25 novembro 2014

Resenha Crítica: "Henry & June" (1990)

 Baseado livremente no livro "Henry and June: From the Unexpurgated Diary of Anaïs Nin", uma obra que reúne material dos diários não publicados de Anaïs Nin, "Henry & June" transporta-nos para uma jornada marcada por enorme erotismo e espírito boémio, onde a literatura e o sexo fazem parte da vida da protagonista em plena Paris dos anos 30. A história começa por nos apresentar a Anaïs Nin (Maria de Medeiros) e ao seu esposo, Hugo (Richard E. Grant), um casal que se mudou recentemente para Paris, apresentando um conjunto de comportamentos distintos. Este é um banqueiro que parece pretender uma vida estável, formando amizade com o escritor Henry Miller (Fred Ward) e Richard Osborn (Kevin Spacey), um argumentista de peças de teatro e actor com enormes teorias da conspiração. Nin é uma escritora que se encontra a desenvolver um trabalho sobre D. H. Lawrence, um escritor que considera de grande relevância, apesar de não lhe ser dado o devido valor. Esta fica estranhamente fascinada com Henry Miller, um autor que apresenta um estilo desinibido a escrever e falar sobre sexo, conta com poucas maneiras à mesa, encontrando-se a elaborar uma obra literária que mais tarde viria a resultar em "Tropic of Cancer". Miller é casado com June (Uma Thurman), uma mulher bissexual que se encontra a viver nos Estados Unidos da América e financia o marido através de um caso com o seu "patrono", habitando na mesma casa que uma amiga que nunca chegamos a ver. Henry é um indivíduo algo calvo, incapaz de compreender as mulheres, que promete apresentar Anaïs a todo um mundo de descobertas sexuais. Inicialmente esta até procura demonstrar algum desprezo a nível exterior, salientando que Henry é um parasita, embora no seu interior considere-o como alguém semelhante a si, emprestando inclusive a sua máquina de escrever para este seguir em frente com os seus intentos literários. Esta é uma mulher de enorme sensibilidade e imaginação, que parece movida pelo desejo sexual e de descoberta, iniciando uma relação extra-matrimonial com Miller, com ambos a parecerem bastante compatíveis, sobretudo a nível sexual (veja-se quando Anaïs salienta que tinha de utilizar vaselina com Hugo, enquanto que o pénis de Henry adequa-se perfeitamente). A chegada de June vem trazer um novo elemento à narrativa, com esta a surgir como uma vamp, capaz de despertar desejo nas mulheres e nos homens, gerando em Anaïs uma enorme curiosidade. Aos poucos desenha-se um triângulo amoroso entre estes personagens, com Anaïs a beijar June antes de iniciar um caso com Henry. June é uma mulher ambiciosa, que tem uma sensual cena de dança com Anaïs que culmina num beijo, enquanto a câmara de filmar gira de forma incessante de forma a exprimir como os sentimentos da protagonista se encontram ao rubro e completamente destravados.

O regresso de June aos Estados Unidos da América para perseguir o desejo de ser actriz não tira esta mulher das memórias dos restantes personagens. Henry Miller escreve no livro uma personagem ficcional baseada em June, tal como Anaïs irá escrever uma obra literária sobre a sua versão da personagem interpretada por Uma Thurman, embora ambos tenham interpretações diferentes sobre a mesma. Diga-se que Anaïs escreve bastante no seu diário, narrando-nos parte do mesmo e deixando o seu marido ler os textos esporadicamente. Hugo volta a envolver-se com a esposa, enquanto esta continua numa descoberta sexual pela zona boémia de Paris. Veja-se quando Hugo e Anaïs visitam um clube nocturno e pagam a duas mulheres para estas terem sexo à sua frente, enquanto a protagonista procura a todo o custo descobrir novas formas de prazer numa obra rodeada de enorme erotismo e sensualidade. A própria cinematografia contribui para esta sensualidade que em certa medida nos fascina numa obra que por vezes parece estender-se em excesso, repetindo ideias em demasia no seu desenvolvimento até chegar finalmente ao seu clímax no último terço. Um desses casos em excesso é a abordagem do curto affair de Anaïs com Eduardo Sanchez (Jean-Philippe Ecoffey), o seu primo, quando esta relação é abordada pela rama e pouco peso tem comparada com os triângulos Henry-Anaïs-Hugo e Henry-Anaïs-June. A própria entrada, saída e regresso de Hugo na narrativa por vezes não parece ser feita de forma homogénea (o personagem interpretado por Richard E. Grant por vezes é mal tratado pelo argumento), numa obra onde Maria de Medeiros tem uma sólida interpretação como Anaïs Nin, embora Uma Thurman roube as atenções quando surge em cena. June é uma mulher que sabe da sua beleza e como utilizá-la para obter os seus intentos, tendo uma personalidade algo misteriosa que é exacerbada pela interpretação de Uma Thurman. Esta consome quase por completo o destaque dos seus colegas de elenco quando se encontra no ecrã como esta mulher que atrai Henry e Anaïs. Não tem problemas em criticar o trabalho do esposo e a visão que este apresenta dela, surgindo como o elemento que verdadeiramente parece despertar a atenção de Anaïs, enquanto esta última parece procurar descobrir-se a si própria. Philip Kaufman não tem problemas em explorar a sexualidade dos seus personagens, com esta a estar muito associada às personalidades das mesmas. Veja-se desde logo o caso de Anaïs, uma escritora que gradualmente se aventura pelos espaços nocturnos de Paris, ao mesmo tempo que a encontramos a soltar os desejos sexuais reprimidos e até a procurar novas experiências que a estimulem. Maria de Medeiros dá o corpo ao manifesto, convencendo-nos da curiosidade da sua personagem em "explorar novos mundos", ao mesmo tempo que dá a Anaïs uma certa classe que rodeia toda a obra, com as cenas de cariz sexual a nunca atingirem a vulgaridade. Nesse sentido, a realização de Philip Kaufman contribui para criar toda uma sensualidade em volta de uma obra que procura ainda capturar o tom da época, seja nos comportamentos, seja no guarda-roupa, seja na representação do mundo boémio, seja nos eventos que decorrem no exterior de Paris, seja nos carros, seja na decoração do interior das casas.

Existem alguns anacronismos e liberdades históricas à mistura, mas nem por isso deixamos de ser compelidos para o interior desta história de ficção sobre elementos que foram bem reais. O próprio envolvimento de Henry Miller com Anaïs Nin aconteceu mesmo, com "Henry & June" a procurar explorar a estranha relação de admiração que desenvolveram um pelo outro e o gosto que tinham pela literatura e o sexo. O processo de fruição criativa também é exposto, embora Philip Kaufman pareça sempre dar mais destaque aos relacionamentos sentimentais e sexuais dos seus personagens do que às suas vidas laborais (fica sempre a faltar algo para demonstrar o que tornou Henry Miller num escritor reconhecido), apesar das experiências que vivem contribuírem e muito para os seus escritos. Fred Ward é talvez dos elementos em maior destaque ao longo do filme, com o personagem que interpreta a procurar terminar o seu livro, enquanto se envolve numa intensa relação carnal com Anaïs. Veja-se quando "a possui" no interior do clube nocturno, mas também num espaço aberto citadino, procurando expor esta mulher a novas sensações, ao mesmo tempo que ele próprio aproveita estes intensos momentos. Este é o elemento sem eira nem beira, completamente falido e por vezes até algo embrutecido que contrasta com a aparente delicadeza de Anaïs, uma mulher aparentemente frágil que vive acompanhada por algum requinte. Ao longo do filme, Miller encontra-se no meio de duas mulheres com personalidades peculiares. Anaïs apoia-o. June não tem problema em arrasá-lo. Ambas fazem parte da vida de Henry e a marca que deixam na mesma é exposta de forma paradigmática ao longo do filme. Diga-se que Anaïs e June também vão deixar marca uma na outra. O filme tem um momento poderosíssimo quando as personagens interpretadas por Uma Thurman e Maria de Medeiros se encontram na cama, num momento de maior tensão sexual que logo se desvia para ressentimento, onde desejos e mentiras antigas são expostos. A cinematografia contribui e muito para adensar esta atmosfera marcada por algum erotismo do filme, seja nos momentos de maior intimidade nos quartos onde a luz dá um tom intimista, seja no clube nocturno recheado de cor e uma profusão de sentimentos. Embora por vezes Philip Kaufman se pareça perder em demasia perante os devaneios sexuais dos seus personagens, nem por isso "Henry & June" deixa de causar um efeito quase hipnótico junto do espectador, apresentando uma sensualidade e erotismo latentes, ao mesmo tempo que nos apresenta de forma romanceada a este triângulo amoroso formado por Anaïs Nin, Henry e June Miller.

Título original: "Henry & June". 
Título em Portugal: "Henry e June".
Realizador: Philip Kaufman.
Argumento: Philip Kaufman e Rose Kaufman.
Elenco: Fred Ward, Uma Thurman, Richard E. Grant, Maria de Medeiros, Kevin Spacey.

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