24 novembro 2014

Resenha crítica: "Phoenix"

     “Phoenix”, o filme mais recente do cineasta Christian Petzold, alicerça-se numa premissa particularmente interessante. Desenrola-se na Alemanha, pouco depois do culminar da Segunda Guerra Mundial, como se comprova pela presença de soldados norte-americanos a controlarem o território e pelos montes de entulho em que se transformaram as ruas na sequência de sucessivos e violentos bombardeamentos. A sua protagonista é uma judia recentemente libertada de um campo de concentração, com o espírito devastado e uma face desfigurada, encoberta por ligaduras ensanguentadas. Movimenta-se lentamente com passadas cambaleantes, os braços encostados ao peito permanentemente curvado, e um olhar vazio que, a espaços, nos exprime um constante pavor entranhado nos ossos, cansados e sem energia. O seu único apoio é uma amiga de outros tempos (Nina Kunzendorf), que a encaminha para uma clínica alemã para submetê-la a uma reconstrução facial. Perguntam-lhe, antes da cirurgia, que tipo de cara deseja - de uma estrela de cinema, talvez, para marcar uma nova etapa da sua vida - mas Nelly, a protagonista, deseja as feições que tinha dantes; o médico acede, hesitante, e assegura-lhe que fará os possíveis.
     O resultado não terá sido perfeito e compreenderemos isso poucos dias depois quando a protagonista retirar por fim as ligaduras e, num acesso de desespero, afirmar-se irreconhecível. Perdera a sua família, morta nos campos, a sua casa, em escombros, e a sua aparência. O seu marido até parece continuar vivo, em paradeiro incerto, mas fora-lhe assegurado que fora ele que, anos antes, denunciara o seu refúgio às autoridades nazis. Em contrapartida fora-lhe reservada uma casa na Palestina e uma herança avultada de familiares, benefícios materiais, pueris e inúteis. O desejo de Nelly passa unicamente por agarrar-se ao passado, razão pela qual vai ignorar os apelos da amiga e tentar encontrar o marido; segundo ouvira dizer, o mais provável era estar num dos bares da cidade.
Encontra-o logo no primeiro estabelecimento, um clube noturno voltado para um palco de madeira e com uma luz manhosa, povoado por soldados norte-americanos e por pessoal com aspeto pouco digno de confiança. Johnny, o marido, não se encontra no palco a tocar piano, como fazia outrora, em cenários mais respeitáveis até, mas sim a servir ao balcão e a limpar o soalho. Nelly avista-o entre o espesso fumo dos cigarros e as cabeças dos clientes alcoolizados, reúne coragem e, com alguma hesitação, retira o véu que lhe cobre a face e chama por ele. O esposo responde ao chamamento, olha de volta com alguma atenção, mas não a reconhece. A protagonista dispara a correr até casa, desesperada, mas, apesar de tudo, decide regressar no dia seguinte.
     Chega ao estabelecimento durante a tarde e volta a encontrá-lo, desta vez em privado. Sem dizer qualquer palavra, Johnny vai arrastá-la misteriosamente para casa, uma divisão humilde e cavernosa. Propõe-lhe imediatamente um belo negócio: confessa-lhe que a sua mulher, pobre Nelly, morreu nos campos, tendo herdado uma herança avultada - «viva não tinha um tostão, mas morta é rica». Nunca lhe ocorre a possibilidade de estar, na realidade, a falar com a esposa, por causa da fragilidade e da pequenez desta figura. Reconhece-lhe apesar de tudo algumas semelhanças físicas, e propõe-lhe que se faça passar pela mesma, com o propósito de requisitar a herança e de a partilhar, posteriormente, com ele. Imitará a sua caligrafia e estudará a família e os seus amigos; mais importante que tudo, terá que se parecer fisicamente com ela.
     À medida que o tempo passa, os maneirismos que Nelly adquirira nos campos vão-se atenuando. Torna-se menos hesitante, de voz ligeiramente mais forte e com um andar parecido ao que possuíra antes da guerra. Geram-se então momentos de tensão na narrativa quando Johnny, por vezes, parece reconhecê-la, perdendo as palavras e escancarando o olhar, afastando imediatamente essa reflexão, à força, da sua mente. Tomamos consciência, aos poucos, da sua imprevisibilidade. Oscila entre momentos de simpatia e de brusquidão, entre o seu próprio proveito e o amor pela esposa, e não temos a certeza sobre o quão satisfeito ficaria por saber da sua sobrevivência.
     As pretensões de Nelly também nos são pouco claras. É certo que encontrou algum conforto nesta espécie de regresso ao passado, e que parece sentir algum prazer em confundir o marido ao ir-se assemelhando, crescentemente, à mulher de tempos mais felizes. Entretanto vai descobrindo se foi de facto ele que a denunciou, mas não sabemos com que finalidade. Conformidade? Absolvição? Vingança? Seja como for o momento da revelação é inevitável, estará para breve, e é com ansiedade que aguardamos pelas suas consequências.
     A imprevisibilidade destas duas personagens, e a antecipação ansiosa desse episódio, contribuirão para uma permanente atmosfera de suspense ao longo de “Phoenix”, que se vai adensando com o avançar da narrativa. Por um lado temos a perfeita noção de que Nelly está a brincar com o fogo, e a fragilidade exposta com mestria por Nina Hoss reforça as nossas preocupações. Por outro lado, os ocasionais comportamentos agressivos de Johnny e a suspeita de que foi ele que denunciou a esposa às autoridades nazis criam uma constante aura de desconfiança em torno da sua figura. A eficácia com que Christian Petzold cria esta tensão, e a facilidade com que a vai evidenciando, explicam os paralelos que têm sido traçados entre “Phoenix” e os trabalhos de Alfred Hitchcock. A sua cinematografia eficiente e a boa caracterização deste período histórico, a nível material e de mentalidades, constituem apreciados complementos.
     Há ideias inteligentes incorporadas com naturalidade na narrativa, relacionadas sobre a forma como os sobreviventes do holocausto foram recebidos pelos familiares e amigos, após a sua libertação. Longe de serem tratados com desdém, constituíam uma lembrança demasiado próxima dos horrores a que a humanidade fora capaz de recorrer. Evitavam-se fazer perguntas sobre as atrocidades dos campos pois era penoso ouvir as respostas e saber reagir de acordo com elas. Assim, não é de estranhar que, ao tentar enganar os seus conhecidos, Johnny encorajará a esposa a assemelhar-se, o máximo possível, como a mulher de antigamente. Nelly questiona-lhe sobre o sentido de aparecer, subitamente, vinda dos campos, com um penteado e maquilhagem perfeitos, e com um elegante vestido vermelho e uns sapatos de Paris. Não deveria parecer, ao invés, frágil e escanzelada? O marido responde que não; quando a forem buscar à estação de comboios, as pessoas quererão vê-la, unicamente, como a Nelly de outrora. E se lhe perguntarem sobre a sua vida nos campos, como deverá reagir? Preocupações infundadas; ninguém abordará assuntos de tão elevado grau de perturbação.
     Observam-se similitudes entre “Phoenix” e outras obras de Christian Petzold, como a pouco subtil preferência por atores com quem o cineasta trabalhara no passado. Ronald Zehrfeld e Kirsten Block voltaram a contracenar depois de o terem feito em “Barbara”, há dois anos, enquanto Nina Hoss somou a quinta colaboração com o realizador. Também como procedera em “Barbara”, Petzold voltou a abordar um período conturbado da história do século XX da Alemanha através de uma protagonista feminina, apoiando-se num eficaz trabalho de pesquisa e numa subsequente abordagem assertiva a questões particularmente sensíveis. O resultado final, em ambos os casos, foi uma história tensa e bem estruturada, com protagonistas fortes e complexos a uma premissa interessante e criteriosamente construída, que acaba não apenas por nos entreter mas também por nos transportar para um distinto universo histórico, que suscita facilmente a nossa curiosidade.

Ficha técnica:

Nome original: Phoenix
Realização: Christian Petzold
Argumento: Christian Petzold e Harun Farocki
Elenco: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Nina Kunzendorf, Michael Maertens, Kirsten Block, entre outros.

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