26 novembro 2014

Resenha Crítica: "Dumb and Dumber To" (Doidos à Solta, de Novo)

 Praticamente vinte anos depois da estreia do filme original é caso para nos questionarmos se será mesmo necessária uma continuação de "Dumb and Dumber”. Depois de assistirmos a "Dumb and Dumber To" a resposta a esta questão não pode deixar de ser bastante positiva, sobretudo para quem apreciou minimamente "Dumb and Dumber". Peter e Bobby Farrelly mantêm o mesmo estilo de humor politicamente incorrecto, marcado por grandes doses de loucura e patetice, com os gags a irem do mais elaborado ao mais grosseiro, enquanto Jim Carrey e Jeff Daniels voltam a exibir a dinâmica considerável que têm a interpretar Lloyd Christmas e Harry Dunne. Vinte anos se passaram na nossa vida, na dos actores e na dos personagens, mas estes continuam com a mesma personalidade, embora seja notório o avançar do tempo nos seus rostos. Jim Carrey volta a apostar imenso no seu talento para a pantomina, utilizando o seu corpo e elasticidade ao serviço do humor físico, voltando a improvisar imenso e a ter momentos que variam entre o hilariante e o completamente despropositado. Lloyd pensa que é mais inteligente do que Harry, embora ambos sejam dois idiotas que se envolvem nas mais variadas confusões e mostram a enorme cumplicidade que os une apesar de um ou outro acto menos positivo que cometem para com o seu interlocutor. Jeff Daniels volta a entregar-se de corpo e alma para interpretar Harry, um indivíduo que apresenta uma união aparentemente à prova de tudo com Lloyd. No início de "Dumb and Dumber To" encontramos Lloyd internado num hospital psiquiátrico em estado catatónico devido a não ter conseguido superar o facto de ter sido rejeitado por Mary Swanson (Lauren Holly), uma mulher a quem procurara entregar uma mala que continha o dinheiro do resgate do seu esposo em "Dumb and Dumber". Harry cuida do amigo de forma zelosa, visitando-o todas as Quartas-Feiras, trocando-lhe as fraldas e os sacos com urina, algo que até chega a comover algumas enfermeiras. Lloyd encontra-se num estado lastimável, com uma enorme barba, sem locomover-se, sem falar, parecendo quase um vegetal. É então que Harry revela que se encontra com um grave problema de saúde que o vai levar a ausentar-se e deixar de visitar Lloyd, uma situação que conduz este último a levantar-se de forma enérgica e revelar que foi tudo uma partida. Harry ainda questiona o acto do amigo em gastar os melhores anos da sua vida só para pregar uma partida, mas logo demonstra a sua admiração pelo empenho e esforço de Lloyd para fazer com que uma piada funcione. A amizade, cumplicidade e parvoíce dos dois ficam paradigmaticamente representadas nestes momentos, com Peter e Bobby Farrelly a não nos enganarem e a evidenciarem que as personalidades de Harry e Lloyd mantêm-se e prometem proporcionar-nos alguns momentos completamente non sense (veja-se desde logo quando procuram tirar o cateter de Lloyd de forma pouco ortodoxa). Harry logo revela que necessita do transplante de um rim, uma situação que os conduz a visitarem os pais do personagem interpretado por Jeff Daniels, com este finalmente a descobrir que foi adoptado, enquanto Lloyd se diverte a comparar o sotaque chinês da mãe do amigo com o esquilo de "Caddyshack" (curiosamente Bill Murray é um dos convidados especiais do filme).

 Fica assim colocada de parte a hipótese destes dois elementos poderem ter um rim compatível com o de Harry ou estarem dispostos a testar essa possibilidade. No entanto, os pais adoptivos dão a Harry toda a correspondência dos últimos vinte e poucos anos em que este ficou fora de casa depois de dizer que era gay (para não ter de cortar a relva), na qual o protagonista encontra uma carta de Fraida Felcher (Kathleen Turner) a revelar que se encontrava grávida deste. Harry vai ao encontro de Fraida, embora tanto ele como Lloyd tenham dificuldade em reconhecer a mulher que outrora era desejada por tudo e todos e era conhecida pelas suas habilidades sexuais, com "Dumb and Dumber To" a exibir mais uma vez o seu lado politicamente incorrecto ao colocar a dupla o gozar com um lado possivelmente menos atraente do avançar da idade, apesar de Harry e Lloyd parecerem esquecer-se que o tempo também avançou para ambos. Fraida continua a manter uma agência funerária, tendo revelado que deu a filha para a adopção há cerca de vinte anos, contando apenas com uma carta devolvida com a morada da jovem Fanny. Lloyd e Harry logo partem em busca de Fanny, agora chamada de Penny (Rachel Melvin), uma jovem que conta com o famoso cientista Dr. Pinchelow (Steve Tom) como pai adoptivo e a interesseira Adele Pinchelow (Laurie Holden) como mãe adoptiva. Adele procura eliminar o marido para ficar com a herança e viver com Travis (Rob Riggle), o seu amante, enquanto Harry procura saber se a filha tem um rim compatível com o seu e Lloyd fica encantado com a foto da jovem. Ficamos assim com uma nova road trip da dupla, com a procura da filha de Harry e posteriormente a entrega de um objecto para a mesma a servirem de fio condutor para unir um conjunto de gags que nos vão sendo expostos ao longo do enredo, com o argumento a depender e muito destes momentos de humor e da dinâmica entre Jim Carrey e Jeff Daniels. Essa situação fica desde logo evidente quando se enganam no caminho e vão ter de novo a casa de Fraida, num momento hilariante a fazer recordar quando Lloyd se enganou na estrada a seguir no primeiro filme. Diga-se que muitos dos momentos de "Dumb and Dumber To" parecem ter sido quase que reciclados do primeiro filme, embora nem por isso essa situação tire mérito a esta obra que tanto nos consegue despertar gargalhadas sonoras como logo de seguida um silêncio embaraçoso perante mais uma piada falhada. Pelo caminho, Harry e Lloyd vão ter de lidar com o perigoso amante de Adele, um agente secreto corrupto, uma idosa tarada, cientistas, entre muitos outros, espalhando a confusão pelos diversos cenários por onde passam, com Peter e Bobby Farrelly a aproveitarem esta viagem para criarem um conjunto de momentos marcados por uma enorme loucura, onde não falta algum humor politicamente incorrecto. Não faltam piadas sobre cegos, chineses, mulheres, idosas, sotaques, cientistas, bem como momentos em que os excrementos e os gases são utilizados para o humor, entre muitas outras situações que mantêm de forma praticamente intocável o estilo do primeiro filme. Mais do que gozar com as minorias e os momentos politicamente incorrectos, "Dumb and Dumber To" faz-nos rir da sua dupla de protagonistas completamente chanfrada cujos elementos pensam ser mais inteligentes do que realmente são, algo que nos faz rir dos mesmos. Claro que nem todas as piadas resultam e por vezes o filme cai em exageros embaraçosos, sobretudo no último terço quando Harry e Lloyd se encontram na convenção Ken em El Paso, onde lidam com um diversificado número de cientistas e a parvoíce de ambos é levada a um extremo que não funciona. São momentos dispensáveis, completamente desinspirados, que claramente Peter e Bobby Farrelly poderiam ter cortado que não fariam falta nenhuma (veja-se o momento em que Harry avalia invenções ou quando está com o amigo a berrar no meio da plateia). Temos também momentos hilariantes, tais como o regresso de Billy (Brady Bluhm), a criança cega do primeiro filme a quem Lloyd vendeu um pássaro decapitado, hoje um adulto que colecciona pássaros raros, incluindo um que repete citações de filmes famosos. Escusado será dizer que a coleccção de pássaros não terá o melhor dos destinos, com Peter e Bobby Farrelly a fazerem-nos rir por antecipação por sabermos o que poderá acontecer e na exposição do acto num momento que poderia ser ofensivo mas mais uma vez atesta a idiotice de Lloyd. 

 Não é só Billy que tem novos animais de estimação, também Harry adopta um gato a quem dá o nome de Butthole. Este habita na casa de Harry em Providence, onde o protagonista agora conta com um traficante e fabricante de droga (Bill Murray) como inquilino, cujos produtos de boa qualidade são testados pelo gato que logo decide saltar pelos candeeiros provavelmente a pensar que é o Homem-Aranha. Diga-se que os momentos de comédia de "Dumb and Dumber To" também surgem da capacidade de Peter e Bobby Farrelly em encontrarem o humor nos pequenos pormenores, tais como deixarem Harry e Lloyd a conversarem no centro do plano, enquanto vemos em pano de fundo o gato nas alturas em cima do candeeiro a balançar num movimento pendular. O riso é praticamente garantido, num momento simples, onde "Dumb and Dumber To" demonstra algumas das suas qualidades. No entanto, a maior qualidade de "Dumb and Dumber To" é fazer-nos recordar por que é que Harry Dunne e Lloyd Christmas granjearam uma longa base de fãs e tornaram-se em personagens bastante populares nas carreiras de Jeff Daniels e Jim Carrey. Se este último estivesse numa fase positiva da sua carreira, tal como os irmãos Farrelly, provavelmente não estaríamos agora a escrever sobre "Dumb and Dumber To", mas parece notório que existiu uma procura em emular o estilo do primeiro filme e honrar os personagens, com Jeff Daniels e Jim Carrey a fazerem parecer que o hiato entre a sequela e "Dumb and Dumber" não contou com um período a rondar os vinte anos (não contemos com a prequela sem a presença de Jeff Bridges e Jim Carrey). Quem não apreciou o primeiro filme, provavelmente não é agora que ficará fã de Harry e Lloyd. Quem gostou bastante de "Dumb and Dumber" provavelmente (para não dizer seguramente) voltará a ter alguns momentos de boa disposição com estes personagens, enquanto Harry e Lloyd espalham a confusão. Não faltam berros aos ouvidos de um cego para provar que este não tem os sentidos mais apurados, a mão de Lloyd no interior da vagina de uma idosa, humor num espaço fúnebre, gases mal-cheirosos como método de vingança, fogo de artifício utilizado de forma explosiva, um objecto supostamente valioso transportado de forma negligente e até o regresso temporário do cão-pastor. Temos ainda um conjunto de personagens secundários peculiares que sobressaem, entre os quais Penny, a bela mas pouco inteligente jovem que é filha de Fraida, também ela uma mulher com uma personalidade deveras invulgar. Já a Rob Riggle e Laurie Holden calha ficarem como antagonistas, embora raramente sintamos que existe perigo para os protagonistas, algo que se repete em relação ao primeiro filme. Mesmo o próprio argumento parece apenas uma desculpa para um juntar de gags, com muito a funcionar e muito a falhar, com "Dumb and Dumber To" a estar longe de ser a comédia mais conseguida dos Farrelly, mas também a estar distante de desonrar o primeiro filme. Entre os gags mais elaborados e a completa parvoíce, "Dumb and Dumber To" nem sempre acerta nos momentos de humor mas quando o consegue evidencia de forma paradigmática porque Lloyd Christmas e Harry Dunne continuam a ser tão populares, com Jim Carrey e Jeff Daniels a voltarem a revelar uma enorme dinâmica e capacidade de nos fazerem rir.

Título original: "Dumb and Dumber To". 
Título em Portugal: "Doidos à Solta, de Novo".
Título no Brasil: "Debi & Lóide 2".
Realizadores: Peter Farrelly e Bobby Farrelly.
Argumentistas: Peter Farrelly, Bobby Farrelly, Sean Anders, John Morris, Bennett Yellin, Mike Cerrone.
Elenco: Jim Carrey, Jeff Daniels, Laurie Holden, Kathleen Turner, Rob Riggle, Rachel Melvin.

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