10 novembro 2014

Resenha Crítica: "Jauja"

 Acompanhado por uma cinematografia primorosa do finlandês Timo Salminen, capaz de dar uma dimensão do escopo grandioso, verdejante e montanhoso do território por onde deambula o protagonista, "Jauja" sacrifica os diálogos para privilegiar os silêncios, exacerba a contemplação em detrimento do desenvolvimento da acção, numa obra visualmente belíssima cujo enredo raramente consegue estar à altura das suas imagens. É certo que Lisandro Alonso nos deixa com tempo de sobra para contemplar os cenários, observar os gestos e os olhares dos seus actores e actrizes, sobretudo do personagem interpretado por Viggo Mortensen, mas por vezes parece apaixonar-se em demasia pelas imagens captadas pela câmara de filmar, esquecendo-se em parte do desenvolvimento dos personagens e dos seus relacionamentos. Diga-se que nunca parece ser intenção de Lisandro Alonso oferecer-nos uma obra recheada de grandes diálogos ou explicações, procurando antes explorar as subtilezas e deixar-nos perante uma jornada solitária e quixotesca de um personagem algo desenquadrado do território que habita, um homem de poucas falas, que permite a Viggo Mortensen expressar-se com enorme subtileza através do seu rosto e movimentos. Este interpreta o capitão Gunnar Dinesen, um indivíduo que chega da Dinamarca com a sua filha de quinze anos para trabalhar como engenheiro no exército argentino num entreposto militar na Patagónia, em 1882, durante a chamada “conquista do deserto”. A filha de Gunnar é Ingeborg (Viilbjørk Malling Agger), uma jovem que desperta a atenção de várias figuras masculinas, incluindo de Pittaluga, um elemento praticamente do mesmo estatuto e idade do protagonista, bem como de Corto, um jovem soldado. No início do filme encontramos Ingeborg a pedir um cão ao seu pai, salientando que pretende um animal de estimação que a siga (ou seja, que lhe faça companhia), revelando algumas carências a nível afectivo. Os dois não parecem totalmente adaptados a este território marcado por vastas montanhas, terrenos verdejantes e imensas pedras. A cinematografia permite aproveitar ao máximo a paleta cromática, sobressaindo as tonalidades verdes, incluindo do musgo que rodeia as rochas, para além do tom azul do vestido da jovem Ingeborg, com esta a surgir como uma excepção numa narrativa marcada maioritariamente por personagens masculinos. O contexto histórico raramente é aproveitado, embora o colonialismo seja sentido, mas percebemos que Gunnar, um elemento que domina o dinamarquês e o espanhol, não se encontra totalmente adaptado ao território, trocando poucos diálogos com os elementos que o rodeiam. Veja-se uma conversa que tem com Pittaluga, Ángel e Corto sobre Zuluaga, um elemento que desapareceu misteriosamente, especulando-se que este terá desaparecido ou simplesmente desertado e passado para o lado dos "cabeças de coco", o nome pejorativo dado aos indígenas. No entanto, a maior preocupação do protagonista vai para o momento em que Ingeborg foge com Corto. Até então tínhamos apenas visto uma troca de olhares que revelava alguma cumplicidade entre ambos os personagens, embora praticamente não tivessem dialogado. Quando falam um com o outro percebemos que pouco se conhecem, tendo uma suposta cena de sexo (pelo menos fica implícito) que decorre no fora de campo, com Lisandro Alonso a preferir deixar-nos a contemplar as searas que rodeiam o cenário. Enquanto isso, Gunnar enceta uma demorada jornada solitária pelo deserto em busca da filha, acompanhado pelo seu cavalo, encontrando elementos como um engenheiro que se encontra a liderar a construção de uma espécie de um túnel, um indivíduo que rouba o seu animal, bem como uma estranha mulher que habita numa gruta onde a iluminação é bastante leve e a escuridão eminente.

 Gunnar encontra uma mulher de idade avançada, acompanhada pelo seu cão, um elemento que encontraremos mais tarde na narrativa e nos leva a questionar a verdadeira identidade desta idosa. A entrada na gruta é apenas um dos episódios desta experiência dura, por vezes quase transcendente, que o protagonista vivencia, numa jornada que atinge uma atmosfera próxima de um sonho com um último terço surpreendente onde as barreiras do tempo, do espaço e da realidade parecem ser colocadas em causa. Se inicialmente parecia que conhecíamos pouco sobre os personagens,no final parece certo que não ficámos a saber tudo sobre o filme, com Lisandro Alonso a tirar um golpe de asa que poderá gerar as emoções mais dicotómicas no espectador. São momentos que não vamos aqui revelar mas que nos deixam a questionar sobre tudo o que vimos. Estaremos perante um sonho? Perante uma história que vagueia pelo tempo? Perante outras vidas? O que é certo é que parece existir sempre um grande mistério a rodear o enredo e o protagonista. Gunnar é um homem pouco falador, que nem sempre conhecemos bem e certamente não ficamos a conhecer assim tanto no final do filme, parecendo um personagem lacónico saído dos westerns. É alguém de grande resiliência, cuja busca pela filha por vezes nem desperta tanto interesse quanto isso, não só devido à relação entre o pai e a jovem raramente ter sido explorada para que geremos alguma envolvência a nível emocional com os personagens, mas também porque o caminho que Lisandro Alonso escolhe seguir parece estar sempre mais centrado nas caminhadas e descobertas do personagem. Lisandro Alonso deixa-nos perante as longas caminhadas do protagonista, por vezes expostas de forma demasiado demorada, embora permitam que sintamos o cansaço do mesmo e até partilhemos os seus momentos de maior secura. Os planos mais abertos permitem explorar a grandiosidade dos territórios pelos quais Gunnar caminha, com estes a surgirem maioritariamente fixos e de longa duração, dando tempo para que observemos com enorme calma os acontecimentos. Viggo Mortensen convence-nos do cansaço que este personagem vai conhecendo com o desenrolar do enredo, do labirinto emocional em que se encontra e da sua busca incessante pela filha, acabando por se envolver pelo território desértico que ganha uma enorme beleza à noite, onde a presença das estrelas se faz sentir de forma latente. O som do vento também é audível, com "Jauja" a raramente contar com banda sonora, apostando sobretudo nos sons e iluminação naturais, mesclados com elementos artificiais, ao mesmo tempo que o seu título nos remete para a possibilidade do personagem se ter perdido pelas entranhas deste território mítico. Como é salientado no início do filme e na sinopse, "Os anciãos contavam que Jauja era uma terra mitológica plena de abundância e felicidade. Muitas expedições procuraram-na para tentar corroborar estes ditos. Com o tempo a lenda cresceu de maneira desproporcionada. Sem dúvida que as pessoas a exageravam, como sempre. A única certeza é de que todos os que tentaram encontrar esse paraíso terrestre se perderam no caminho".

A busca de Gunnar pela filha poderá ou não ter conduzido o mesmo a Jauja. Algo parece certo, este está longe de caminhar apenas pelo paraíso. Já a sua filha, ainda a vemos num momento com Corto, mas é uma personagem demasiado periférica, apesar de ser o motor que conduz a toda a jornada do protagonista. Este quase que se auto-exila da humanidade numa busca cujo sucesso parece incerto, com Lisandro Alonso a ter em Viggo Mortensen um actor capaz de encarnar com sobriedade este elemento. Diga-se que Mortensen é o primeiro actor com estatuto internacional com quem Lisandro Alonso trabalha, embora algumas temáticas de "Jauja" até sejam tranversais a outros trabalhos seus, algo implícito na questão colocada ao cineasta pelo Film Linc: "There's a consistent theme that is present through your films in which an individual is removed or is in somewhat of a self-imposed exile from society. Is that something you consciously think about or does it simply manifest naturally for you?", ao que este respondeu "I live in a very big city with 20 million people so I enjoy so much getting out. I like contemplating how people's lives are very different when they are outside of a city with its endless choices (...)". No caso de "Jauja" assistimos a um homem que se encontra duplamente deslocado. Primeiro da sua habitação na Dinamarca. Em segundo da humanidade quando procura pela filha. Se as imagens são de uma enorme beleza, com os cenários a mesclarem artificialidade com realismo, já o argumento parece incapaz de acompanhar os mesmos. Os personagens secundários pouco são explorados, a relação entre pai e filha fica muito pela rama, o contexto histórico raramente é aproveitado, com Lisandro Alonso a trabalhar melhor as imagens do que os diálogos. O último terço muda a nossa percepção sobre o filme, mas nem por isso deixa de parecer que falta algo a este trabalho de Lisandro Alonso que o eleve. Ficamos perante imensos momentos do protagonista a deambular e a beber água (perde-se a conta às vezes em que este tem de "abastecer"), para além de situações como Pittaluga a masturbar-se quando se encontra a banhos, quando se pedia um pouco mais de conteúdo a acompanhar a contemplação. No entanto, muito também é deixado subentendido: os elementos naturais do território são tratados como "cabeças de coco" sendo revelado um tom pejorativo; a troca de olhares entre os dois fugitivos revela cumplicidade; a presença do cão com uma irritação na pele vem incutir ainda mais dúvidas na narrativa; a presença de um soldadinho de chumbo que vai ter um papel de relevo na narrativa; a gruta como um local quase xamânico onde ficamos perante outra realidade; o trabalho forçado enquanto encontramos o engenheiro a falar com o protagonista; a cena onde o sexo fica implícito, ou seja, apesar de "não meter prego a fundo" na abordagem dos temas, Lisandro Alonso nem por isso deixa de os mencionar ou retratar. O argumento foi escrito por Lisandro Alonso e o poeta Fabián Casas, existindo algum lirismo a rodear o enredo, com o próprio formato em que o filme é filmado a remeter-nos para uma clausura em que se encontra o protagonista, embora raramente nos consigamos sentir totalmente presos ao enredo. Apesar de parecer exacerbar o estilo em detrimento do conteúdo, "Jauja" nem por isso deixa de ser uma experiência gratificante e capaz de mexer com os nossos sentidos, embora muitas das vezes passe ao lado dos nossos sentimentos.

Título original: "Jauja".
Realizador: Lisandro Alonso.
Argumento: Lisandro Alonso e Fabian Casas.
Elenco: Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Nørby.

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