18 novembro 2014

Resenha Crítica: The Disappearance of Eleanor Rigby: Them (O Desaparecimento de Eleanor Rigby: Eles)

     Num dos momentos iniciais de “The Disappearance of Eleanor Rigby: Them”, deparamo-nos com a personagem do título (Jessica Chastain) a circular de bicicleta com toda a naturalidade, no meio de uma ponte movimentada, até ao momento em que decide abandonar o velocípede, encaminhar-se decididamente para o parapeito e atirar-se para o fundo de um rio. As causas do seu suicídio não nos são muito claras, mas suspeitamos que se relacionem de algum modo com a sua relação com Conor (James McAvoy), ilustrada momentos antes numa sequência desenrolada num passado incerto, que até decorrera de forma terna e romântica. Inesperadamente a protagonista acaba por ser salva com algumas mazelas, saradas posteriormente numa cama de um hospital, e será reencaminhada para a espaçosa habitação onde vivem os seus pais. Nela encontramos a sua simpática irmã (Jess Weixler) e respetivo filho, a sua mãe francesa (Isabelle Huppert) com um permanente copo de vinho na mão, e o seu pai, um calmo e respeitável professor universitário (William Hurt).
     Em simultâneo vamos acompanhando a vida de Conor, proprietário de um restaurante com problemas financeiros no qual Stuart (Bill Hader), o seu melhor amigo, é o cozinheiro. Reside temporariamente na casa de dois andares do seu pai (Ciarán Hands), um reservado magnata do negócio da restauração, e carrega consigo um constante olhar de profundo abatimento, que evidencia o seu desânimo pela tentativa de suicídio da sua esposa e pelo facto de esta se recusar a falar com ele. A sua instabilidade e a sua desorientação são nalguns casos indisfarçáveis, e chega mesmo a ser acusado pelo seu cozinheiro de estar sempre irritado e consumido por frustração. Numa ocasião, na sequência de uma discussão acalorada, chega a dar um murro na cara de um cliente que estava a pedi-las, e a não se importar de levar outro de volta, com força redobrada, sendo que a sua reação ao seu novo olho negro não será outra que não a de indiferença.
     Entretanto Eleanor procura manter a sua mente ocupada, inscrevendo-se num curso universitário tutorado pela professora Friedman (Viola Davis), uma ex-colega do seu pai que vai exprimindo o seu desencanto pela vida através de algumas belas tiradas mordazes, graças às quais vai criar uma sólida relação de empatia com a protagonista e com o espetador. Numa das suas pausas da vida académica, em casa, Eleanor é abordada pelo pai para falar sobre o sucedido. É-nos revelada a morte recente do seu filho, enquanto o pai lhe relembra, em tom de censura, que também ele sofre em silêncio pela perda do seu neto.
     Conor acaba por descobrir o paradeiro da esposa, e segue-a até à universidade com o propósito de a confrontar. Entra à socapa numa das suas aulas, e, ao persegui-la, acaba por ser atropelado e por ganhar uma nova cicatriz na face. Eventualmente, os acontecimentos que antecederam o salto para a morte de Eleanor já foram sendo revelados – relacionam-se com a morte do filho e como cada personagem a tentou ultrapassar: enquanto Conor se refugiara nas usuais rotinas do quotidiano, a sua esposa limitara-se a armazenar a sua dor e o seu ressentimento num canto escuro e recatado da sua mente. Nenhum deles tentou encarar enormidade da sua perda, temendo que, ao fazê-lo, tornar-se-iam vulneráveis a uma inevitável torrente de desespero.
     A morte acabou por separá-los emocionalmente e, paradoxalmente, por uni-los na sua desorientação. Nenhum deles tem uma carreira profissional promissora, e as barreiras que ergueram abruptamente impedem-nos de se refugiarem nos seus amigos e nas suas famílias. Temos noção, e eles também, de que o conforto necessário para prosseguirem as suas vidas só será encontrado nos braços um do outro. Ao mesmo tempo que os assombros do passado se vão tornando cada vez menos distantes vão-se tentar reconciliar e ultrapassar a sua perda, em conjunto, cada um à sua maneira.
     É preciso termos em conta que “The Disappearance of Eleanor Rigby: Them” consiste numa versão compactada de dois filmes originais distintos, escritos e realizados em simultâneo pelo estreante Ned Benson. Cada um ilustra a separação de um casal após a morte inesperada da sua criança, através do olhar, num caso, do esposo (“The Disappearance of Eleanor Rigby: Him”) e no outro da esposa (“The Disappearance of Eleanor Rigby: Her”). Estrearam em conjunto no Festival de Toronto, e os elogios que receberam motivaram a criação de uma obra conjunta, menos extensa, sem novas cenas, antes com uma seleção das que já constavam nos outros trabalhos.
     Uma vez que se cortou o que se achava prescindível, não é de admirar que existam limitações na construção da narrativa. A história é simples e pouco original, e se tem o mérito de ser realista, bem estruturada e escrita com sensibilidade, também tem o defeito de não se tentar distinguir dos enredos de outros filmes com a mesma premissa. A construção das personagens, por seu lado, não é descurada mas também não é particularmente meritória; sabemos quem são os amigos e as famílias dos protagonistas, mas desconhecemos em grande parte as suas personalidades. A empatia que vamos sentir por elas ao longo do filme não advirá da maneira como foram construídas, nem sequer dos diálogos, que oscilam entre momentos de brilhantismo ou de banalidade, mas sim da dor que os seus intérpretes magnificamente vão expondo.
     De facto, apesar de ter uma construção narrativa pouco complexa, o filme em análise alicerça-se na exposição de numerosas cenas intensas, causadoras de impacto. A carga dramática da história dá-lhes credibilidade e os seus atores aproveitam a liberdade de que dispõem para tirar interpretações que, mais do que competentes, conseguem agarrar a atenção do espetador e puxar pelo seu sentimentalismo. Jessica Chastain é sublime ao expor a sensação de perda e em retratar a depressão da sua personagem, causa pena no espetador através dos seus olhares vazios e da sua face soturna, e terá sido tanto pelo seu talento impressionante como pela sua presença que o filme se irá focar mais nela do que no seu co-protagonista; James McAvoy, por seu turno, transmite eficazmente a sua constante solitude e falta de rumo, apresentando, além disso, uma química visível com a personagem de Chastain; Isabelle Huppert não tem muito tempo de ecrã mas demonstra uma classe evidente e William Hurt sobressai pela intensidade que incute a uma das cenas finais; Viola Davis, por fim, retrata com facilidade uma mulher que, mesmo desiludida com a vida, nunca perdeu o sentido de humor, e com quem é fácil simpatizarmos. Ned Benson parece ter a perfeita noção do talento dos seus intérpretes e sabe potenciar os momentos por eles protagonizados. As cenas decorrem maioritariamente em locais escuros e pouco iluminados, e a banda sonora é silenciada na hora certa para que nos concentremos unicamente nas reações das personagens, evidenciadas eficazmente através de close ups.
     Outro traço característico que Benson incute no filme é o eficaz complemento de algumas cenas sem diálogos com a banda sonora, sobressaindo entre estes momentos a cena final em que os dois protagonistas caminham simbolicamente às escuras, ao mesmo tempo que a beleza da música suscita as sensações pretendidas na audiência. Este exemplo em particular é paradigmático da nossa experiência ao visionarmos “The Disappearance of Eleanor Rigby: Them” – é evidente que Ned Benson não tem problemas em provocar emoções na sua audiência, mas estas provêm de uma sucessão de cenas interpretadas com mestria, ou com o recurso à banda sonora e não à riqueza do seu argumento. Tal implica que esta obra não seja particularmente memorável, mas que, ainda assim, entretenha e muitas vezes fascine. E se, por um lado, a possibilidade de vermos cenas repetidas retira alguma curiosidade em vermos os filmes originais nas quais se baseou, por outro a ideia de haver um filme focado somente na caída em desgraça de Jessica Chastain poderá justificar, por si só, o preço do bilhete, para podermos regressar a este universo cinematográfico e explorar, possivelmente, a complexidade de cada uma das suas duas partes distintas.

Ficha técnica:

Título original: The Disappearance of Eleanor Rigby: Them
Título em Portugal: O Desaparecimento de Eleanor Rigby: Eles
Realização: Ned Benson
Argumento: Ned Benson
Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Isabelle Huppert, Viola Davis, Bill Hader, entre outros.

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