16 novembro 2014

Resenha Crítica: "The Kindergarten Teacher" (Haganenet)

 Quais os limites para defendermos e estimularmos o dom de uma criança para uma arte? Para Nira (Sarit Larry), a protagonista de "The Kindergarten Teacher", parecem existir poucos limites, com esta educadora de infância a deixar-se consumir pelo fascínio despertado pela capacidade do jovem Yoav (Avi Shnaidman) para a poesia. Yoav tem cinco anos de idade, tendo sido apresentado ao mundo da poesia pelo seu tio, um elemento que nos dias de hoje se encontra algo distante da criança. A mãe deste jovem rapaz fugiu com o amante, embora o pai tenha dito que esta morreu. O pai de Yoav é um empresário bem sucedido que pouco tempo tem para o filho, delegando muitas das funções em Miri (Ester Rada), a ama responsável por tratar do rapaz nas horas posteriores à creche. Os poemas de Yoav despertam uma enorme curiosidade em Nira, uma mulher solitária, com dois filhos - um prestes a entrar na preparação para os oficiais do exército e uma adolescente - sendo casada com um indivíduo que a parece amar embora esta não pareça estar para aí virada. O momento em que esta interrompe um momento de sexo, em que apenas o marido se despe de roupas e sentimentos, para atender um telefonema de Yoav, tendo em vista a registar o poema deste, é paradigmático deste desinteresse de Nira pelo esposo. É na poesia de Yoav que encontra algum conforto, começando-o a tratar como um prodígio e aluno especial, embora este cometa actos tão infantis como gritar insultos aos adeptos do Maccabi Haifa ao lado do seu amigo Asi, o filho de um jogador de futebol. Nira tem aulas de poesia, utilizando inicialmente os poemas de Yoav como se fossem seus, iniciando um caso com o seu professor (Gilad ben David), um homem casado que procura incentivar o gosto dela por esta arte. Ao longo do filme encontramos ainda Nira durante vários momentos na creche junto dos seus alunos, embora seja Yoav quem lhe desperte mais atenção, acabando por contactar o pai deste para que o mesmo incentive o filho a investir numa actividade que parece cada vez mais desvalorizada. Este chega mesmo a acusar Miri de utilizar os poemas de Yoav nos castings que faz para tentar ser actriz de forma a que esta seja despedida, após ter formado amizade com esta mulher, algo que consegue, embora o pai do protagonista não queira que o filho siga pela poesia. Perante a recusa do pai de Yoav em ajudar o filho a evoluir, Nira decide tomar medidas nem sempre compreensíveis e desesperadas que demonstram paradigmaticamente e de forma surpreendente o nível elevado da sua obsessão em relação aos poemas desta criança. 

Sarit Larry interpreta Nira com enorme subtileza, sendo capaz de transmitir tanto a procura desta mulher em defender a nobre arte que é a poesia, como de evidenciar as suas obsessões e problemas matrimoniais. As obsessões desta até parecem surgir da defesa da poesia e da falta de afeição. O marido de Nira ainda a parece amar mas esta não está para aí virada, parecendo também certo que não é lá muito próxima dos filhos. O caso com o professor de poesia resulta num momento brilhante de "The Kindergarten Teacher", onde parece existir uma clara homenagem de Lapid a Jean-Luc Godard, em particular a "Bande à Parte" e à dança do trio de protagonistas, com Nira a dançar com o amante e a esposa desta numa discoteca, até acabar a dançar isolada, qual Anna Karina num momento que representa mais solidão do que amizade e união. Nira procura na poesia um hobbie, encontrando numa criança um raro talento para a mesma, gerando uma relação meio maternal, meio de tutora com Yoav, acabando aos poucos por cometer actos que roçam a loucura. Existe um notório trabalho na direcção dos actores mais jovens, não só pelo convincente Avi Shnaidman, mas também por todos os figurantes que povoam a creche e fazem com que este espaço pareça praticamente real, cheio de vida e crianças cheias de energia, contrastando com a pasmaceira dos momentos em que a protagonista se encontra sozinha com o marido. Yoav até parece um elemento algo problemático e com poucos amigos, tendo por vezes alguns flashes onde exibe algum do seu talento para a poesia. O jovem nem sempre parece compreender a obsessão de Nira na sua pessoa (até nós por vezes temos dificuldade em compreendê-la), com esta a procurar integrar um rapaz de cinco anos no mundo dos adultos, tentando que os seus poemas sejam editados e que este frequente leituras públicas, mesmo que estes desejos vão contra a vontade do pai. Nadav Lapid tem nesta segunda longa-metragem como realizador uma obra relativamente intrigante e peculiar, deixando-nos perante uma teia narrativa capaz de deixar espaço para a obsessão de Nira começar a ser visível e perigosa aos nossos olhos. Existe ainda um comentário do cineasta sobre a arte, com Nira, ainda que por meios pouco ortodoxos, a procurar defender a mesma numa época onde parece existir cada vez menos tempo para apreciar, criar e incentivar a mesma. Valerá a pena incentivar um dom de uma criança mesmo que este lhe possa ser pouco útil para a vida ou procurar que esta siga para algo mais útil e pragmático? O pai do jovem Yoav parece seguir o lado mais pragmático e até nem lhe podemos tirar toda a razão. No caso do filme, ficamos perante a procura de uma mulher em dar a conhecer o talento de uma criança e desenvolver o mesmo, embora inicialmente até se aproveite da capacidade deste jovem para a poesia para uso próprio, estabelecendo-se uma estranha relação entre estes dois elementos que fica ainda mais bizarra no último terço. Existe uma procura de Nadav Lapid em opor o materialismo que existe na sociedade moderna de consumo com a poesia, com Nira a procurar através de um meio algo destrambelhado e bizarro salvar a sensibilidade artística de um jovem antes que esta se perca devido à falta de incentivo. É uma busca quixotesca a de Nira, que pode ser elogiada no que diz respeito à procura de defender a arte, mas nada justifica os seus actos posteriores que resultam num intenso último terço, com o filme a levantar algumas questões de ordem moral. 

A cinematografia de Shai Goldman permite que a câmara se faça sentir e ao mesmo tempo que as imagens em movimento apresentem algum realismo, seguindo muitas das vezes o olhar dos personagens e os seus movimentos, numa obra a espaços intrigante, desenvolvida a um ritmo brando, onde por vezes ficamos perante algumas dúvidas em relação aos próximos passos dos personagens. Os close-ups são utilizados de forma exímia, contribuindo por vezes para uma maior intensidade das interpretações, sobretudo de Sarit Larry, o nome que mais se destaca. A sua personagem não tem problemas em formar amizade com Miri para logo trair esta mulher, utilizar os poemas do jovem, mas também impulsioná-lo a utilizar o seu talento. Um desses poemas é dedicado a Agar e ao amor, podendo estar ligado à figura bíblica, não faltando ainda um poema ligado às touradas, entre outros. Os poemas trazem algo de indecifrável, ficando à interpretação de cada elemento, tal como não podem ser avaliados do ponto de vista monetário. Esta situação volta a remeter-nos mais uma vez para a dicotomia entre o mundo materialista e a poesia, sendo que neste último também vamos ver Miri e inicialmente Nira a procurarem aproveitar-se dos textos deste jovem. Será que já não temos espaço na nossa sociedade para a poesia? O realizador salientou no press kit que este é um filme auto-biográfico, não só pelo próprio ter escrito poemas entre os quatro e os sete anos de idade, mas também por ele próprio se rever na defesa de uma arte que considera marginalizada. Os poemas de Yoav terão sido inspirados em escritos do próprio realizador e argumentista quando era mais novo, com este a deixar-nos perante uma obra que procura explorar a obsessão de uma mulher pelos poemas de um jovem, ao mesmo tempo que nos coloca perante um olhar algo desencantado sobre uma sociedade que parece ter-se esquecido da poesia e da arte, preferindo antes o pragmatismo ao invés do desenvolvimento dos dons naturais de cada um.

Título original: "Haganenet".
Título em inglês: "The Kindergarten Teacher".
Realizador: Nadav Lapid.
Argumento: Nadav Lapid.
Elenco:
Sarit Larry, Avi Shnaidman, Lior Raz.

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