10 novembro 2014

Resenha Crítica: "The Conversation" (O Vigilante)

 Lançado em 1974, ano em que Richard Nixon abandonou a presidência dos EUA após o escândalo do caso Watergate, "The Conversation" apresenta-nos a um meticuloso especialista em vigilância que logo nos momentos iniciais do filme encontramos a seguir um misterioso casal, acompanhado pela sua curta equipa, a mando do seu cliente. Inicialmente as conversas entre o casal parecem ser completamente banais, com a esposa a apresentar um certo desconsolo por encontrar um sem-abrigo de idade avançada, algo que expõe ao marido. As conversas de Ann (Cindy Williams) e Mark (Frederic Forrest) por vezes são conspurcadas por pequenos barulhos, com "The Conversation" a apresentar-nos parte do que aparece reproduzido nos aparelhos, com estes sons de fundo a terem de ser trabalhados pelo protagonista para a conversa ficar mais límpida. A operação é efectuada com uma equipa mínima, enorme sobriedade e destreza, ao mesmo tempo que Francis Ford Coppola exibe a facilidade com que podemos ser alvo de escutas sem que nos apercebamos disso. Tudo é preparado minuciosamente, pronto a exibir a perícia do protagonista e o cuidado colocado por Francis Ford Coppola em criar um contexto credível que envolva este universo narrativo marcado pela paranoia e vigilância, onde os significados das palavras podem nem sempre ser tão lineares como parecem. Este especialista é Harry Caul (Gene Hackman), um elemento respeitado que gosta de estar sempre no controlo, desconfiando de tudo e de todos, que respeita a religião e os símbolos religiosos como poucos, procurando ao máximo manter a sua habitação à prova de falhas, mantendo um estilo de vida que praticamente o impossibilita de criar grandes ligações emocionais. Essa situação é visível quando visita uma mulher com quem tem contacto casualmente, embora nunca consiga manter alguma estabilidade e expor-se diante desta, uma situação que a deixa cada vez mais a colocar a hipótese de parar de esperar por Harry. Ela quer saber alguns segredos sobre este, mas o maior mistério da vida dele é mesmo esta relação secreta que parece condenada à desgraça. O paraíso deste parece ser as fitas e os momentos em que toca jazz, mas tudo muda quando ouve uma conversa do casal que indica que estes podem correr perigo de vida, algo que remete para "Blow-Up" de Michelangelo Antonioni onde o protagonista pensa ter encontrado um assassinato nas fotos que revela. Gera-se uma atmosfera de paranoia, com Harry a temer pelas vidas destes elementos, algo que se deve a traumas do passado que se reacendem no presente. Quando tem de entregar as fitas ao seu cliente (Robert Duvall), o presidente de uma grande corporação, é recebido por Martin Steet (Harrison Ford), o assistente, uma figura sombria que desperta em si uma desconfiança ainda maior em relação à utilidade da sua missão. Harry rejeita entregar as gravações até o cliente estar presente, algo que irrita Steet, que o segue até uma convenção onde se reúnem vários especialistas em vigilância, incluindo William Moran (Allen Garfield), um elemento extrovertido conhecido por ter dito à Chrysler que a Cadillac estava a perder terreno a nível de vendas, Stan (John Cazale), um colaborador do protagonista, bem como Paul (Michael Higgins), um amigo do personagem interpretado por Gene Hackman, entre outros. Parece que finalmente vamos encontrar o protagonista em amena cavaqueira mas esta termina rapidamente. Uma brincadeira que lhe fazem ao colocarem uma escuta numa caneta irrita-o, bem como o roubo das fitas, gerando-se uma enorme paranoia na sua mente enquanto "The Conversation" nos surpreende com algumas reviravoltas e nos mantém presos à atmosfera opressora que rodeia o enredo.

Francis Ford Coppola aproveita em cheio uma época onde a paranoia e as questões relacionadas com as escutas e a segurança estavam ao rubro, algo que se reflectiu no cinema com um conjunto de thrillers de enorme quilate. O mais curioso é que “The Conversation” até foi elaborado antes da administração Nixon e da eclosão do caso Watergate, que causou a demissão de um dos infames presidentes dos EUA. No caso de "The Conversation" não ficamos perante um político mas sim diante de um homem que por vezes chega a descer aos infernos da loucura, obcecado pelas vozes que ouviu e não lhe saem da cabeça, pelas mortes que pode causar involuntariamente ao dar aos seus clientes informações confidenciais. A cena onde alucina com Ann enquanto dorme é brilhante. A banda sonora adensa a atmosfera sombria, bem como as cores frias e até a presença do nevoeiro, onde todo o pesadelo se parece tornar bem real e evidencia os medos do protagonista e um despertar de consciência para as consequências das gravações de som que efectua. Gene Hackman é a pedra de toque do filme, capaz de explorar o perfil meticuloso e solitário do seu personagem, um homem obcecado em conseguir as conversas que captura com a melhor qualidade possível de forma a que estas cheguem ao cliente, embora nem sempre conte com a frieza que inicialmente parece aparentar. Harry fabrica o seu próprio material de espionagem, procura rodear-se de uma equipa de confiança, tendo nos espaços escuros e sombrios locais onde tem algumas reuniões, por vezes a fazer recordar as garagens escuras de "All the President's Men", surgindo quase como uma lenda entre os seus pares. O argumento e a realização de Francis Ford Coppola permitem a criação de todo um ambiente de mistério a rodear o personagem, com este a surgir como uma figura que é atraiçoada pelos sons que grava. O som tem um papel fundamental no filme, tal como a fotografia tivera em "Blow-Up". Diga-se que a imagem também tem um papel fundamental em "The Conversation". A cinematografia é exemplar, sobressaindo os planos aproximados a evidenciarem as bobines das fitas, as máquinas utilizadas para reunir as gravações, mas também nas cenas meio surreais do pesadelo do protagonista e até quando este encontra sangue a sair de uma sanita, parecendo beirar a loucura. Não é apenas Hackman que sobressai no elenco. Veja-se Allen Garfield como William Moran, um companheiro de profissão e rival do protagonista, um elemento com uma personalidade expansiva e um enorme ego. Temos ainda Elizabeth MacRae como Meredith, uma mulher que procura seduzir o protagonista na convenção, para além de Harrison Ford como o misterioso assistente do cliente de Harry, algo revelador do elenco competente de uma obra onde sobressai ainda o trabalho de montagem. As cenas iniciais são reveladoras do bom trabalho de Richard Chew e Walter Murch, explorando desde logo as várias frentes por onde se encontra a equipa de espionagem, incluindo numa carrinha onde constam vários materiais de gravação.

 Os cenários foram elaborados e utilizados com rigor. A casa do protagonista é marcada por alguma frieza e distanciamento, com o seu saxofone e a imagem de uma santa a parecerem os elementos mais pessoais num espaço que este não consegue ter totalmente controlado. É assim nos momentos iniciais quando uma vizinha lhe deixa um postal e uma prenda de anos devido a ter um duplicado da sua chave, mas também nos momentos finais onde a loucura de poder ser espiado parece tomar conta de toda a razão. São algumas das cenas mais poderosas do filme, onde Gene Hackman nos inquieta e o seu personagem parece ceder a uma instabilidade que marca bastante o seu quotidiano apesar de reprimir a mesma. Diz que apenas lhe interessa conseguir as gravações mas comprova o contrário, algo que até lhe traz um ou outro dissabor. Mas voltemos aos cenários. Veja-se o edifício da grande empresa do cliente de Harry, elevado, frio, marcado pela presença de obras de arte e um doberman que até parece ser o elemento de maior confiança. Já a casa do interesse amoroso do protagonista é marcada pela sobriedade e pela iluminação bastante apagada, com este a parecer ter de estar nas sombras para se poder revelar. Diga-se que é mesmo nas sombras que se revela, em particular num confessionário, ou não fosse Harry um religioso fervoroso, provavelmente para procurar espiar os seus pecados, embora o pior esteja para vir quando a sua mente começa a conjectuar hipóteses sobre as palavras que ouviu. Já o casal que observa surge quase sempre como figura simultaneamente marginal e activa, com um papel fulcral na narrativa, embora raramente estejamos directamente em contacto com o mesmo. Aos poucos descobrimos pormenores sobre o mesmo e no final até temos uma chocante revelação, numa obra fluída e intensa, onde a obsessão pela vigilância pode sair cara ao protagonista. Francis Ford Coppola tem em "The Conversation" um exemplo claro do que é capaz de fazer nos seus melhores dias (tendo lançado no mesmo ano "The Godfather Part 2", um feito digno de um predestinado), criando uma obra intensa e misteriosa, onde a paranoia e o medo parecem reinar, sobretudo quando a imaginação é fértil, a invasão de privacidade é uma realidade e os indicadores de uma gravação são pouco animadores. Não faltam ainda pesadelos, alucinações, quedas nas brumas da memória e dos erros passados, bem como possíveis conspirações onde as palavras podem-nos trair e as imagens nem sempre ser claras, num filme lançado numa época melindrosa dos EUA que continua a apresentar um vigor impressionante, ou o tema da vigilância não continuasse na ordem do dia. 

Título original: "The Conversation".
Título em Portugal: "O Vigilante". 
Realizador: Francis Ford Coppola.
Argumento: Francis Ford Coppola.
Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Michael Higgins, Cindy Williams, Frederic Forrest, Harrison Ford, Robert Duvall.

1 comentário:

Anónimo disse...

Um grande filme. Que também já tratei no meu canto. :)