05 novembro 2014

Resenha Crítica: "The Road Home" (Wo de fu qin mu qin)

 Zhang Yimou já nos habituou a obras delicadas, marcadas por relações sentimentais exploradas com um tom muito próprio, uma magnífica utilização da paleta cromática, mas também pelo seu talento para tirar o que de melhor os actores e actrizes têm para dar. Em "The Road Home", uma obra cinematográfica baseada no livro "Remembrance" de Bao Shi, Zhang Yimou volta a interessar-se pelas gentes do campo, tal como fizera em "Red Sorghum" e "Ju Dou", ao mesmo tempo que exibe a sua estranha capacidade de mexer com os nossos sentimentos. É praticamente impossível ficar indiferente ao amor que Zhao Di (Zhao Yulian no presente, Zhang Ziyi nas cenas do passado) sente pelo falecido esposo Luo Changyu (interpretado por Zheng Hao nas cenas do passado). Não dá. É impossível. E, no final, Zhang Yimou ainda nos prega a partida de nos deixar com um nó na garganta, como se quase tivéssemos sido nós a viver esta história, a partilhar estes sentimentos ao longo de um enredo que vagueia entre o presente e o passado, do qual nos apropriamos. Em "Red Sorghum", cabia ao neto apresentar a história dos seus avós através da narração, embora nunca víssemos a sua figura. Em "The Road Home", Zhang Yimou, um dos nomes de maior relevo da chamada quinta geração de cineastas chineses, volta a utilizar esta técnica ao colocar um filho a relatar-nos em alguns momentos a história de como os seus pais se conheceram, se apaixonaram e nos apaixonam. Ao contrário de "Red Sorghum", em "The Road Home" nós vemos o filho do casal, Luo Yusheng (Sun Honglei), com este a surgir logo no início do filme, a ser chamado devido à morte do seu pai. A mãe encontra-se devastada. Visita a escola local, recordando-se do marido a dar aulas, dos quarenta anos em que nunca se cansou da sua voz. Certamente poderão ter tido os seus problemas, mas este presente filmado a preto e branco exibe paradigmaticamente a perda da cor e de um enorme pedaço da alma de Zhao Di. Nos momentos iniciais, quando se encontra à porta da escola, num cenário marcado pela frieza da neve e a degradação do local, comenta para o filho "Nunca mais voltaremos a vê-lo". A tristeza no olhar da personagem e o tom com que esta emite o desabafo facilmente nos causam um nó na garganta. Lidar com a morte não é fácil, sobretudo devido a esta situação: deixamos de ver para sempre aqueles que nos são próximos. Zhao Yulian tem uma interpretação daquelas que raramente encontramos, que nos desperta facilmente alguma comoção, enquanto procura a todo o custo que o caixão do seu marido seja transportado num cortejo a pé, ao invés de num tractor como é pretendido pelo presidente da aldeia. Para o filho, inicialmente esta situação parece indiferente. Quando ouve a mãe falar, logo passa a querer cumprir o desejo desta. Estes não estão apenas a atravessar uma estrada para o enterro, estão a atravessar o local que separa e une Sanhetun da cidade, o local onde outrora Zhao Di esperava ansiosamente pelo regresso de Luo Changyu. Este não regressará mais, tal como as memórias desta mulher não se parecem apagar, enquanto os flashbacks, em parte relatados pelo filho, deixam-nos perante um passado onde se gerou uma cândida paixoneta que resultou numa relação para toda a vida, que apenas a morte conseguiu separar.

 As cenas do passado são filmadas a cores, bem vividas, prontas a expor os cenários verdejantes, ou até a neve quando o tempo esfria, mas também as vestes dos personagens. Zhao Di tem vestido um casaco vermelho quando Luo Changyu chega pela primeira vez a Sanhetun para dar aulas. Ela fica interessada no mesmo, embora só entre em contacto com Luo Changyu praticamente um mês depois deste chegar ao território. A escola ainda estava em preparações, pelo que as mulheres locais levavam todos os dias refeições para os trabalhadores, um hábito deste território. Zhao Di procurava esmerar-se nos cozinhados e levar sempre a mesma taça, embora os seus intentos de ver Luo Changyu a apreciar os seus pratos raramente fossem conseguidos. O professor tem também por hábito tomar uma refeição diariamente na casa de cada um dos cidadãos. É assim que entra em contacto com Zhao Di de forma mais demorada, após várias tentativas frustradas desta jovem de dezoito anos de idade em abordar o professor. Veja-se quando passou a ir buscar água ao poço da frente, mais distante da sua casa, mas permitindo-lhe passar pela escola e ver o professor. Frágil, bela, delicada e dedicada, esta vive com a sua mãe, uma mulher de idade que pouco ouve. Zhao Di é uma exímia cozinheira e sabe cozer no tear da sua casa, surgindo como uma figura terna que consegue despertar a atenção do professor. Os dois pouco falam nos momentos em que os vemos no ecrã. Zhang Yimou dá-nos trocas de gestos e olhares, exibindo a procura de Zhao Di em despertar a atenção deste homem, até separá-los quando este é obrigado pelo Governo a regressar à cidade para ser interrogado (algo que leva a especular que o enredo se desenvolva durante a campanha contra elementos considerados de direita). Changyu promete regressar no dia 27 do mesmo mês, antes das férias escolares, que começavam no dia 28, algo que não consegue cumprir. A sua amada espera por ele todos os dias, começando a desesperar, até decidir ir à cidade a pé, durante a neve, algo que a leva a adoecer gravemente. Perante esta situação Changyu quebra as regras e regressa ao local, conseguindo reunir-se brevemente com a amada, algo que lhe vale uma proibição de dois anos de ir para o local. Não é spoiler dizer que este regressa após este período e após esta nova chegada nunca mais irá partir, vivendo com a amada até à sua morte. Zhang Yimou desenvolve a relação entre estes dois de forma delicada, por vezes quase como se estivéssemos perante uma história de encantar. Mas estes dois viveram mesmo um romance digno de constar nos contos de encantar, quer pela forma como se conheceram, quer pelo cortejo interrompido de forma abrupta, quer pelo regresso inesperado e a nova proibição de um homem que sabemos adorar a esposa e ensinar os alunos, quer pela lenda que se gerou na aldeia em volta deste romance. Zhang Ziyi atribui um comportamento frágil a esta personagem, uma jovem de um escalão social menor que o professor, embora até desafie as regras ao não aceitar casamentos impostos, pretendendo apenas casar-se com aquele que ama. Zheng Hao consegue que o seu personagem nos convença de alguma atrapalhação perante Zhao Di, conquistando e deixando-se conquistar por esta, criando um elemento que facilmente gera a nossa simpatia. Os flashbacks são essenciais para que nos envolvamos ainda mais nas cenas do presente e percebamos toda a dor sentida por esta mulher que facilmente é partilhada por nós, mesmo que tentemos ao máximo ver o filme com algum distanciamento.

 O passado do casal é apresentado muitas das vezes com cores bem vivas, com o casaco cor de rosa que esta utiliza a sobressair muitas das vezes, bem como os cenários marcados pelo campo, ora marcados por tonalidades verdejantes, ora acastanhadas, ora cobertos de neve. No presente, não temos a relação entre este casal, mas sim entre uma mãe e o seu filho. Este teve de ir para a cidade, acabando por não cumprir o sonho do pai em ser professor na escola local, tendo de regressar brevemente para onde vive. É o ciclo da vida, os pais compreenderam isso, com este a ter de se afastar para poder ganhar a sua independência financeira, algo que provavelmente não conseguiria neste local, ou pelo menos não cumpriria boa parte dos seus sonhos. Pretende que a mãe vá consigo, mas esta não pretende deixar este território rural onde viveu toda a vida. Diga-se que Sanhetun é descrita como uma cidade cada vez com menos pessoas com idade activa para trabalhar, com a personagem interpretada por Zhao Yulian a representar um dos elementos envelhecidos. Nota-se que ama o filho, mas o seu rosto carrega uma tristeza difícil de esconder. O próprio Luo Yusheng tem no momento em que recorda o início da relação entre o pai e a mãe um meio para voltar a perceber bem as atitudes da mãe, com o actor que o interpreta a mostrar uma enorme competência quer na narração, quer a expor os dilemas do seu personagem. Estamos perante uma sociedade da China ainda muito ligada aos valores do passado e da tradição, com Zhao Di a querer que a alma do marido tenha descanso e ao mesmo tempo homenageá-lo com este cortejo a pé. A própria manta que cobre o caixão tem de ser feita no tear antigo que se encontra na sua casa, onde teceu a faixa vermelha para colocar na escola, na época vista como um símbolo para dar sorte. Zhang Yimou deixa-nos assim entre o presente e o passado, entre a história de uma mulher e o seu amado, bem como diante da relação entre a mãe e o seu filho, numa obra visualmente belíssima, com um enredo capaz de nos prender e emocionar, onde o cineasta revela mais uma vez a sua mestria. Volta a interessar-se pelo passado do seu país e provavelmente terá exposto subtilmente elementos ocorridos durante a Governação de Mao Tsé-Tung que prejudicaram temporariamente a relação dos seus protagonistas, embora o foco esteja todo nesta mulher que amou um homem para toda a vida e parece ter sido amada da mesma forma. Temos ainda a temática do regresso a casa, tal como acontecera em "To Live", bem como no mais recente "Coming Home", apenas para citar duas obras realizadas por Zhang Yimou, com o regresso de Luo Changyu a ser bastante desejado, tal como este anseia por regressar a um local que nem é a sua terra de nascimento mas torna-se o seu lar de coração. A banda sonora incrementa todos estes episódios, conseguindo por vezes atribuir alguma melancolia e nostalgia ao enredo, com a música a voltar a ser uma componente muito relevante nas obras de Zhang Yimou, algo visível no magnífico "House of the Flying Daggers", para além de "Ju Dou", entre outros exemplos. Filme belo e comovente, "The Road Home" é um exemplo paradigmático da capacidade de Zhang Yimou em nos deleitar com as imagens em movimento, em nos conquistar para o interior das histórias que nos apresenta e emocionar-nos como poucos realizadores conseguem fazer.

Título original: "Wo de fu qin mu qin".
Título em inglês: "The Road Home".
Título em Portugal: "O Caminho Para Casa". 
Realizador: Zhang Yimou. 
Argumento: Bao Shi.
Elenco: Zhang Ziyi, Sun Honglei, Zheng Hao, Zhao Yulian.

2 comentários:

Anónimo disse...

Um filme que me tocou imenso. Excelente texto, fiquei com vontade de rever!

Aníbal Santiago disse...

Obrigado. É um filme bastante tocante e belíssimo (o Zhang Yimou conta com umas quantas obras muito acima da média na sua carreira). Cumprimentos.