15 novembro 2014

Resenha Crítica: "Burn After Reading" (Destruir Depois de Ler)

 Joel e Ethan Coen carregam no humor negro para elaborar um filme onde questões ligadas à segurança, privacidade, diplomacia internacional, relações matrimoniais e ao culto do corpo são satirizadas sem apelo nem agravo. O filme em questão é "Burn After Reading", uma obra onde cada personagem é mais peculiar do que o outro, surgindo prontos a cometer erros e a protagonizarem situações estapafúrdias. Inicialmente ficamos perante a apresentação a um variado leque de personagens cujos destinos mais tarde ou mais cedo se vão reunir, entre os quais Osbourne Cox (John Malkovich), um analista da CIA cujo trabalho incidia sobre o território dos Balcãs que é despedido devido aos seus problemas com o álcool. Perante esta situação, Osbourne decide aproveitar o tempo livre para escrever as suas memórias, enquanto Katie (Tilda Swinton), a sua esposa, aproveita a situação delicada para iniciar um processo de divórcio. Diga-se que a relação entre os dois é relativamente fria, com esta a manter um caso com Harry Pfarrer (George Clooney), um indivíduo que trabalha no departamento do Tesouro que é casado com Sandra "Sandy" (Elizabeth Marvel), uma escritora de livros infantis que, por sua vez, também mantém um caso extra-conjugal. Ficamos desde logo perante uma teia de relacionamentos marcada por traições, segredos por revelar e algum cinismo. Somos ainda apresentados a uma equipa que trabalha no ginásio composta por elementos como Chad Feldheimer (Brad Pitt), um indivíduo que surge como o estereótipo do técnico de ginásio, com o cérebro a não acompanhar o físico, pouco dotado para a oratória e comportamentos a fazerem recordar um semi-adolescente no corpo de um adulto; Linda Litzke (Frances McDormand), uma mulher que pretende efectuar várias plásticas para mudar o seu corpo e sentir-se bem consigo própria; Ted Treffon (Richard Jenkins), o gerente do Hardbodies, o ginásio onde os dois primeiros trabalham, um elemento que tem um fraquinho pela personagem interpretada por Frances McDormand. É neste ginásio que uma funcionária do escritório de advocacia onde Katie se encontra a iniciar o processo de divórcio do marido deixa ficar um CD com a informação confidencial de Osbourne, que esta última gravou do computador. Não só a informação das contas bancárias mas também de parte das suas memórias na CIA. O CD é encontrado, com Chad e Linda a procurarem extorquir Osbourne, tendo em vista a ganharem dinheiro, com esta a pensar finalmente poder encontrar os fundos para as suas operações plásticas, a grande obsessão da sua vida. Diga-se que a abordagem que efectuam a Cox não é a melhor, uma situação que conduz a dupla a contactar a embaixada russa, num momento caricato onde ficamos perante a parvoíce extrema destes personagens. Linda ainda inicia um caso com o personagem interpretado por George Clooney, um galã que parece conquistar todas as mulheres mas também é traído pela esposa. Para além destes personagens, temos ainda Palmer (David Rasche) e um supervisor (J.K. Simmons) da CIA, que procuram seguir estes acontecimentos de perto numa obra onde não faltam situações rocambolescas, humor negro, violência e personagens com nomes peculiares que parecem saídos de um manicómio.

 "Burn After Reading" vagueia entre o filme de espionagem e a paródia, acabando por ficar pelas margens de ambos enquanto nos apresenta com algum humor a este conjunto de situações que sobressaem não só devido ao aguçado e cáustico argumento dos irmãos Coen, mas também devido ao elenco competente que interpreta estas figuras peculiares. No caso de John Malkovich este até está "em casa" ao interpretar um ex-analista da CIA com problemas com o álcool, algo deprimido e emocionalmente instável, que se depara com o roubo de informações do seu trabalho que, em bom rigor da verdade, até nem parecem valer assim tanto quanto isso. Claro que Linda e Chad pensam que contam com informação valiosa, com Frances McDormand a ser um dos elementos em maior foco ao longo do filme, ao interpretar uma personagem que representa todos os ideais de superficialidade contemporânea. Linda procura a todo o custo ter um ideal de beleza fora dos padrões normais, com Frances McDormand a nunca deixar esta mulher obcecada pela aparência cair na completa caricatura, ao mesmo tempo que protagoniza alguns momentos sui generis com os personagens interpretados por Brad Pitt, Richard Jenkins e sobretudo George Clooney. Por sua vez, Brad Pitt parece ter um enorme prazer a interpretar um técnico de ginásio com uma série de manias e um penteado deveras peculiar. Diga-se que todos os personagens têm as suas taras e particularidades. No caso do personagem interpretado por George Clooney, o indivíduo que interpreta tem uma série de alergias e gera uma enorme paranoia no seu interior, temendo sempre estar ser espiado. Já no caso de Katie esta apresenta uma frieza aparentemente a toda à prova incluindo quando está a tratar de crianças, algo que não abona muito a seu favor na função de pediatra. O elenco destaca-se mas também o argumento e a realização enérgica dos Coen, num filme recheado de reviravoltas e muito humor, que vagueia entre vários géneros e acabar por nunca se encaixar verdadeiramente em nenhum. Em certa medida até parece surgir como uma sátira aos thrillers políticos dos anos 70, embora alguns personagens até se envolvam numa conspiração que envolve informação secreta, mas tudo é ridicularizado ao longo do filme, incluindo o trabalho da CIA. Por vezes parecem existir alguns excessos, com a conclusão a encaixar-se na perfeição com o desenvolvimento do enredo que muitas das vezes nos parece levar a lado nenhum. O enredo desenrola-se em Washington, local ideal para se desenrolar uma sátira à espionagem e à política, mas também à superficialidade, sempre com alguns diálogos corrosivos e até algum humor de situação à mistura. Não faltam ainda situações caricatas, tais como a morte de um personagem relevante que desperta imensos risos apesar do choque que provoca, uma cadeira com um dildo, uma embaixada russa com um proeminente retrato de Vladimir Putin, uma mulher obcecada pelo seu corpo, um empregado do Departamento do Tesouro obcecado consigo próprio, reuniões hilariantes e inconsequentes entre elementos da CIA, numa obra onde os Coen revelam alguns dos seus momentos de genialidade e um conjunto de personagens que só poderia ter sido criado pela dupla. A informação roubada a Osbourne surge como o McGuffin, servindo muito pouco a certa altura do filme, com "Burn After Reading" a deixar este bando de doidos à solta pelo ecrã enquanto nos vão deliciando com as suas desventuras, parvoíces, taras e planos mirabolantes.

Título original: "Burn After Reading". 
Título em Portugal: "Destruir Depois de Ler".
Realizador: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, Brad Pitt.

Sem comentários: