e este ambiente alucinatório gradualmente parece tomar conta de nós. A conversão para um formato semelhante a animação não tirou as expressões dos actores, com Keanu Reeves a ter em Bob Arctor um papel que se adequa bastante à sua rigidez de expressões faciais, algo que permite ao actor jogar com as suas limitações.

Arctor por vezes parece um livro em branco que pouco conseguimos decifrar, com a sua personalidade a ser cada vez mais afectada pelos efeitos secundários das drogas que consome, começando a praticar uma vida dupla que promete trazer graves consequências, sobretudo para si. É um polícia mas aos poucos parece deixar de agir como tal, perdendo-se perante o consumo excessivo de drogas e um conjunto de atitudes erráticas que o colocam num limbo perigoso, tendo nos elementos que vigia aqueles que parecem ser os únicos amigos ou pelo menos algo que se pareça com relações de amizade. Este sabe que Barris é um traidor no interior do grupo, ao receber, em conjunto com Hank, informação falsa dada por este elemento sobre Arctor e Donna. Barris é um elemento com uma personalidade algo expansiva, sem problemas em trair aqueles que lhe são próximos para conseguir os seus objectivos, procurando a todo o custo fingir cooperar com as autoridades, incluindo ao montar um sistema de vigilância no interior da casa que permite monitorizar o comportamento de Arctor. A vigilância é um dos temas abordados pelo filme, embora esta muitas das vezes se revele pouco eficaz (tal como Richard Linklater parece incapaz de explorar um lado mais político desta vigilância). Temos câmaras praticamente por todos os locais da cidade, bem como pelo interior da casa de Arctor, Barris, Ernie, Freck e Donna, com os passos destes elementos a serem seguidos pela polícia graças ao segundo. Robert Downey Jr. interpreta um personagem completamente imoral, sem problemas em consumir drogas, comprar produtos roubados, trair os amigos, gerando-se também na sua pessoa alguma paranoia. Por sua vez, Woody Harrelson interpreta um elemento excêntrico e expansivo, com o actor a sentir-se relativamente à vontade a elevar este tipo de personagens peculiares (veja-se quando utiliza uma pedra para simular uma luta com o personagem interpretado por Robert Downey Jr., enquanto este utiliza um martelo). Já Keanu Reeves é o elemento em maior destaque como este polícia à paisana com vida dupla, com ambas as suas facetas a diluírem-se e as barreiras que as separavam a esbaterem-se de tal forma que nem este parece saber quem é na realidade. Diga-se que até nós desconfiamos das verdadeiras intenções deste personagem. Quererá mesmo ajudar a polícia ou continuar a perpetrar a sua vida junto do grupo? A certa altura do filme descobrimos as verdadeiras causas para a sua entrada no grupo e todo o contexto que envolve a sua missão, com "A Scanner Darkly" a fazer-nos questionar sobre os limites morais de uma operação de vigilância. Diga-se que a influência do material de Philip K. Dick parece óbvia, com "Minority Report" a também fazer-nos questionar sobre temáticas relacionadas com a segurança e a vigilância, embora sem uma narrativa com um tom tão surreal como "A Scanner Darkly". Veja-se os momentos iniciais de Freck, bem como a cena em que vemos Arctor a alucinar que os seus interlocutores se encontram com corpos de insectos. São momentos em que a perturbação destes elementos viciados fica bem latente, onde até nós próprios ficamos algo atordoados, enquanto estes parecem incapazes de se livrarem do vício. Os efeitos secundários da Substância D conduzem a que o hemisfério esquerdo do cérebro do protagonista entre em conflito com o hemisfério direito, uma situação que contribui para o distorcer da sua personalidade e para as já citadas halucinações. A desintoxicação poderá ser efectuada na New Path, uma corporação que contém uma série de clínicas de recuperação, embora em vários casos as células cerebrais estejam demasiado danificadas para os doentes se curarem definitivamente. A própria New Parth não é uma empresa com objectivos tão meritórios como pode inicialmente parecer, com "A Scanner Darkly" a deixar-nos perante uma teia de mentiras e reviravoltas que gradualmente nos surpreendem e tiram da zona de conforto em que pensávamos estar. Diga-se que é uma estranha "zona de conforto", com o filme a deixar-nos perante viciados em droga, alucinações, diálogos associados a paranoia, elementos moralmente corruptos, com Richard Linklater a não ter problemas em colocar os seus personagens nos limites ao mesmo tempo que nos questiona sobre as temáticas abordadas sobre a segurança, drogas e moralidade. O argumento de Richard Linklater consegue abordar assertivamente as temáticas e explorar as personalidades  dos personagens, jogando quase sempre com as dúvidas em relação ao protagonista, para além de conseguir dar alguma densidade a Arctor que vai para além do seu papel como polícia e junkie, com o interesse deste em Donna a permitir humanizar ainda mais o personagem.

Winona Ryder é dos poucos elementos femininos em destaque ao longo do filme, com o seu papel a apresentar também alguma dubiedade, com este filme de ficção-científica neo-noir a não nos poupar alguns segredos em relação aos seus personagens. Donna vende droga, é viciada em cocaína, parece ter interesse no protagonista mas apenas afasta-o. O próprio Arctor tem como missão descobrir quem fornece droga a Donna e assim chegar aos superiores desta, uma tarefa que parece complicada, sobretudo quando descobrimos alguns elementos no último terço que não poderemos revelar neste texto. Se Arctor procura aproximar-se de Donna, já Freck afasta-se de tudo e todos, caindo numa espiral descendente perante o aumentar do consumo de drogas, com Rory Cochrane a conseguir exibir os problemas do foro mental que começam cada vez mais a afectar o seu personagem. Terá este futuro próximo que nos é apresentado em "A Scanner Darkly" algum pingo de realidade? A citação do livro de Philip K. Dick no final do filme, dedicada aos amigos que faleceram ou ficaram limitados devido a problemas com drogas, exibe mais uma vez que este é um flagelo difícil de controlar, existindo uma clara mensagem anti-drogas no filme, apesar de toda a sua atmosfera meio alucinogénia, para além de uma crítica às grandes corporações e até à incapacidade de se controlar este problema. Mais do que um vício, esta dependência de drogas é encarada como uma doença ao longo do filme, embora o seu tratamento esteja longe de ser o mais recomendável, numa obra que é bem mais inteligente do que aparenta ser, procurando desafiar as nossas expectativas e as dos personagens. Claro que temos aqueles momentos em que Barris, Freck, Arctor e Ernie têm diálogos de maior leveza, sobretudo quando consomem drogas, com os seus diálogos a nem sempre fazerem sentido, algo visível quando o primeiro compra uma bicicleta roubada e percebe que foi enganado, embora raramente percebamos qual a utilidade que este pretende para o veículo. No final ficamos perante uma obra cinematográfica marcada por uma narrativa bastante peculiar, com Richard Linklater a conseguir controlar os ritmos da mesma e das revelações que vão sendo efectuadas, ao mesmo tempo que permite a Keanu Reeves criar um personagem deveras interessante cuja dupla personalidade, quanto mais se vai unificando, mais desperta a nossa curiosidade. 

Título original: "A Scanner Darkly".
Título em Portugal: "A Scanner Darkly - O Homem Duplo".
Realizador: Richard Linklater.
Argumento: Richard Linklater. 
Elenco: Keanu Reeves, Robert Downey, Jr., Woody Harrelson, Winona Ryder.

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