10 novembro 2014

Resenha Crítica: "Saint Laurent"

     Creio que todos os espetadores de “Saint Laurent” já terão concluído com alguma convicção que o filme em questão não é muito convencional. Alguns terão salientado o seu trabalho de câmara e a sua ocasional conjugação com a música diegética e outros a confiança com que o seu realizador, Bertrand Bonello, tomou vários riscos na elaboração do seu argumento. Outros ainda, em número incerto, nos quais se insere blogger, não terão ficado muito convencidos com a impressionante discrepância entre uma cinematografia engenhosa e uma narrativa estruturada de forma estranhamente superficial, maioritariamente linear mas com um rumo de acontecimentos repetitivo e inconsequente que não parece fazer muito sentido, que não sabe muito bem como quer e deve acabar.
     O seu enredo tem como propósito ilustrar-nos o período de vida do estilista Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel) compreendido entre os bem-sucedidos (a nível profissional) anos de 1967-1976, desdobrando-se numa miríade de episódios que nos expõem ao seu crescente apego a substâncias viciantes como as drogas, o álcool e o tabaco e explorando, pelo caminho, a sua relação destrutiva com um jovem cheio de estilo que vai acabar por desaparecer subitamente da narrativa. Outras personagens irão cruzar-se, eventualmente, no caminho de Yves Saint Laurent mas nenhuma delas será aprofundada o suficiente para se tornar interessante, salientando-se apenas o ambicioso Pierre Bergé (Jérémie Renier), o indivíduo responsável pelo crescimento da marca Yves Saint Laurent e a única personagem que irá demonstrar a mínima preocupação pela espiral descendente da qual o estilista nunca procurará realmente escapar.
     É certo que não é fácil encontrar motivos de queixa relativamente aos aspetos mais técnicos e estéticos que nos são apresentados em “Saint Laurent”. O trabalho de câmara é frequentemente bem conseguido, a utilização dos reflexos dos numerosos espelhos que embelezam os cenários é um pormenor curioso e eficaz, e, no final, até há uma representação de um desfile de moda em que a imagem se divide em numerosos quadriláteros imitando a forma de um quadro do artista Piet Mondrian, que até então fora mencionado pelo protagonista em diversas ocasiões. Sobressaem ainda algumas sequências desenroladas em bares noturnos nas quais observamos algumas personagens a dançar alegremente ao som da música local, que concedem um estilo singular ao filme e resultam, por norma, em momentos de belo efeito. O elenco, encabeçado por Gaspard Ulliel, também se exibe em constante bom plano, sendo evidente que a falta de emotividade do protagonista foi originada pelas incapacidades do argumento em desenvolver a sua personalidade, e em conceder-lhe traços de humanidade, e não por uma eventual falta de talento do seu intérprete, que conseguiu incutir um estilo muito próprio, notoriamente sério e devidamente excêntrico, a Yves Saint Laurent. Louis Garrel (conhecido pelas suas frutuosas colaborações com o pai, Philippe Garrel) também expôs todo o seu talento na interpretação do namorado de Saint Laurent, conferindo-lhe um estilo confiante e superior e cheio de carisma através dos seus gestos e das suas notáveis expressões.
     O que também se torna evidente, porém, é que estes pormenores perdem quase toda a sua relevância a partir do momento em que não passam de breves e efémeros momentos de uma narrativa que, mesmo ultrapassando as duas horas de duração, é absolutamente ineficaz na construção de uma história coerente que suscite um interesse constante por parte da audiência. Não quero com isto dizer que o problema da narrativa do filme seja a sua falta de linearidade ou a inexistência de um aparente sentido – todos conhecemos uma mão cheia de cineastas que conseguem elaborar filmes admiráveis assentes em histórias propositadamente irracionais, pois sabem como devem proceder para suscitar determinadas reações no espetador. Os acontecimentos de “Saint Laurent”, aliás, até são bastante fáceis de interpretar. O problema reside nas inúmeras decisões inconcebíveis que Bertrand Bonello tomou no desenvolvimento do seu fio narrativo, que colocam seriamente em causa a sua capacidade para contar, e gerir, uma história. As tentativas de desenvolver os personagens são inexistentes, a maior parte dos acontecimentos retratados são inconsequentes e, como tal, irrelevantes, e os saltos temporais, principalmente aquele que nos mostra, no último terço, um Yves Saint Laurent já idoso, não têm a mínima razão de ser.
     Há, apesar de tudo, um episódio climático na chegada ao último terço do filme, que deve ser salientado por consistir num momento definidor da estruturação do enredo. Protagonizam-no Yves Saint Laurent e o seu namorado, Jacques, interpretado por Louis Garrel. A sequência desenrola-se numa sala clara e iluminada, na qual Yves e o companheiro vão enfrascando comprimidos e perigosas quantidades de álcool. As reações subsequentes de cada personagem serão contempladas pacientemente pela câmara de Bonello, que nos mostrará o protagonista a segurar uma garrafa e a fazer um esforço tremendo para cessar o seu cambalear. Num dos cantos do ecrã surge o simpático cãozito de Yves, que se aproxima com curiosidade dos frascos de comprimidos que momentos antes tinham caído no soalho, começando a ingeri-los um a um. Yves, imerso na sua inglória experiência, deixa cair a garrafa ao chão, que se despedaçará aos seus pés em centenas de pequenos cacos afiados. As suas pernas acabam por ceder e o seu corpo tomba por cima do vidro. Enquanto, de um lado do ecrã, vemos o cão a definhar e a espumar-se do focinho, do outro observamos o seu dono tentar pôr-se de pé, coberto de sangue. Bertrand Bonello poderia ter perfeitamente utilizado este momento para começar a trabalhar na conclusão do seu filme. A cena não é particularmente emocionante e até acabamos por temer mais pelo destino do cão do que pelo do seu dono, acabando por ser mais impressionante pelo seu nível estético. Mas, mais importante do que isso, daria alguma coerência à sequência dos acontecimentos que se tinham arrastado desde o início da narrativa até este ponto: víramos Yves a adotar um estilo de vida tóxico e irresponsável, e eis as suas consequências.
     Inexplicavelmente Bonello decide prolongar o filme por mais uma hora, fazendo com que a única consequência deste episódio tenha sido o desaparecimento repentino de Garrel do enredo. Yves continua a drogar-se e a emborcar álcool e até lhe arranjam um cão semelhante e com o mesmo nome para suprir a falta do anterior. Emerge, na audiência, a perfeita noção de que dificilmente voltará a surgir uma cena tão intensa ou perigosa como a referida, e, sem nada para ansiar, resta-nos apenas o desinteresse. Concluímos por nós próprios que construir uma história com um clímax a meio, seguido de acontecimentos repetitivos e desinteressantes, não faz o mínimo sentido, e ponderamos se as emoções que o realizador quer suscitar nos seus espetadores não devem ser geridas de modo a serem constantes ou progressivamente mais intensas. Infelizmente, Bertrand Bonello não chegou à mesma conclusão – é possível que tenha pensado que meia dúzia de cenas esteticamente eficazes compensariam uma narrativa frouxa e superficial, que não faz mais do que cambalear com muitos passos em falso até um final que só causa indiferença. E por mais que respeitemos a sua coragem para fugir aos convencionalismos dos filmes de género, é difícil deixar de pensar que, nas suas duas horas e meia de duração, “Saint Laurent” não nos leva a lado nenhum e não nos ensina o que quer que seja sobre esta figura incontornável do mundo da moda, a não ser que, no período retratado, gostava de acompanhar o seu álcool com uma boa dose de comprimidos.

Ficha técnica:

Título original: "Saint Laurent"
Realização: Bertrand Bonello
Argumento: Bertrand Bonello e Thomas Bidegain
Elenco: Gaspard Ulliel, Jérémie Renier, Louis Garrel, Léa Seydoux, Amira Casar, Aymeline Valade, entre outros.

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