03 novembro 2014

Resenha Crítica: "Ju Dou" (1990)

 Filmes que abordam triângulos amorosos existem em grande quantidade. Mas filmes que abordam estes triângulos com a poesia, delicadeza e aprumo de "Ju Dou" existem poucos. Realizado por Zhang Yimou (na sua terceira longa-metragem) e Yang Fengliang, embora pareça certo que o primeiro teve um papel maioritário devido às várias temáticas e aspectos transversais a outras obras do mesmo, "Ju Dou" deixa-nos perante um romance proibido que parece destinado a terminar em tragédia, em plena China nos anos 20 do Século XX, num território rural onde os valores conservadores parecem estar bem presentes. No início do filme encontramos Yang Tianqing (Li Baotian), o sobrinho adoptivo de Yang Jinshan (Li Wei), a regressar após uma viagem onde esteve a vender os tecidos tingidos deste. Jinshan é um indivíduo avarento, cruel na forma como trata aqueles que lhe são mais próximos, procurando ao máximo minimizar despesas para ter o maior lucro na sua fábrica onde são tingidos tecidos como seda. Este maltrata as suas esposas devido às mesmas não lhe poderem dar filhos, tendo eliminado as últimas duas, esperando que Ju Dou (Gong Li) lhe dê o aguardado herdeiro, embora não saiba que o grande culpado é ele devido a ser estéril. Trata-a como se fosse uma mercadoria, um animal reprodutor, sem sentimentos ou qualquer romantismo, enquanto ouvimos os sons de dor desta devido aos maus tratos que lhe são impostos. Zhang Yimou joga com o fora de campo, deixando muito subentendido. Nos momentos iniciais raramente vemos Ju Dou a falar, o seu corpo parece tenso e contém as marcas dos maus tratos, embora a sua beleza facilmente desperte a atenção de Tianqing, que a observa através de um buraco no estábulo. Esta descobre o buraco localizado no celeiro. Inicialmente tapa-o, mas depois deixa-o estar à vista, chegando até a exibir parte do seu corpo quando pensava estar a ser observada. Se Jinshan é o paradigma da avareza, já Tianqing, apesar de leal ao tio, mostra um comportamento bem mais delicado para com Ju Dou. Interpretada por Gong Li, uma das colaboradoras habituais de Zhang Yimou, esta mulher transfigura-se ao longo do filme, passando de vítima a alguém temporariamente no controlo. Em "Red Sorghum", a primeira colaboração entre Yimou e Gong Li, a personagem interpretada por esta utilizava inicialmente vestes vermelhas. Aqui, inicialmente as vestes são amarelas, cor que até pode representar algum optimismo, algo que acontece quando ganha alguma alegria quando se envolve com o sobrinho do seu esposo, com Gong Li a contribuir para criar mais uma personagem feminina de relevo das obras de Zhang Yimou. Tal como em "Red Sorghum” o realizador não exibiu totalmente a cena de sexo entre a personagem interpretada por Gong Li e o parceiro, deixando antes espaço para a imaginação, colocando as máquinas a avançarem velozmente, tingindo os tecidos de vermelho, símbolo de paixão e desejo, enquanto Ju Dou e Tianqing se entregam mutuamente (vale a pena realçar o bom trabalho de montagem a ligar estes momentos). Esta acaba por engravidar, com Jinshan a não descobrir inicialmente que o filho não é seu, uma mentira que não vai durar muito tempo. Quando este fica incapacitado da cintura para baixo, nem por isso procura deixar de se vingar do casal e até da criança, enquanto parece certo que as vidas de Tianqing e Ju Dou nunca mais serão as mesmas. Tianqing até pretende ser leal para com o tio, mas nem por isso deixa de defender a amada e o filho, embora este último o despreze por completo, uma situação que vai ter graves repercussões com o avançar da narrativa. Zhang Yimou volta a recorrer das elipses para avançar com a narrativa, explorando a vida destes personagens com o passar do tempo, voltando mais uma vez a abordar uma história sobre o passado da China, tal como tinha efectuado na sua primeira obra cinematográfica.

 O amor proibido entre Ju Dou e Tianqing traz consigo um conjunto de consequências das quais estes parecem estar conscientes. Podem ser eliminados pelos populares, cair em desgraça junto do jovem Tianbai, o filho de ambos, algo que não é amenizado pela morte de Jinshan. Li Wei consegue que raramente simpatizemos com o seu personagem, mesmo nos momentos em que se encontra imobilizado e traído, com este a atribuir uma malvadez latente a Jinshan, contrastando com a simpatia que Tianqing nos desperta. Este tem no familiar uma fonte de emprego, embora seja praticamente desprezado pelo mesmo, tendo em Ju Dou a sua "maçã proibida". Li Baotian (que viria a trabalhar com Zhang Yimou em "Shanghai Triad" e "Keep Cool") forma com Gong Li uma dupla com alguma química, exibindo as dúvidas morais do seu personagem, embora o mesmo tenha consciência dos maus tratos de que Ju Dou era alvo no interior da habitação do tio. A habitação e a pequena fábrica são dois dos espaços primordiais do filme, com o som das máquinas por vezes a tornar-se quase sufocante e capaz de representar tanto o aproximar da morte como o desejo sexual. Veja-se como Zhang Yimou tanto utiliza esse som e os panos vermelhos para uma cena que envolve sedução e sexo, como os utiliza para um momento onde ocorre uma trágica morte, dando significados diferentes ao tom encarnado. Num caso estamos perante a paixão, noutro perante o sangue e a morte, a vida esvair-se perante os tecidos que outrora proporcionaram um caso que gerou um nascimento. Não deixa de ser algo irónica e até cruel esta dicotomia entre o nascimento e a morte efectuada por via deste espaço, numa obra onde mais uma vez Zhang Yimou volta a utilizar a cor de forma exímia. Já tinha sido assim em "Red Sorghum", será assim em "Raise the Red Lantern", "The House of Flying Daggers" e também é assim em "Ju Dou", onde mais uma vez as cenas nocturnas são acompanhadas por um azul carregado, a paleta cromática utilizada com todo o simbolismo e propriedade, numa obra filmada em technicolor. Este também foi o primeiro filme chinês a ser nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (ou em língua estrangeira), algo que não é sinónimo de qualidade, mas nem por isso deixa de exibir o destaque que esta obra cinematográfica conseguiu trazer para o cinema do seu país (apesar da sua exibição ter sido proibida na China durante dois anos), para além de realçar os méritos deste drama marcado pelo desejo e pela tragédia, onde um casal vive um amor proibido cujas consequências prometem ser desastrosas. O argumento de Liu Heng é sublime na forma como arquitecta estes relacionamentos e cria um quarteto de personagens de relevo, embora no centro de quase tudo estejam os efeitos do triângulo amoroso formado por Ju Dou, Jinshan e Tianqing. Um triângulo destinado à tragédia, numa obra sublime onde os sentimentos vão sendo expostos e gradualmente os personagens vão transformando-se em marionetas do destino. Algo parece certo, o preço a pagar pelo amor que nutrem um pelo outro sairá bastante caro a Ju Dou e Tianqing, enquanto Zhang Yimou nos inebria com as belas imagens em movimento de "Ju Dou" e transporta-nos para o interior desta trágica relação. 

Título original: "Ju Dou".
Realizador: Zhang Yimou e Yang Fengliang.
Argumento: Liu Heng.
Elenco: Gong Li, Li Baotian, Li Wei.

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