12 novembro 2014

Resenha Crítica: "Les Amants Réguliers" (Os Amantes Regulares)

 Drogas, amor louco, cocktails molotov, um ambiente político fervilhante, alguma melancolia, desilusão e desprendimento. Estes elementos anteriormente salientados fazem parte do universo narrativo de "Les Amants Réguliers", aquela que é considerada como uma das obras-primas de Philippe Garrel, um cineasta com uma história de vida quase tão fascinante como a sua peculiar carreira. No caso de "Les Amants Réguliers" são notórios os elementos autobiográficos ao longo do filme, com o cineasta a deixar-nos perante um grupo de jovens adultos na casa dos vinte anos de idade, sem grande rumo para as suas vidas, que certamente terão saído das memórias que Garrel mantém deste período relevante da sua vida. O próprio protagonista, François Dervieux (Louis Garrel), parece surgir quase como um duplo do cineasta, com um dos grandes méritos de "Les Amants Réguliers" a ser a sinceridade e a capacidade de nos transportar para este período quente da História da França, ao mesmo tempo que aproveita para desmistificar um pouco o período posterior ao Maio de 1968 e exibir que as suas consequências não foram tão apolíneas para os elementos mais rebeldes. A primeira hora de "Les Amants Réguliers" tem o seu ponto mais forte num confronto entre um grupo de jovens rebeldes, filmado quase como se fosse um documentário, onde se encontra inserido François e alguns amigos, contra as CRS (Compagnies républicaines de sécurité), as tropas de choque francesas, durante os protestos ocorridos em França em Maio de 1968. Os momentos das barricadas surgem praticamente sem diálogos, marcados por muita violência, com os jovens a levantarem carros, acenderem tochas, queimarem a bandeira francesa, procurarem atirar cocktails molotov para as autoridades, enquanto que a polícia avança com toda a violência. François consegue escapar, apesar de ser ferido numa mão e envolver-se numa enorme correria para escapar dos polícias. A cena em que François pede abrigo a um indivíduo e este recusa abrir a porta devido ao facto do protagonista ser um dos elementos que anda a destruir carros evidencia bem uma clara divisão de valores entre os diferentes membros da sociedade francesa deste período, com estes jovens a procurarem lutar, ainda que de forma "musculada", pela sua independência. Já anteriormente tínhamos visto François a recusar prestar serviço militar e desobedecer às ordens da polícia, defendendo que este é que tem de escolher o seu destino. Pretende ser poeta embora ainda não tenha publicado nada, formando amizade com indivíduos como Antoine (Julien Lucas), um elemento abastado que herdou uma fortuna do pai após este falecer, com a casa do personagem interpretado por Julien Lucas a ser o palco de muitos encontros do grupo de amigos. Veja-se a presença de Jean-Christophe (Eric Rulliat), um revolucionário idealista com problemas com o pai, que não tem pejo em urinar sobre uma estátua ligada à religião, ou roubar livros numa livraria; Luc (Nicolas Bridet), um pintor, primo de Antoine; Gauthier (Nicolas Maury), entre outros elementos. François até parece um pacifista. Deram-lhe um cocktail molotov para a mão mas decidiu não fazer nada com o mesmo para não eliminar vidas humanas, gosta de poesia e inicia uma relação com Lilie (Clotilde Hesme), uma jovem aspirante a escultora que trabalha numa oficina a efectuar esculturas de outras pessoas. Ambos parecem algo naïves em relação à vida e aos acontecimentos que os rodeiam, vivendo para o momento, embora Lilie pareça mais responsável. Enquanto François pensa nos direitos dos trabalhadores e participa em revoltas apesar de não trabalhar, Lilie tem alguns objectivos para a vida, embora a sua relação com o protagonista pareça típica das obras cinematográficas de Philippe Garrel, ou seja, condenada à desgraça. Ela ainda diz que pensa na relação a longo prazo e tem alguns momentos de intimidade com o protagonista, uma situação notória quando lhe mostra as fotos do falecido pai e as suas esculturas. Apesar desta afabilidade, Lilie trai o protagonista com o primo de Antoine, ainda que tenha o consentimento de François, numa relação onde descortinamos um misto de sentimentos quentes e desprendimento que mais tarde promete resultar num rompimento doloroso.

Philippe Garrel tem em "Les Amants Réguliers" uma obra pessoal. Diga-se que as três horas de duração do filme, apesar de contribuírem para quase nos transportarem para o interior do modo de vida destes personagens, também parecem existir porque o cineasta não pretendeu cortar elementos que lhe parecem dizer e significar algo embora por vezes estes assumam uma estrutura repetitiva no enredo. No entanto, é exactamente essa repetição que nos deixa quase com um estado de entorpecimento como se tivéssemos saído de uma conversa rodeada de haxixe com estes personagens, com Garrel a efectuar um retrato bem vivo desta juventude sem rumo e aparentemente sem grandes objectivos. A própria narrativa por vezes parece também não ter rumo, ou melhor, apresenta um rumo muito próprio dado por Philippe Garrel, com este a conseguir reconstruir o tom de uma época e a deixar-nos perante um grupo de jovens que parecem partilhar tudo menos o espírito sonhador que se poderia esperar do pós-Maio de 1968, apresentando uma desilusão latente. Se em boa parte da primeira hora de "Les Amants Réguliers" ficamos perante a violência das barricadas, já as restantes duas horas do enredo deixam-nos perante o quotidiano e interacção destes personagens. Ficamos perante os momentos mundanos e banais destes jovens, bem como diante das suas festas e diálogos, onde estes exprimem as suas ideias e inquietações e até a falta das mesmas. No meio de tudo isto temos o romance entre François e Lilie. Esta é uma jovem com a personalidade ainda em formação, embora já algo vincada, que gosta de andar de calças de ganga, tem um rosto que atrai as figuras masculinas e os objectivos que parecem faltar à maioria dos homens que povoam o enredo. François é um elemento inconsequente nas suas acções, por vezes a parecer alguns dos jovens que partilham o apartamento de "La Chinoise" embora não partilhe o peculiar engajamento político (se bem que a frase "podemos fazer a revolução para a classe operária apesar da classe operária?" bem que poderia ter sido tirada da protagonista do citado filme de Godard). No entanto é um personagem que bem poderia ter saído de um filme da Nouvelle Vague, com Philippe Garrel a explorar as inquietações e comportamentos da época numa sociedade em mudança e cheia de contradições, sempre com alguma melancolia à mistura (adensada pela banda sonora). Os próprios personagens parecem defender valores de igualdade mas vivem em parte graças à fortuna de Antoine, um pequeno burguês que nada tem de fazer na vida. O apartamento deste é marcado pela presença de arte, sobretudo a que compra a Luc, não só por gostar da mesma mas também para financiar o primo, para além de muito fumo, proveniente não só do consumo de haxixe, mas também do seu vício por ópio. Antoine é um personagem algo desleixado, amigo dos seus amigos, que consume drogas a um ritmo surpreendente, apresentando um conjunto de comportamentos que nem sempre compreendemos.

 O consumo de haxixe não é pouco, com Philippe Garrel a deixar os personagens perante vários momentos de letargia e descanso, quase que nos colocando com o mesmo estado de espírito. Diga-se que é neste captar dos pormenores da juventude da época que "Les Amants Réguliers" tem um dos maiores trunfos, ou não tivesse Phillipe Garrel praticamente a mesma idade dos seus personagens aquando dos acontecimentos que se desenrolam no filme. A própria paixão de Garrel pela arte é exposta através dos seus personagens, seja através da defesa da poesia, da apreciação dos quadros pintados por Luc, o gosto de Gauthier pela moda, a música, ao mesmo tempo que o cineasta deixa ao seu filho o papel de protagonista. Louis Garrel tem em "Les Amants Réguliers" mais uma interpretação quase bressoniana, transformando-se no personagem que o pai lhe concede, atribuindo uma enorme calma e quase letargia a este aspirante a poeta que facilmente perde os poucos objectivos para a vida. Quando começa a relacionar-se com Lilie as palavras escritas faltam-lhe, mas o que parece faltar a François é mesmo um rumo ao longo desta obra filmada a preto e branco, pronta a capturar o espírito de uma época e da juventude da mesma. Não faltam ainda as referências cinéfilas, seja a Bertolucci (e ao "Prima della Rivoluzione", embora a referência pareça mais uma resposta irónica a "The Dreamers") ou a Godard, para além de uma banda sonora que nos transporta para estes anos fervilhantes da História Francesa (temos ainda Vegas de Nico, a ex-mulher de Philippe Garrel), bem como personagens a dirigirem-se para a câmara de filmar. Temos ainda as deambulações destes personagens pelas ruas de Paris, seja para passearem, seja para comprarem droga, seja para roubarem livros, entre outros episódios que se desenrolam ao longo do enredo, com este espaço citadino a parecer exercer alguma influência na desilusão e letargia que rodeiam alguns elementos. Philippe Garrel apresenta-nos a sua versão do Maio de 68 e da juventude da época, sempre num tom pessoal e rodeado de enorme honestidade que prende a nossa atenção exactamente por nos conseguir envolver no interior de todos estes personagens algo inconsequentes e fascinantes pelas contradições que carregam nas suas pessoas. No final, algo parece certo, Philippe Garrel apresenta um misto de desencanto e encanto em relação a este período, conseguindo exprimir com sucesso os seus sentimentos e emoções em relação ao contexto histórico e aos personagens que cria. Pode não ser um retrato historicamente correcto, mas deixa-nos perante uma visão muito própria de quem viveu estes acontecimentos e o período que lhe sucedeu, algo que incute algo de único a "Les Amants Réguliers".

Título original: "Les Amants Réguliers".
Título em Portugal: "Os Amantes Regulares".
Realizador: Philippe Garrel. 
Argumento: Philippe Garrel, Arlette Langmann, Marc Cholodenko.
Elenco:  Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet.

Sem comentários: