20 novembro 2014

Resenha Crítica: "Freaks" (1932)

 Hoje um filme admirado e até considerado como uma das obras maiores de Tod Browning, "Freaks" foi um fracasso aquando da sua estreia, tendo sido banido durante bastante tempo do Reino Unido (um mercado importante, tendo apenas sido exibido em 1963) e visto a sua duração cortada em cerca de trinta minutos. O filme foi ainda devastado pela crítica da época (é sempre interessante verificar estes fenómenos em que o tempo altera por completo a visão sobre os filmes), algo visível em textos de pendor crítico como o de Richard Watts Jr. do New York Herald, que considerou o filme como "an unhelty and generally disagreeable work". No Harrison's Reports a opinião do crítico de serviço também não foi nada meiga: "Not even the most morbidly inclined could possibly find this picture to their liking. Saying that it is horrible is putting it mildly: it is revolting to the extent of turning one's stomach, and only iron constitution could withstand its effects... Anyone who considers this entertainment should be placed in the pathological ward in some hospital". A aposta parecia demasiado arriscada para um estúdio associado a vários filmes de prestígio que pretendia ter "mais estrelas do que o céu", apresentando-nos a uma obra cinematográfica que está longe de ter elementos como Greta Garbo, Clark Gable, Myrna Loy e afins, bem pelo contrário. Diga-se que a própria escolha do elenco foi laboriosa, algo salientado no artigo de Jeff Staford no site do canal TCM, com este a salientar que foram efectuadas procuras em vários locais dos EUA por figuras deformadas, tendo em vista a atribuir algum realismo a esta obra baseada no conto "Spurs" de Tod Robbins. O produtor Irving Thalberg pretendia que Tod Browning realizasse uma adaptação de "Arsene Lupin" para a MGM, mas o cineasta insistiu em avançar para um filme de um género que bem conhecia e dominava, algo que se revelou desastroso na época, embora o tempo tenha sido generoso para com a obra do cineasta. A nova leitura que "Freaks" tem nos dias de hoje é bem visível quando encontramos as palavras de Geoff Andrew na Time Out "MGM never knew what hit them with this film; they virtually disowned it, and it remained unseen in Britain until the '60s. It has now achieved deserved recognition as a masterpiece". O filme mescla elementos de drama e terror, comprovando que Browning estava muito à frente do seu tempo, efectuando uma obra deliciosamente macabra onde os monstros não são as figuras deformadas mas sim os seres humanos aparentemente normais. Nos momentos iniciais encontramos um indivíduo a apresentar uma mulher que se encontra no interior da caixa, salientando que esta outrora fora uma bela trapezista de sucesso. É então que somos apresentados aos eventos que conduziram às deformações de Cleopatra (Olga Baclanova), uma mulher bela, de carácter duvidoso que trabalha num circo ambulante cujas maiores atracções são figuras deformadas, tais como uma mulher barbuda, anões como Hans (Harry Earles) e Frieda (Daisy Earles), uma Meia Mulher/Meio Homem (Josephine Joseph), gémeas siamesas que se encontram coladas uma à outra (Daisy e Violet, interpretadas por Daisy e Violet Hilton), entre outros elementos. Temos ainda Venus (Leila Hyams), uma mulher que desperta a atenção de Phroso (Wallace Ford), um palhaço sempre pronto a testar novos truques embora estes nem sempre agradem à primeira. 

A história central do filme centra-se na paixoneta que Hans desenvolve por Cleopatra, uma mulher que o ridiculariza em privado e posteriormente em público, embora este nutra uma enorme admiração pela trapezista, procurando agradar-lhe a todo o custo. Hans até se encontrava envolvido com Frieda, mas logo acaba por ceder aos incontroláveis desejos que o acercam, sucumbindo a uma vamp que mantém um caso com Hercules (Henry Victor), um indivíduo musculado que conta com uma falta de escrúpulos semelhante à sua amada. Perante as prendas de Hans e a descoberta de que este conta com uma rica herança, Cleopatra aceita casar com este, embora o trate como uma aberração, humilhando-o em público, procurando aos poucos envenená-lo. Cleopatra e Hercules transformam-se em monstros no meio destes elementos bizarros, com os seus actos a distinguirem-se da camaradagem que existia no interior deste circo dos horrores. Mais do que nos aterrorizar com enormes sustos, "Freaks" coloca-nos perante a maldade e ambição humana, através de uma história de amor não correspondida, onde nos deparamos com um cenário marcado por figuras bastante peculiares. A festa do casamento de Hans e Cleopatra é paradigmática das figuras bizarras que envolvem o enredo, mas também das humilhações a que o anão é sujeito, com Harry Earls a ter uma interpretação convincente como este elemento que sonha ser possível "integrar-se" junto dos seres humanos sem deformações. Harry Earls apresenta um rosto e um corpo quase de uma criança, com o seu personagem a apresentar comportamentos que por vezes parecem de um adolescente conduzido pelas paixões momentâneas. Veja-se a forma como descura Frieda, bem como não tem problemas em idolatrar a personagem interpretada por Olga Blaclanova, numa história negra, onde o amor pode ter lugar mas no caso de Hans é procurado junto da pessoa errada. O momento em que este salienta que para a mulher o casamento não passou de uma piada é devastador, sendo capaz de expor toda a desilusão que vai na alma do personagem e a infelicidade daquele que deveria ser um dos episódios marcantes da sua vida. Blaclanova surge quase como uma vamp à "la Dietrich" em "Der blaue engel", pronta a seduzir os homens e a toldar-lhes os sentidos. Neste caso tem em Hercules um amante com uma personalidade muito semelhante, marcada por um ego enorme e poucos escrúpulos, enquanto se aproveita de Hans como se este fosse um mero objecto. Pela frente até mostra algum respeito para com este, sobretudo devido aos caros presentes que o anão lhe oferece, mas pelas costas é mais uma que se ri do mesmo, uma situação evidente quando simula que precisa de uma massagem para outros elementos poderem fazer troça de Hans. Existe uma procura notória de Tod Browning de exibir simpatia para com os personagens deformados, ao mesmo tempo que exibe variadas vezes os comportamentos pouco correctos de Hercules e Cleopatra para com os elementos deformados que os rodeiam, naquela que acaba por funcionar como um crítica social relacionada com a intolerância e a incapacidade do ser humano muitas das vezes não conseguir encarar o outro como um seu igual.

Quem sofre com esta relação entre Hans e Cleopatra é Freida, interpretada por uma sublime Daisy Earls, capaz de expressar bem a preocupação em relação ao futuro do amado. Temos ainda elementos mais leves, como a relação entre Phroso e Venus, bem como entre as gémeas siamesas e as respectivas caras-metades, bastando a uma ser tocada para a outra sentir, mas estamos numa obra que está longe de procurar com que nos sintamos bem depois do seu visionamento. É um filme de terror que vale mais por toda a atmosfera de bizarria e actos macabros e revoltantes do que pelos sustos que nos provoca, algo latente no último terço. Não falta ainda alguma tensão, sobretudo nos momentos finais nas carruagens do comboio por onde circula o circo, bem como devido ao possível destino de Hans às mãos da sua esposa, parecendo certo que esta mulher é a verdadeira criatura monstruosa de "Freaks". Nem todos os humanos tratam estes elementos de forma pouco simpática. No caso de Phrodo e Venus, estes integram-se no grupo sem problemas, parecendo certo que a história destes dois personagens, apesar de ser relativamente desenvolvida, poderia ser mais bem aproveitada ao longo do enredo. Os vários cortes a que o filme foi sujeito são sentidos em alguns pontos da narrativa, embora nem por isso afectem o desenvolvimento dos personagens e todo um contexto negro, onde a malícia surge mais nas figuras aparentemente sem deficiências do que nos elementos deformados. Depois de realizar "Dracula", Tod Browning tem em "Freaks" uma das suas obras maiores, onde os espaços do circo e das carruagens são aproveitados com sobriedade e os momentos marcantes são mais do que muitos. Veja-se os já citados momentos da carruagem, mas também quando um elemento procura efectuar um brinde colectivo para que Cleopatra se torne numa deles, já para não falar quando nos deparamos perante algumas criaturas pela primeira vez no ecrã. Obra marcada por uma atmosfera negra, onde o terror surge dos actos humanos e da maldade, "Freaks" deixa uma mensagem subliminar de apelo à diferença, ao mesmo tempo que exibe os perigos da intolerância e nos deixa perante um grupo de supostos "monstros" cuja humanidade não está na aparência mas sim nos seus gestos.

Título original: "Freaks". 
Título em Portugal: "A Parada dos Monstros".
Realizador: Tod Browning.
Argumento: Tod Robbins.
Elenco: Wallace Ford, Leila Hyams, Olga Baclanova, Roscoe Ates.

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