06 novembro 2014

Resenha Crítica: "Not One Less" (Yi ge dou bu neng shao)

 A procura de Zhang Yimou em explorar temáticas relacionadas com os territórios rurais não é novidade. A capacidade deste em explorar os relacionamentos de forma profundamente humana também são transversais a várias das suas obras, algo visível em "Not One Less", o segundo filme do cineasta a vencer o Leão de Ouro do prestigiado Festival de Veneza, com Zhang Yimou a apresentar-nos a Wei Minzhi, uma jovem professora substituta de treze anos de idade que vai leccionar para Shuiquan durante um mês, tendo em vista a suprir a ausência do Professor Gao, um indivíduo que tem de visitar a sua mãe, uma mulher que se encontra em estado terminal. Wei Minzhi é uma jovem algo reservada e claramente impreparada para as funções, que procura copiar para o quadro o material do caderno do professor, lidando com um conjunto heterogéneo de alunos e uma falta de condições latente na sala de aula. O giz é racionado, a sala e o material que consta na mesma encontram-se algo degradados, a pobreza que assola as famílias dos alunos é sentida, com Zhang Yimou a procurar explorar as dificuldades a nível de educação nos territórios rurais da China e a dicotomia que existe entre o campo e a cidade neste capítulo. O próprio território de Shuiquan é marcado por enorme precariedade. Não falta trabalho infantil, crianças a terem de abandonar a escola, estradas não alcatroadas, algo que contrasta com a segunda metade da narrativa, onde ficamos perante um território citadino marcado por melhores condições e estruturas, embora nem por isso impeça a pobreza. A própria escolha de uma jovem adolescente para leccionar temporariamente uma turma da escola primária demonstra bem a precariedade do ensino neste local, com Wei Minzhi a apresentar algumas dificuldades iniciais em se impor perante os seus alunos e Tian, o governador local. Veja-se quando este a obriga a deixar partir Ming Xianhong, uma jovem com habilidade para a corrida, tendo em vista a esta ficar num instituto que lhe permita desenvolver essas capacidades, algo que a faz ter de quebrar a promessa efectuada ao professor Gao de não perder mais alunos. As aulas são marcadas por um ambiente algo caótico, com Zhang Huike a assumir o papel de rebelde, pronto a causar a confusão e desrespeitar as ordens da docente. Quando Huike fica com a obrigação de ter de abandonar a escola para ir trabalhar para a cidade de forma a ajudar os seus pais, Wei decide fazer de tudo para trazer o jovem de volta para o território rural. Veja-se quando reúne os alunos para arrumarem tijolos para ganharem dinheiro para o bilhete de autocarro, bem como a sua procura em entrar no meio de transporte sem pagar. Wei vai a pé para a cidade, onde se depara com toda uma nova realidade distinta do que estava habituada. O espírito de entreajuda que contou com os seus alunos é contrastado com um algum desprezo, descobrindo que o jovem se perdeu, algo que a conduz a uma busca demorada e por vezes desesperante, onde tememos por um desfecho menos positivo. Por sua vez, o jovem encontra-se perdido, sem saber bem o que fazer, a mendigar para poder comer, com Zhang Yimou a explorar com alguma crueza as agruras por que passam Wei e Huike, ao mesmo tempo que nos deixa mais uma vez perante as dicotomias entre a cidade e o campo.

  Estas dicotomias já tinham sido expostas por Zhang Yimou em obras como "Shanghai Triad", embora de forma mais superficial, bem como "The Story of Qiu Ju", onde a protagonista também teve de se deslocar do campo para a cidade, com o cineasta a optar por um tom próximo das obras associadas ao neorrealismo, remetendo até para trabalhos como "Red Sorghum" onde abordava temáticas relacionadas com as gentes dos espaços rurais. Diga-se que o regresso a casa é outro dos temas transversais a obras de Zhang Yimou. Veja-se os casos de "To Live", "The Road Home" e "Coming Home", tal como "Not One Less". Ficamos perante a persistência de uma jovem em recuperar um aluno e cumprir a promessa que fez ao seu superior, mas também perante alguém que tenta a todo o custo reencontrar este jovem que se encontra perdido. Zhang Yimou tira interpretações bastante naturalistas dos seus actores, com estes quase a não parecem que estão a representar, partilhando até em vários casos o nome dos personagens a quem dão vida. Na maioria são elementos não profissionais ou em início de carreira, com Wei Minzhi e Zhang Huike a terem o maior destaque. Existe um momento particularmente marcante de Wei Minzhi, nomeadamente quando a personagem que interpreta se dirige para a câmara de TV de uma estação televisiva e começam a cair-lhe lágrimas pelo rosto. Tem dificuldade em expressar-se na TV, com o seu desespero e aflição a surgirem latentes, naquela que é uma jornada quase labiríntica desta pelo espaço citadino. Em certa medida, a sua procura em encontrar Zhang Huike faz-nos recordar a tentativa da protagonista de "The Story of Qiu Ju" em procurar que fosse efectuada justiça ao marido, envolvendo-se perante a caricata burocracia do seu país para conseguir um pedido de desculpas (a senhora da recepção da estação televisiva onde a protagonista procura fazer o anúncio, em certa medida, até nos remete para a obra citada, com esta mulher a não deixar a jovem entrar devido a não ter nenhum documento comprovativo da sua identidade). Se Gong Li confirmou nessa obra a sua versatilidade e competência, já a estreante Wei Minzhi consegue surpreender e transmitir todas as dificuldades desta jovem, quer quando inicialmente tem de assumir o cargo de professora primária com apenas treze anos, quer quando tem de encontrar o seu pupilo, ao mesmo tempo que vamos ficando perante as dificuldades destas gentes pouco abastadas. Zhang Yimou preocupa-se com os cidadãos comuns, distintos dos protagonistas de obras como "The House of Flying Daggers" e "The Course of the Golden Flower" que viria posteriormente a realizar, concedendo especial atenção a estes elementos que padecem de várias dificuldades. O jovem interpretado por Zhang Huike é um desses exemplos, com o filme a explorar o lado negro da pobreza, o trabalho infantil, bem como a diferença de condições a nível de ensino no campo e na cidade, sempre de forma bem real, fugindo ao melodrama exacerbado. A cinematografia é exímia a explorar os espaços distintos. Seja a aldeia povoada por poucas gentes, onde todos se parecem conhecer, seja a exibir a cidade enorme, marcada pela presença de estruturas e tecnologias modernas onde encontrar alguém pode ser uma tarefa hercúlea. As próprias maneiras de vestir entre estas gentes do campo e da cidade são distintas, com o filme a não poupar no exacerbamento das dicotomias, bem como na entrada do capitalismo no território, seja na presença da Coca-Cola, seja nos valores de consumo no espaço citadino.

 Na cidade encontramos ainda uma montra de uma loja composta por vários televisores. O papel da televisão e da imprensa como denunciadora ou formadora de opiniões é também abordado ao longo do filme, sobretudo no último terço, algo optimista e contrastante com o tom de "Not One Lives", onde assistimos à capacidade que a presença de Wei Minzhi num programa televisivo apresenta para galvanizar um apoio a esta e ao território de Shuiquan. As dificuldades do mesmo são mais do que muitas e percebemos isso mesmo quando o professor principal diz que não recebe qualquer salário há seis meses, as crianças a trabalharem é visto como algo de normal, para além da presença da própria professora sem qualificações para dar aulas, com Zhang Yimou a traçar-nos um retrato sobre a sociedade das margens do seu tempo. Ficamos perante uma China ainda entre a abertura e o isolamento, onde um espaço rural é exibido de forma realista, embora sem existir o maniqueísmo na representação da dicotomia entre cidade/campo. "Not One Less" marca ainda um distanciamento em relação às obras de Zhang Yimou que se desenrolavam no passado, com este a procurar jogar com a censura do seu país, efectuando alguns comentários nem sempre positivos, apesar de no final nos expor que não estamos perante um "caso virgem" na China. A classe do realizador é visível ainda na forma como aborda estes temas e atribui uma enorme humanidade aos personagens secundários. Mesmo que não conheçamos os nomes ou todos os alunos e alunas da protagonista, nem por isso parece que deixamos de estar mesmo perante uma sala de aula e jovens reais, bem pelo contrário. Ao mesmo tempo é efectuada uma subtil crítica ao ensino nestes locais rurais, ou se preferirmos uma denúncia em relação a algo que pode e deve mudar, com Zhang Yimou a apresentar-nos a mais uma personagem feminina forte, apesar de todas as fraquezas da mesma. Por vezes parece andar atarantada pela cidade, sem saber bem o que fazer, mas a sua persistência é latente e duvidamos que seja apenas para receber os 10 yuans de bónus se não deixar sair nenhum aluno. Esta parece mesmo preocupada em relação ao destino do petiz, procurando trazê-lo de regresso a casa ao longo deste drama emocionalmente envolvente. Zhang Yimou troca o colírio visual de obras como "Red Sorghum", "Ju Dou", "Raise the Red Lantern" por um realismo notório, onde ficamos perante a realidade de um território rural da China, com o cineasta a contribuir para que conheçamos um pouco da mesma, vagueando pelas margens da ficção e do documentário, ao mesmo tempo que nos deixa com a certeza que o Leão de Ouro foi bem entregue em 1999.

Título original: "Yi ge dou bu neng shao".
Título em Inglês: "Not One Less". 
Título em Portugal: "Nenhum a Menos".
Realizador: Zhang Yimou.
Argumento: Shi Xiangsheng.
Elenco:  Wei Minzhi, Zhang Huike, Tian Zhenda, Gao Enman.

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