08 novembro 2014

Resenha Crítica: "Maps to the Stars"

 Entre a sátira a Hollywood, a exploração das relações familiares bizarras, a presença de elementos sobrenaturais e alucinações, "Maps to the Stars" apresenta-nos a um universo narrativo onde a imoralidade, a loucura e o humor negro estão quase sempre presentes, no qual quanto mais descobrimos mais percebemos o quão alienados são os personagens que nos são apresentados. David Cronenberg deixa-nos perante um grupo alargado de personagens cujos destinos eventualmente se vão cruzar, entre os quais Agatha (Mia Wasikowska), uma jovem aparentemente delicada que parte da Florida em direcção a Los Angeles, tendo contratado Jerome (Robert Pattinson), o condutor de uma limusina e aspirante a actor e argumentista, para a levar até ao seu contacto, após ter formado amizade com Carrie Fisher no Twitter. Esta é uma jovem com a cara marcada pelas cicatrizes devido a uma queimadura provocada por um incêndio, uma personalidade aparentemente reservada e algo insegura, com Mia Wasikowska a mostrar mais uma vez que é um dos nomes mais interessantes para acompanhar se souber escolher os seus projectos futuros com critério. A sua personagem gradualmente vai revelando a sua faceta mais perturbada (veja-se a enorme quantidade de comprimidos que toma), numa obra onde todos parecem viver de aparências, incluindo Havana Segrand (Julianne Moore), uma actriz em decadência, incapaz de lidar com o avançar da idade que procura a todo o custo conseguir o papel de protagonista do remake de "Stolen Waters", um filme outrora protagonizado pela sua mãe, uma mulher já falecida que esta acusa falsamente de ter cometido abusos sexuais no passado. Agatha vai trabalhar como assistente de Havana, com ambas a travarem conhecimento num espaço citadino onde todos parecem se conhecer. Veja-se que Agatha é irmã mais velha de Benjie Weiss (Evan Bird), uma jovem estrela de cinema (um estilo Macaulay Culkin mesclado com Justin Bieber), o filho de Stafford Weiss (John Cusack), um psicólogo que se encontra a tratar dos distúrbios de Havana. Stafford é conhecido sobretudo pelo seu programa de TV, tendo alguns métodos de massagens algo peculiares, que procura, em conjunto com Cristina, a sua esposa, salvar a carreira de Benjie, um adolescente errático, que conta com problemas com drogas e passou por processo de desintoxicação (conta até com o mesmo padrinho de cura de Robert Downey Jr. e Demi Lovato em mais um comentário do filme marcado por alguma acidez). Benjie é um jovem com uma personalidade pouco agradável, com tiques de vedeta e diálogos nem sempre agradáveis (nem a Madre Teresa de Calcutá escapa), que procura negociar para protagonizar a sequela de "Bad Babysitter", o seu grande sucesso. Ainda o encontramos a procurar conhecer uma fã em estado terminal para passar uma boa imagem para o exterior, pensando que esta tem SIDA, apesar de descobrir que afinal esta padecia de Linfoma Não-Hodgkin, algo que demonstra bem a sua falta de conhecimento em relação a esta jovem, para além de efectuar uma falsa promessa, com esta visita a atormentá-lo ao longo do filme. Diga-se que boa parte dos personagens de "Maps to the Stars" são atormentados, seja por erros do passado, episódios pouco dignificantes no presente, inseguranças, enquanto David Cronenberg não tem problemas em tecer uma teia narrativa completamente imoral onde não faltam mortes violentas, incesto, suicídios, traições e muitos segredos por revelar.

 David Cronenberg por vezes perde o controlo da narrativa, disparando em vários sentidos, embora nem sempre acerte, apesar de nem por isso deixar de ser delicioso ver a sátira que este procura fazer de alguns elementos de Hollywood, onde não falta o célebre jogo de aparências, as rivalidades, a construção das imagens públicas das vedetas, a personalidade irascível das estrelas, a necessidade de atenção dos actores e actrizes, entre outros elementos. A personagem interpretada por Julianne Moore é o exemplo paradigmático da actriz em decadência e ambiciosa, com David Cronenberg a ter o mérito de extrair uma interpretação praticamente imaculada deste elemento que incrementa e muito o enredo. Os diálogos podem nem sempre fazer sentido e por vezes até cair no exagero, mas Moore consegue atribuir uma enorme classe a esta diva em decadência que coloca sob a sua alçada uma jovem que conta com vários segredos por revelar. Mia Wasikowska é a intérprete que fica com um dos melhores papéis do filme. Acompanhada quase sempre das suas luvas pretas, aparentemente tímida mas afável, a personagem interpretada por Wasikowska esconde uma teia de segredos e perturbações que envolvem esquizofrenia, um crime cometido, interesse no irmão no passado e visualização de "espíritos", com os seus pais a também estarem longe de serem um exemplo moral. Stafford Weiss é bom a vender os discursos da banha da cobra mas incapaz de controlar os seus ímpetos, não tendo problemas em agredir a filha para proteger o jovem Benjie, ou melhor, a reputação deste, procurando que o jovem actor esteja longe dos tabloides e dos escândalos. Evan Bird é uma agradável surpresa a interpretar este actor que facilmente desperta a nossa antipatia, um elemento que representa as jovens estrelas que caem em desgraça com a mesma facilidade que ascendem ao estrelato, em parte devido a um mau acompanhamento dos pais e uma mentalidade nem sempre recomendável. Veja-se o sem fim de actores que definharam após começarem uma carreira bem jovens, tais como o citado Macaulay Culkin, com o filme a procurar explorar o lado negro de Hollywood e dos estúdios. Esta abordagem permite a David Cronenberg colocar muita sátira pelo meio, onde não faltam disputas entre agentes, sentimentos reprimidos, traumas recalcados e muitas mentiras, onde o luxo e a ostentação das casas destes elementos contrastam com a sua pobreza de espírito. David Cronenberg está longe de nos apresentar a personagens que gerem simpatia ou pareçam "reais", prefere antes jogar com a imoralidade e os excessos que rodeiam os seus comportamentos, onde todos procuram ascender e conseguir sucesso, seja qual for o custo para esse desiderato. Havana quer a todo um custo um papel que já não é adequado para a sua idade e procura encontrar o maior número de contactos possíveis para facilitarem esse desejo, Jerome até está disposto a converter-se à cientologia para conseguir chegar com mais facilidade a papéis de relevo, Stafford procura tenta esconder os problemas do filho, entre vários outros exemplos.

A imoralidade não está apenas na procura a todo o custo de chegar ao poder ou manter o mesmo. Também se encontra nas próprias relações sexuais destes personagens. Não faltam traições, desejo entre irmãos, sexo em grupo onde podem ressurgir "fantasmas" do passado, numa obra que conjuga ainda uma faceta que varia entre a alucinação e o sobrenatural. Esta situação traz um lado ainda mais bizarro à narrativa mas também evidencia algum descontrolo de David Cronenberg que facilmente deambula entre a crítica a Hollywood e o culto às celebridades e a procura destas em criarem uma imagem exterior distinta da realidade, passando pelas complexas relações familiares, até aos mortos que aparecem junto dos vivos ou apenas na imaginação de alguns personagens (tais como Havana e Benjie), com o cineasta a não conseguir atribuir um tom homogéneo ao enredo. No entanto toda esta bizarria e loucura que rodeia este universo narrativo que tem como pano de fundo Los Angeles e as figuras mais abastadas acabam por tornar "Maps to the Stars" um objecto intrigante, marcado por uma acidez e delírio que tanto nos repelem como conseguem captar a atenção. Ajuda e muito David Cronenberg contar com um elenco capaz de contribuir para credibilizar estes personagens, com Julianne Moore e Mia Wasikowska a serem os elementos em maior destaque. Mesmo o motorista interpretado por Robert Pattinson, um elemento ambicioso que se envolve com Agatha por razões pouco românticas, tem algum relevo neste enredo marcado ainda por algum cuidado na escolha dos cenários. Veja-se as casas dos pais de Agatha e Benjie, bem como a casa de Havana, ambas marcadas por enormes espaços e decoração dispendiosa mas alguma frieza e até impessoalidade, revelador do vazio que os rodeia externamente e interiormente. No final a violência, Cronenberg revela o seu lado mais visceral e capaz de provocar o choque, deixando-nos perante alguns momentos bizarros de uma obra que, pese todos os seus exageros, quase que desperta um desejo voyeurista de seguir estas figuras que estão longe de serem exemplos morais. Embora nem sempre consiga satisfazer as suas pretensões, David Cronenberg tem em "Maps to the Stars" uma obra marcada por personagens demasiado peculiares e um tom provocador que facilmente captam a nossa atenção, independentemente de alguma falta de coesão que permeia o enredo.

Título original: "Maps to the Stars".
Realizador: David Cronenberg.
Argumento: Bruce Wagner.
Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Robert Pattinson.

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