13 novembro 2014

Resenha Crítica: "Minority Report" (Relatório Minoritário)

 Compravam a ideia de ter um sistema que prevenisse todos os crimes antes destes acontecerem? Mas, se os crimes foram prevenidos, como é que os seres humanos podem ser julgados por algo que não cometeram? E se o sistema tiver falhas? A ideia de uma sociedade segura e à prova de crimes é uma utopia que a equipa de Pré-Crimes de "Minority Report" parece encarar com zelo, embora gradualmente percebamos que nem tudo funciona com a perfeição que inicialmente nos é apresentado e o protagonista tenha de lutar para provar que nem tudo está pré-determinado. São levantadas questões relacionadas com a ética e a moral, numa obra onde Steven Spielberg consegue utilizar a ficção-científica para abordar questões pertinentes que merecem ser discutidas no presente, mesclando com sucesso temas com alguma profundidade, acção frenética e efeitos especiais de bom nível. O enredo desenrola-se em 2054, num futuro marcado por apertada segurança, onde três "precogs", um grupo de humanos com poderes psíquicos (formado por Arthur, Agatha e Dashiell) consegue prever os crimes que se vão desenrolar no futuro, algo que permite a Washington D.C. ter supostamente erradicado o crime, com o espaço a não contar com problemas há seis anos. O director desta espécie de agência de segurança é Lamar Burgess (Max von Sydow), um indivíduo já com alguma idade, aparentemente de personalidade inatacável, que guarda alguns segredos dos seus homens, incluindo de John Anderton (Tom Cruise), o capitão de uma equipa de pré-crimes, onde se encontram Gordon Fletcher (Neal McDonough), Jad (Steve Harris), entre outros. Logo nos momentos iniciais de "Minority Report" encontramos a equipa a actuar para prevenir que Howard Marks assassinasse a mulher e o amante desta. Tudo é efectuado de forma rápida, prática e em grande estilo com estes a possuírem tecnologia de ponta capaz de facilitar imenso estas missões. O que não facilita a vida a estes personagens é Danny Witwer (Colin Farrell), um elemento do Departamento de Justiça que se encontra a avaliar o programa pré-crime antes que este seja aprovado para utilização em todo o território dos EUA. Danny e John não simpatizam nada um com o outro, esboçando-se um certo duelo de egos até Agatha (Samantha Morton), uma das precogs, previr que o personagem interpretado por Tom Cruise vai assassinar Leo Crow (Mike Binder). Este acredita estar a ser falsamente incriminado, desconfiando de Danny, embora tenha de entrar em fuga, ao mesmo tempo que descobre vários segredos por revelar do programa para o qual trabalha, entrando em contacto com Iris Hineman (Lois Smith), a criadora do programa "pré-crime", que revela o facto de Agatha poder ver diferentes visões de futuro, algo que consta dos "relatórios minoritários" que são eliminados para o projecto não ser colocado em causa. É então que o protagonista tem de lutar contra o tempo para escapar dos antigos colegas, tendo pelo caminho de descobrir Leo Crow (e saber quem é este homem), provar que o seu destino não está definido, acabando por se deparar com um conjunto de descobertas surpreendentes, com Tom Cruise a emprestar muito do seu carisma a este personagem marcado pelos traumas do passado. Este perdera o filho, um rapaz ainda bastante jovem, que foi raptado quando se encontravam na piscina, tendo-se divorciado posteriormente da esposa, para além de depender de drogas para manter a sua existência suportável. A conspiração contra a sua pessoa conduz a que se envolva num conjunto de situações de difícil resolução, com Steven Spielberg a colocar o seu protagonista em alguns momentos de enorme tensão e perigo, por vezes frenéticos, quase sempre em fuga, numa obra que se destaca não só pela sua acção mas também pelas ideias e questões que levanta.

 A questão da segurança nacional e até onde esta pode ir para defender os interesses dos cidadãos surge como uma temática de relevo ao longo desta obra cinematográfica que teve como base o livro "The Minority Report" de Philip K. Dick. Será ético prender alguém antes de cometer um crime? Para Lamar Burgess essa parece não ser uma questão a ser colocada, embora seja notório ao longo do filme que o programa contém falhas, entre as quais, o facto do ser humano ser imprevisível e poder mudar o destino. Steven Spielberg conjuga com alguma destreza as cenas de maior acção com os momentos de reflexão, numa obra neo-noir onde não falta o célebre jogo entre luzes e sombras, na qual o espaço citadino até pode supostamente conter os crimes, mas nem por isso deixa de contar com os seus espaços e figuras mais obscuras. Veja-se Eddie Solomon (Peter Stormare), um médico ilegal que permite ao protagonista efectuar uma operação para trocar os olhos e assim não ser conhecido pelos aparelhos que o reconhecem pela retina, em momentos a fazerem recordar "Dark Passage", onde o personagem interpretado por Humphrey Bogart efectuou uma plástica para fins semelhantes junto de uma figura obscura. Claro que em "Dark Passage" não tínhamos aranhas robóticas que procuram verificar as retinas dos seres humanos, embora também tivéssemos um protagonista atormentado pelo passado e a fugir às autoridades. No caso de "The Minority Report" esta fuga envolve ainda que John regresse ao seu antigo local de trabalho para raptar Agatha para conseguir informações sobre o "relatório minoritário" e o seu futuro, apesar de acabar por descobrir mais segredos do que esperava. A persegui-lo encontra-se o personagem interpretado por Colin Farrell, um elemento longe do estereótipo do irlandês alcoólico que este muitas das vezes interpreta, que pensa estar a cometer justiça, apresentando alguma desconfiança em relação a todo este programa e ao protagonista. Vale ainda a pena realçar Samantha Morthon como a frágil precog Agatha (em homenagem a Agatha Christie, tal como Arthur a Arthur Conan Doyle e Dashiell a Dashiell Hamett), uma jovem com um papel de relevo no desenrolar da narrativa. O universo narrativo em que estes personagens habitam é marcado por tonalidades muitas das vezes azuladas e frias, com a cor a ser regularmente esbatida, transmitindo uma frieza adensada pelas características do edifício onde trabalhava John. Marcado por largos vidros, cores frias, tecnologia de ponta e vários ecrãs onde os agentes podem analisar os crimes antes de acontecerem, este edifício permite aos personagens verem imagens de crimes futuros, mas serão estas reais? Ficamos perante o poder da imagem e a sua ilusão, mas também perante a dicotomia entre o livre arbítrio e determinismo, pairando durante o filme a dúvida se John será capaz de escapar ao que lhe fora destinado, ou se estava realmente previsto que este cometesse um crime. No entanto, não deixa de ser curioso que o filme tenha sido lançado em 2002, em plena "Guerra contra o Terror" dos EUA, onde temos como um dos pontos altos a possibilidade das armas de destruição maciça no Iraque que ainda hoje estão para ser encontradas, com esta entrada no território a ser vista como algo de preventivo, com a realidade a evidenciar as limitações das medidas do filme. Com uma atmosfera negra, um argumento inteligente, boas interpretações e cenas de acção coreografadas de forma eficaz, "Minority Report" surge como um filme de ficção científica relevante, capaz de gerar debate sobre as questões de segurança, ética e moral, ao mesmo tempo que nos deixa perante um protagonista que parece ter saído das obras noir dos anos 40 e permite a Tom Cruise mostrar o seu carisma e talento.

Título original: "Minority Report".
Título em Portugal: "Relatório Minoritário".
Realizador: Steven Spielberg.
Argumento: Scott Frank e Jon Cohen.
Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Samantha Morton, Max von Sydow.

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