25 novembro 2014

Resenha Crítica: "Boyhood"

 É reconfortante verificar quando a ambição de um realizador é traduzida com um trabalho de uma valia apenas igualada pelo seu enorme empenho. "Boyhood" é mais um marco na interessantíssima carreira do cineasta Richard Linklater, após nos ter brindado com a inesquecível e marcante trilogia iniciada em "Before Sunrise", o filme de ficção científica "A Scanner Darkly", para além de obras como "Dazed and Confused", "Bernie", entre outras que comprovam estarmos perante um cineasta versátil, claramente acima da mediania. "Boyhood" distingue-se de todos estes filmes ao ter sido filmado, ainda que com várias interrupções, ao longo de doze anos (um total de trinta e nove dias), de forma de a acompanhar o envelhecimento e crescimento em tempo real dos vários elementos do elenco, em particular do jovem Ellar Coltrane, o intérprete de Mason Jr., um dos personagens principais da obra cinematográfica. A obra acompanha Mason desde os seus seis anos de idade até entrar na faculdade, permitindo a Richard Linklater abordar todo um conjunto de peripécias na vida deste jovem e daqueles que o rodeiam, ao mesmo tempo que tem o enorme mérito de despertar as nossas memórias. Podemos não ter vivido todas as mesmas memórias e episódios que Mason, mas é impossível não esboçar um sorriso ao ver o jovem a assistir a "Dragon Ball Z", a ver pela primeira vez o catálogo de lingerie feminina, a lidar com problemas nas mudanças de escola, a encher-se de dúvidas na entrada para a faculdade, a ter o seu primeiro desgosto amoroso, a conviver com os seus pais e a relação complicada com Samantha (Lorelei Linklater), a sua irmã, e verificarmos que muito do que encontramos em "Boyhood", de uma maneira ou de outra, já encontrámos na nossa vida. São pequenos fragmentos da vida de Mason e da sua família que nos são apresentados ao longo do filme, mas também da história e da cultura dos EUA, começando desde logo pela banda sonora com a música Yellow dos Coldplay, passando pela Governação Bush e a eleição de Barack Obama, até ao aparecimento do Facebook e a moda dos ipads e dos iphones, com muito a parecer mudar ao longo desta década. O filme começa em 2002, apresentando-nos a Mason Evans, Jr. (Ellar Coltrane), um jovem que vive com a sua irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater), bem como com a sua mãe, Olivia (Patricia Arquette), no Texas. Olivia e Mason Sr. (Ethan Hawke) separaram-se, embora os filhos ainda acalentem inicialmente a esperança que estes se reúnam. Mason Sr. parece ser mais descontraído, encontrando-se inicialmente no Alasca devido a razões laborais, enquanto Olivia procura ser mais responsável. Esta decide mudar-se com os filhos para poder frequentar a Universidade de Houston e assim poder tirar o mestrado para finalmente poder ter um emprego mais estável e assim poder dar um nível de vida melhor a Mason e Samantha. Na Universidade, Olivia conhece Bill Welbrock (Marco Perella), um professor divorciado com quem vai viver, juntando-se na mesma casa os filhos dos dois elementos do casal. Bill e Mason pouco se relacionam, com o momento em que o primeiro obriga o jovem a rapar o cabelo a ser particularmente tocante. Tudo piora quando os problemas de Bill com o álcool se adensam e conduzem ao final violento da relação, com Mason e Samantha a serem afectados por estes episódios, bem como Olivia. Ao longo do filme esta ainda vai manter mais uma relação, embora quem surpreendentemente consiga estabilidade é Mason Sr. que volta a casar e tem mais um rebento, reunindo-se com os filhos durante os fins de semana e as férias, ao longo de uma obra onde nos deparamos com o tempo a avançar de forma gradual por estes personagens.

 Nas cenas iniciais de "Boyhood" não dá para ficar indiferente. Começa com Yellow, uma das minhas músicas preferidas dos Coldplay e passa para um jovem a ver "Dragon Ball Z" tendo no seu quarto um poster e édredon da mesma série de animação, trazendo-me gratas recordações, quer dos tempos em que o meu quarto era "infestado" de material de Dragon Ball, quer quando os Coldplay faziam música a valer e eu ouvia-os de forma sentida. Os momentos iniciais deixam-nos perante Mason como um jovem de seis anos aparentemente calmo, com o filme posteriormente a abordar episódios da sua vida como a entrada deste na escola, as mudanças devido à profissão e relações da mãe, a relação deste com a irmã, as conversas de cariz sexual com o pai tendo em vista a este avisar para terem precaução nas relações sexuais, as primeiras saídas com os amigos, as primeiras bebedeiras, entre vários outros momentos. A banda sonora acompanha a mudança dos tempos, mas também as alterações físicas dos personagens, sendo assombroso verificar as transformações de Ellar Coltrane e Lorelei Linklater, ao mesmo tempo que encontramos a própria Patricia Arquette e o actor fetiche de Linklater, Ethan Hawke, a apresentarem alguns sinais da passagem do tempo. Richard Linklater joga com a passagem do tempo na vida de um jovem e da sua família, criando um argumento coeso que é capaz de sustentar todo o universo narrativo que envolve o jovem numa história que se desenrola ao longo de um período alargado de tempo. Os personagens e os seus relacionamentos ganham características muito próprias que vão sendo exploradas pelo desenrolar do enredo, com vários dos episódios que estes viveram a terem uma clara influência nos seus comportamentos e na sua formação como seres humanos. O primeiro desgosto amoroso permite a Mason ter uma visão menos apolínea do amor, tal como a sua interacção nas redes sociais o faz perceber que nada substitui o mundo real, ganhando pelo caminho uma paixão pela fotografia e a noção que ainda pouco sabe sobre a vida. Se no início do filme este ainda ansiava por ver os pais a voltarem a juntar-se, com o avançar do filme percebe que as relações humanas não são assim tão lineares, algo que acontece com a sua irmã. Samantha, a mais espevitada, nem sempre se dá bem com o irmão mas parece ganhar mais confiança com o mesmo com o avançar da idade. Pelo meio temos os adultos, tão interessantes como os mais jovens, com Patricia Arquette e Ethan Hawke a sobressaírem como os respectivos personagens que interpretam ao longo desta arriscada obra cinematográfica, com ambos os elementos a amadurecerem com o avançar da narrativa. Essa situação fica latente quando Mason Sr. salienta ao filho quase no final do filme que passado todo este tempo tornou-se no homem que Olivia queria que ele fosse, embora agora seja casado e feliz, com o tempo a modificá-lo. Já Olivia percebe que tomou muitas opções amorosas erradas, mas tudo fez parte de um processo de crescimento, quer para os adultos, quer para as crianças, onde os erros foram essenciais. O método escolhido para as filmagens é mais inovador do que a sua história, mas o que mais surpreende é a capacidade de Richard Linklater em captar as subtilezas do quotidiano destes personagens, ao mesmo tempo que as integra no contexto mais lato dos EUA e da sua cultura. Veja-se as críticas do personagem interpretado por Hawke a George W. Bush, o seu apoio a Obama, as modas de cada época, seja no vestuário, nos jogos de vídeo, nos livros (veja-se a febre do lançamento do novo livro da saga "Harry Potter"), nas redes sociais e até nos veículos utilizados, ao mesmo tempo que o argumento dota o filme de um conjunto de diálogos que parecem saídos do quotidiano de qualquer um de nós, surgindo bem reais junto de nós. Diga-se que o argumento foi muitas das vezes elaborado com a colaboração dos actores e actrizes, em alguns momentos até um dia antes das filmagens, com Richard Linklater a dar alguma liberdade ao seu elenco no processo de criação dos personagens, algo que já tinha efectuado com magníficos resultados na trilogia "Before".

 Linklater não é um cineasta com medo de correr riscos e volta-o a provar em "Boyhood". Se na trilogia iniciada em "Before Sunrise" Richard Linklater despertou os sentimentos mais quentes dos espectadores, já em "Boyhood" prepara-se para nos a apresentar a trechos de uma vida ficcional que parece imensamente real, ao mesmo tempo que deixa vir ao de cima o nosso lado mais nostálgico enquanto nos recordamos da nossa infância, adolescência e entrada na idade adulta. Curiosamente muitas das dúvidas que tinha na entrada para a Faculdade, tal como Mason, continuo a mantê-las nos dias de hoje. Não sei o que o futuro me reserva, profissionalmente falando o nevoeiro persiste, restando aproveitar os momentos ou deixar que estes se aproveitem de mim e apreciar obras cinematográficas como "Boyhood". Provavelmente não é a obra com a cinematografia mais memorável, mas talvez tenha sido das estreias de 2014 aquela que mais me tocou do ponto de vista pessoal, fazendo-me quase que regressar ao passado, recordar elementos e episódios importantes, pessoas que já fizeram parte da minha vida e deixaram de fazer, pedaços de mim que se foram transformando com o tempo, com a jornada de Mason a prestar-se a fazer com que recordemos as jornadas das nossas vidas ainda por completar. No cerne de tudo encontra-se também a relação entre pais e filhos, neste caso, de Mason Jr. e Samantha com Mason Sr. e Olivia, com esta a conhecer várias alterações ao longo do tempo. Patricia Arquette tem um momento particularmente tocante quando Mason Jr se prepara para sair de casa, começando a entrar em pânico por ver que boa parte dos principais marcos da sua vida já foram alcançados, restando-lhe apenas a morte. O momento pode parece algo melodramático no papel mas exemplifica paradigmaticamente o medo da solidão desta mulher e  dos pais quando vêm os seus filhos crescerem e sairem da sua alçada, com o filme a procurar manter sempre o seu tom realista. É um real num meio ficcional, numa obra capaz de nos tocar de forma profunda, não pelo sonho de um amor impossível como o de Jesse e Celine, mas acima de tudo pela sua capacidade de nos fazer recuperar memórias e ao mesmo tempo apresentar-nos com enorme sobriedade a um conjunto de personagens profundamente humanos. Richard Linklater incita-nos ainda a seguir a vida dos seus personagens, por vezes de forma quase voyeurista, ao mesmo tempo que nos faz reflectir sobre os mesmos e os seus relacionamentos, sempre com um ritmo fluido que faz com que as suas cerca de duas horas e quarenta minutos passem de rompante. O trabalho de montagem de Sandra Adair também é essencial para o filme funcionar, com tudo a avançar de forma perfeitamente natural, sem avisos do avançar de cada ano, com "Boyhood" a destacar-se por todos os elementos já citados em relação às várias histórias de transição para a idade adulta. Já na trilogia "Before...", Richard Linklater tinha-nos deixado perante a sua dupla de personagens em diferentes períodos de tempo da sua vida e maturidade, mas em "Boyhood" este concentra as alterações do seu protagonista e daqueles que o rodeiam num único filme, num estilo quase documental que parece e quase consegue captar a realidade. Ambicioso, terno, comovente, por vezes com alguns momentos de humor, "Boyhood" é uma longa-metragem fascinante e intensa do ponto de vista emocional, sendo capaz de nos fazer recordar a nossa própria juventude e apresentar a uma história surpreendentemente coesa tendo em conta a forma como a obra foi filmada.

Título original: "Boyhood".
Título em Portugal: "Boyhood: Momentos de Uma Vida".
Realizador: Richard Linklater.
Argumento: Richard Linklater. 
Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater.

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