24 novembro 2014

Resenha Crítica: "Das Leben der Anderen" (As Vidas dos Outros)

 Até onde pode ir a vigilância a um ser um humano? No caso que nos é apresentado em "Das Leben der Anderen" essa não parece ter limites ou não estivéssemos em 1984 (o ano não parece ter sido escolhido ao acaso, remetendo para a obra literária homónima de George Orwell), em plena República Democrática Alemã, onde um grupo de elementos da Stasi (abreviatura de Ministerium für Staatssicherheit, "Ministério para a Segurança do Estado"), procura vigiar todos os passos daqueles que possam ser avessos ao Comunismo. A Alemanha ainda se encontrava dividida pelo Muro de Berlim, que viria a cair em 1990 e permitiria um reunificar das "duas Alemanhas", a do lado ocidental ligada ao capitalismo e a do lado oriental ligada ao Comunismo. No caso de "Das Leben der Anderen", o realizador Florian Henckel von Donnersmarck deixa-nos perante um pungente drama humano, mesclado com thriller político, onde tudo parece valer para os serviços secretos da RDA conseguirem informação e destruírem possíveis inimigos políticos, incluindo cometerem abusos de poder, exercerem vigilância sobre elementos considerados suspeitos, efectuarem escutas no interior das suas casas, com as penas a poderem valer o exílio, proibição de exercer a actividade profissional, prisão, ou seja, a destruição das vidas daqueles que se encontram a ser seguidos por serem considerados(as) suspeitos(as). Logo no início do filme encontramos Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) a dar aulas sobre vigilância aos alunos, explicando as técnicas para tirar tudo o que pretendem dos detidos, mesmo que isso implique coerção psicológica. Wiesler exibe uma frieza notória, conquistada ao longo de anos a reprimir sentimentos, e uma habilidade praticamente imaculada para o cumprimento da sua função como podemos ver num flashback em que este salienta aos alunos como conseguiu obter a informação da sua testemunha ao conduzir a mesma praticamente ao desespero. Este seu talento conduz a que seja convidado por Anton Grubitz (Ulrich Tukur), o seu superior, para vigiar Georg Dreyman (Sebastian Koch), um famoso escritor de peças de teatro e poeta, conhecido pela sua personalidade algo liberal, embora nunca tenha apresentado atitudes de deslealdade para com o Governo, que mantém amizade com vários elementos vigiados devido às suas posições políticas serem consideradas polémicas. Dreyman e Wiesler não poderiam ser mais distintos. Dreyman é um indivíduo aparentemente afável, que gosta de desfrutar da vida, mantém boas relações de amizade e um namoro com Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), uma conhecida actriz de teatro que desperta o interesse de Bruno Hempf (Thomas Thieme), o Ministro da Cultura. Wiesler é um indivíduo pouco sociável, de poucas palavras, algo frio, sem grandes actividades extra-trabalho, que apenas vemos a ter relações sexuais com uma prostituta de seios robustos, em momentos de pouco erotismo e nenhum amor. No entanto, Ulrich Mühe consegue criar uma empatia com o espectador a ponto de nunca antipatizarmos por completo com o seu personagem, até pelas mudanças graduais que este vai conhecendo ao longo da narrativa, percebendo que esta perseguição a Dreyman não é puramente política, servindo sobretudo para Hempf conseguir coagir Sieland a ter relações sexuais consigo e o político tirar o rival do caminho. Neste sentido, Wiesler até vai ter um papel fulcral ao aperceber-se de toda esta situação, fingindo ser um fã desta mulher de forma a contactar com a mesma para lhe dar confiança a não ceder perante possíveis medos. Wiesler e a sua equipa montam um conjunto de aparelhos de escuta na casa do protagonista de forma a captarem tudo o que é falado neste espaço e assim terem provas cabais para o poderem prender, algo que inicialmente parece complicado visto que o argumentista de peças de teatro tarda em apresentar atitudes desleais. Se a casa do protagonista é marcada pela presença de Sieland e dos amigos deste, já a sala de escutas é marcada por parca iluminação, uma solidão e frieza evidentes de Wiesler que troca uma vez de dia de posição com o seu colega de posto até decidir exercer sozinho as suas funções. A razão deve-se mais para poder filtrar a informação recebida do que por desconfiar do colega, com o argumento a atribuir uma enorme complexidade a este personagem cujos actos e decisões que toma nem sempre dão para entendermos de forma totalmente pragmática.

Aos poucos, Wiesler começa também a viver a vida de Dreyman, conhecendo os seus hábitos, conversas, os momentos em que o poeta tem relações sexuais entre outros episódios. Dreyman não sabe que está a ser alvo de escutas. Diga-se que estes dois elementos nunca se cruzam no ecrã, apesar dos seus destinos ficarem bastante ligados e ambos apresentarem uma desilusão gradual com o rumo do seu país. Dreyman tem amizade com Paul Hauser (Hans-Uwe Bauer), um elemento reaccionário que age de cabeça quente e apresenta claros ideais contra o Governo, Albert Jerska, um realizador de peças de teatro que foi proscrito devido aos seus ideais que oferece no aniversário do protagonista a partitura da música "Sonate vom Guten Menschen", entre outros elementos que não colhem lá grande simpatia no interior dos serviços secretos da RDA. No aniversário encontram-se vários elementos considerados suspeitos pelo Governo, embora a coerção atinja um limite perturbador quando Albert Jerska se suicida por não aguentar mais a situação de ter sido proibido de exercer a sua profissão. A atmosfera que rodeia estes personagens é opressora. Se desviarem-se das regras estes arriscam-se a duras medidas de repressão num regime que apenas se consegue impor pela coerção, medo e força, algo que coloca em risco os elementos mais destemidos. O momento da morte de Jerska parece fulcral para a mudança de comportamento de Dreyman, até aí algo pacífico, procurando escrever um artigo sobre a falsificação da taxa de suicídio no território (bastante elevada) ao mesmo tempo que finge escrever uma peça de teatro sobre os 40 anos da RDA. O artigo é escrito numa máquina contrabandeada, em tinta vermelha e não registada, algo que dificulta a descoberta da identidade do autor, embora Wiesler saiba quem foi. Mesmo na sua sala fechada, longe da humanidade, Wiesler aos poucos começa a nutrir uma certa simpatia por esta causa, embora não deixe de ser fiel aos seus superiores, com "Das Leben der Anderen" a criar algo de complexo que nos remete para a revolta contra um regime repressivo exibida com uma enorme sobriedade e ponderação. Florian Henckel von Donnersmarck procura transportar para o grande ecrã a atmosfera vivida na RDA num período relativamente próximo da queda do Muro de Berlim, existindo um gradual sentimento de resistência por parte dos elementos mais cultos, embora o cineasta não desumanize o "outro lado" ao expor-nos perante um especialista em vigilância que gera as suas próprias dúvidas. O filme remete-nos até para outras obras associadas à vigilância, desde logo "The Conversation", uma obra cinematográfica realizada por Francis Ford Coppola onde também tínhamos um protagonista solitário e algo introvertido, embora seja um dos melhores na sua área. Existe uma enorme atmosfera de paranoia a rodear o enredo de ambos os filmes, embora Georg Dreyman até pense que não está a ser vigiado. Este mantém uma relação de grande proximidade com Christa-Maria Sieland, com ambos a formarem um casal que procura manter uma relação coesa, embora tenham de lidar com várias contingências associadas ao contexto político e social em que se encontram. A cena de cariz sexual de Christa-Maria Sieland com o Ministro da Cultura é de uma frieza extrema e penosa, logo adensada pela procura desta em lavar-se por completo na banheira, não só para tirar os resquícios deste acto mas também para uma tentativa pueril de lavar a sua alma, com Martina Gedeck a ter aqui alguns dos momentos onde consegue expor todas as fragilidades da sua personagem. Mais tarde voltará a ser obrigada a colocar à prova a sua lealdade a Dreyman com "Das Leben der Anderen" a não poupar no terror psicológico sobre esta personagem, uma mulher que apenas quer ser bem sucedida na sua profissão e no amor mas vê-se envolvida em questões próprias de um Estado repressivo.

Martina Gedeck e Sebastian Koch apresentam uma química assinalável ao darem vida a este casal que mantém uma relação sentimental em tempos difíceis. Koch interpreta um escritor que facilmente desperta a nossa simpatia, afável, aparentemente sereno, apreciador das artes, que gosta de tocar piano, idealista e fiel a Sieland, bem como aos seus amigos. Gedeck consegue manter na sua face sempre uma fragilidade e inconstância que percebemos poderem vir a ser fatais para a sua personagem, algo notório quando se encontra a ser interrogada no último terço. Esta é uma mulher viciada em calmantes, drogas médicas que atenuam uma dor que parece sentir perante todas as situações vividas. A casa onde estes habitam está longe de ser um local marcado pela liberdade, ou não estivessem sob escuta, embora Wiesler omita alguma da informação que encontra, com o filme a provavelmente apresentar algumas liberdades históricas para humanizar este personagem. Factualmente pode ser uma representação errada, mas a nível da narrativa funciona praticamente na perfeição, com Florian Henckel von Donnersmarck a procurar explorar a capacidade do ser humano em decidir por si próprio mesmo em situações adversas. A inspiração para este personagem foi uma conversa entre Lenine e Maximo Gorki, onde o primeiro salientou que não podia ouvir "Apassionatta" devido à forma como tocava e "amolecia" a sua pessoa. No caso de Gerd Wiesler, a música que este ouve são os diálogos dos elementos que escuta, algo que gradualmente o vai deixando perante uma certa brandura em relação aos alvos que deveria denunciar sem apelo nem agravo. Este parece ser a excepção à regra a uma obra permeada por personagens como o Ministro da Cultura e o superior de Wiesler que conseguem tudo menos despertar a nossa simpatia, apresentando comportamentos e posturas de uma frieza atroz, com o primeiro a utilizar o poder para o seu bem pessoal. Ficamos perante um território onde o livre arbítrio é praticamente proibido mas nem por isso deixa de ser exercido, numa obra capaz de capturar a atmosfera sufocante da época, quer devido ao cuidado do argumento, quer devido aos comportamentos dos personagens, quer graças ao guarda roupa dos mesmos. A cinematografia contribui ainda para uma certa opressão que encontramos no enredo, sobressaindo sobretudo nas cenas em que encontramos Wiesler fechado a ouvir as conversas, bem como nos interrogatórios, enquanto Florian Henckel von Donnersmarck controla os ritmos da narrativa e nos deixa perante uma história onde os valores morais podem surgir nos momentos mais inesperados. A própria paleta cromática indica alguma frieza, sobretudo na utilização dos tons cinzentos, visíveis nas fardas de alguns elementos da Stasi, mas também nos seus sentimentos, com "Das Leben der Anderen" a não poupar na atenção ao pormenor. Veja-se ainda as diferenças entre a casa de Wiesler, bastante vazia e fria, e a de Dreyman, preenchida de calor humano, livros e arte, algo revelador dos estilos de vida distintos destes homens. Entre a vigilância exacerbada e a procura em denunciar situações penosas da RFA, "Das Leben der Anderen" apresenta-nos a um magnífico drama humano que sobressai pela forma subtil como aborda as suas temáticas e desenvolve os seus personagens.

Título original: "Das Leben der Anderen".
Título em inglês: The Lives of the Others".
Título em Portugal: "As Vidas dos Outros".
Realizador:  Florian Henckel von Donnersmarck.
Argumento: Florian Henckel von Donnersmarck.
Elenco: Ulrich Mühe, Martina Gedeck, Sebastian Koch, Ulrich Tukur.

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