12 novembro 2014

Resenha Crítica: "Carvão Negro, Gelo Fino" (Black Coal, Thin Ice)

 "Black Coal, Thin Ice" recupera a atmosfera das obras noir dos anos 40 e 50, colocando-nos perante um espaço citadino marcado pelo crime e algum pessimismo, uma mulher fatal, um protagonista que se envolve em problemas por conta própria, entre outros elementos. Não temos o célebre jogo de luz e sombras a ser utilizado de forma tão frequente, mas sim uma utilização das cores pronta a remeter para esta atmosfera fria que rodeia estes personagens, onde as tonalidades brancas da neve cobrem os cenários mas não gelam as almas. A narrativa começa em 1999, numa pequena cidade localizada no Norte da China, onde Zhang Zili (Liao Fan), um detective da polícia, e a sua equipa procuram descobrir a identidade do assassino que eliminou Liang Zhijun e cortou o seu corpo aos pedaços, deixando os mesmos em vários carregamentos de carvão que partiam em direcção a diferentes partes do país. A busca conduz estes elementos a Liu Fayin, o elemento que conduziu o meio de transporte a mais locais distintos, com a ajuda do irmão, embora a missão corra de forma desastrosa, com o protagonista a ser baleado e dois dos seus companheiros a serem eliminados. A cena teria tudo para parecer saída de uma comédia com os tons cor de rosa a dominarem o espaço do cabeleireiro onde é efectuada a detenção, até a morte chegar e todo o possível sorriso esmorecer diante das vidas que desaparecem. A vida não anda a correr bem ao protagonista. No início da narrativa encontramos a mulher a despedir-se após o divórcio. Passado cinco anos deste incidente descobrimos que este foi afastado da polícia e trabalha como segurança numa fábrica onde apresenta uma atitude errática, passando as noites alcoolizado, sendo contactado pelo detective Wang, um antigo companheiro, sobre dois novos assassinatos que parecem estar ligado a Wu Zhizhen (Gwei Lun-Mei), a esposa do falecido Liang Zhijun. Esta trabalha numa lavandaria, tendo como chefe um indivíduo que parece interessado em si apesar dos seus avanços nunca serem recompensados da forma que este espera. Zhang vê nesta oportunidade um meio de dar alguma utilidade à sua vida, envolvendo-se numa investigação por conta própria, fingindo inicialmente ser um cliente da lavandaria, até as suas visitas começarem a ser mais regulares e começar a contactar com esta misteriosa mulher. A banda sonora indica-nos desde cedo que estamos perante uma obra onde nem sempre podemos confiar nos personagens e no futuro que estes vão ter, com Zhang a procurar gradualmente estabelecer contacto com Zhizhen neste espaço citadino marcado por fábricas, prédios elevados, neve, árvores despidas, crimes, mentiras e reviravoltas. Não falta até o clube nocturno, bem típico dos filmes noir, bem como a atmosfera de malaise, os espaços citadinos nocturnos e os personagens de carácter dúbio, com o protagonista a estar longe de ser um exemplo moral. Este até parece ter algumas semelhanças com os protagonistas dos noir, embora falte-lhe a dureza de um Philip Marlowe, para além de optar quase sempre pelo silêncio e não pelas falas sardónicas e confiantes. "Black Coal, Thin Ice" também é uma obra marcada por silêncios, sejam estes causados pela falta de vontade dos envolvidos em falarem, seja pelos momentos não o permitirem, seja para o realizador Diao Yi'nan deixar os seus personagens a expressarem-se pelos seus gestos e olhares (algo que remete imenso para "Night Train", a sua segunda longa-metragem). Pelo meio muitas mentiras e reviravoltas, rara é a investigação que é fácil e "Black Coal, Thin Ice" exibe-nos paradigmaticamente essa situação, bem como a complexidade de um conjunto de crimes que parecem conter uma teia difícil de desfazer.

 A certa altura de "Carvão Negro, Gelo Fino" também nós nos questionamos sobre a inocência ou culpabilidade de Wu Zhizhen, com Gwei Lun-Mei a conceder um mistério latente à sua personagem. Esta pouco fala mas sabemos que guarda segredos por revelar que aos poucos são desvendados em grande parte devido à acção de Zhang Zili. Alguns segredos surpreendem-nos, outros nem por isso, o que parece certo é que esta mulher se preparar para trazer várias mudanças ao quotidiano do protagonista, sobretudo quando este começa a demonstrar interesse pela mesma. Zhang Zili percebe gradualmente que a sua vida pode estar em perigo num território da China marcado pela presença das fábricas, da neve, dos transportes de carvão, embora os actos de alguns personagens sejam mais negros do que este último. Logo de início ficamos perante um crime macabro que resulta num corpo cortado em partes, o qual não vemos a ser cometido mas sim o resultado final do mesmo. Diga-se que muito do que se passa em "Black Coal, Thin Ice" é sugerido e não exibido, com o fora de campo e as elipses a terem um papel importante. Veja-se quando Zhang Zili é atingido, bem como o momento em que supostamente este passa a noite com Wu Zhizhen, para além da entrada do protagonista e de Wang num túnel, no interior de um carro, um momento mágico onde cinco anos se passam. Zhang Zili é um indivíduo solitário e reservado. No início do filme encontramo-lo a divorciar-se. Durante o desenrolar da narrativa encontramos o mesmo a envolver-se numa investigação policial de forma a demonstrar alguma utilidade e satisfazer a sua curiosidade, procurando dar algum "tempero" à sua vida sensaborona. Liao Fan tem em Zhang Zili um personagem que o obriga a uma grande contenção na exibição dos sentimentos, algo visível na forma como expõe as suas falas e até nos seus gestos, com o actor a demonstrar enorme competência. Percebemos que a vida deste personagem já conheceu melhores tempos, com este a ser capaz de cometer actos reprováveis, bem ao jeito dos protagonistas dos filmes noir, num thriller que conta com uma atmosfera inebriante e envolvente. As cores tanto podem surgir bem vivas como nas tonalidades vermelhas que envolvem a dupla de protagonistas num momento mais intenso no carro, como podem aparecer bem discretas, quase esbatidas e desprovidas de vida, remetendo para o próprio enredo que envolve a narrativa (já em “Night Train” Diao Yi'nan tinha efectuado uma paradigmática utilização das tonalidades azuis). O mistério em volta das mortes é gradualmente revelado e o fogo de artifício que surge pelos ares pode significar tudo menos sinal de festa, com Diao Yi'nan a surpreender sobretudo pela forma como controla os segredos e as revelações efectuadas ao longo do enredo, ao mesmo tempo que nos deixa perante dois personagens que estão longe de serem exemplos morais mas conseguem despertar o nosso interesse. Eles próprios parecem a certa altura ter interesse um no outro, mas à boa maneira noir sabemos que nada pode acabar bem entre ambos, sobretudo quando existem tantos interesses pelo meio. Se Dixon Steele e Sam Spade terminam sozinhos em "In a Lonely Place" e "The Maltese Falcon", também Zhang Zili parece poder não vir a ter o mais caloroso dos destinos.

Não deixamos de ter um ou outro momento de maior intimidade entre Zili e Zhizhen, embora por vezes desconfiemos das reais intenções de um e do outro. Zili procura a todo o custo descobrir a ligação desta aos assassinatos, enquanto esta parece procurar ludibriar o mesmo e até a si própria. Ainda patinam no gelo, mas se aí ainda podem aprender a controlar os deslizes, já dominar o destino e apagar o passado parece ser tarefa difícil, algo visível nesta dupla de personagens que deambula por esta pequena cidade. O próprio território parece pouco dado a romances, preenchido por fábricas e edifícios elevados, onde uma lavandaria conta com maquinaria que lava a roupa mas não os pecados da alma. A lavandaria é composta maioritariamente por tonalidades verdes, seja nas máquinas, nas paredes, na luz e até nas plantas, uma cor que simboliza esperança, embora este espaço que é alvo das visitas regulares de Zhang Zili esteja longe de trazer as melhores perspectivas para Zizhen. Se a lavandaria é de pequenas dimensões, já as fábricas que rodeiam este espaço citadino são de proporções elevadas, mas os seus integrantes, tais como Zhang Zili, são figuras muitas das vezes isoladas, num espaço representado como de alienação e não de aproximação (com o filme a efectuar um subtil comentário social na forma como expõe este território como proporcionador da alienação e queda em desgraça). Diga-se que a alienação e solidão humana são temáticas transversais às duas longas-metragens realizadas anteriormente por Diao Yi'nan, bem como as relações emocionais marcadas por segredos por revelar, com “Night Train” a já contar com uma certa atmosfera de malaise e um tom noir. Esse isolamento não impede um estranho relacionamento entre o ex-polícia e a espécie de femme fatale, ao mesmo tempo que vamos ficando com dúvidas sobre estes personagens. Estes são dois elementos em contraste. Ele procura descobrir informação, ela procura escondê-la. O próprio filme é uma obra de contrastes, a começar pelo carvão e a neve, negro e branca, bem como o calor de 1999 e o frio de 2004, espelhando bem as dicotomias desta obra cinematográfica que está longe de ser mais estilo do que substância. Claro que a cinematografia de Dong Jinsong incrementa e de que maneira a obra cinematográfica, algo desde logo visível no citado momento do túnel, bem como na utilização das cores esbatidas para adensar esta atmosfera negra e de algum pessimismo que rodeia o enredo. Misterioso e envolvente, "Black Coal, Thin Ice" recupera com sucesso a atmosfera dos filmes noir, ao mesmo tempo que nos deixa perante um protagonista e uma mulher fatal bem ao jeito destes filmes, embora neste caso os silêncios até dominem sobre os diálogos, com Diao Yi'nan a apresentar uma contenção impressionante na exposição do enredo e dos sentimentos dos seus personagens.

Título original: "Bai ri yan huo".
Título em Inglês: "Black Coal, Thin Ice".
Título em Portugal: "Carvão Negro, Gelo Fino".
Realizador:  Diao Yi'nan.
Argumento:  Diao Yi'nan. 
Elenco: Liao Fan, Gwei Lun-Mei, Wang Xuebing.

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