19 novembro 2014

Resenha Crítica: "Blow-Up" (História de Um Fotógrafo)

 Envolvente, sedutor, meio surreal, intenso e misterioso, "Blow-Up" liga cinema e fotografia, erotismo e frieza, sarcasmo e sedução, morte e vivacidade, ilusão e realidade, naquela que é a primeira obra cinematográfica de Michelangelo Antonioni totalmente falada em inglês, resultando de um acordo elaborado com a MGM que lhe dava total liberdade para elaborar o filme. O resultado final é uma obra estimulante, marcante, envolvente, sensual, libertadora de amarras e censuras, onde um fotógrafo arrogante, algo bon vivant e dandy procura fotografar um casal a namoriscar num parque e depara-se com um possível assassinato ao revelar as fotos. Estava no local errado à hora errada ou provavelmente no local certo à hora certa, escolham vocês a melhor opção, pois para Thomas (David Hemmings), um fotógrafo com uma personalidade forte, este foi certamente um momento que lhe deixou alguma marca. Este tem uma relação de enorme respeito pela fotografia e pela arte. Pelas modelos nem tanto, sobretudo quando apresentam uma inexpressividade, futilidade e banalidade que não lhe agradam, algo que conduz a um episódio de enorme humor no seu estúdio onde diz a um grupo de mulheres para ficar de olhos fechados a aguardar, após várias fotografias mal sucedidas. Este considera que as modelos é que são privilegiadas por tirarem fotos consigo, apresentando uma confiança e arrogância desmedidas, apenas igualadas pelo seu talento e excitação quando sente que pode estar perante alguém especial para o seu material de trabalho e não só. Quando fotografa Veruschka (com Veruschka von Lehndorff a interpretar uma versão ficcional de si própria), estes momentos rodeiam-se de enorme sensualidade e erotismo, com o aproximar dos corpos de ambos em conjunto com a máquina a quase metaforizar um acto sexual onde a fotografia perfeita parece igualar um orgasmo. É um momento de grande sensualidade, onde a câmara de filmar nos transmite esta relação de proximidade entre fotógrafo e fotografada, tal como é capaz de evidenciar o distanciamento deste das modelos de que se farta com enorme facilidade. Este comportamento ríspido para com algumas das suas modelos nem por isso impede este seja pretendido por várias aspirantes a modelo, incluindo as personagens interpretadas por Jane Birkin e Gillian Hills, duas mulheres que o perseguem para uma sessão fotográfica. Este prefere antes ir comprar uma hélice numa loja de antiguidades e tirar umas fotografias às escondidas a um casal de amantes no Parque Maryon. Antonioni deixa-nos perante alguns planos distanciados dos personagens, de forma a que consigamos ter uma noção deste espaço verdejante e de largas proporções onde um crime é supostamente cometido no meio de um aparente momento de intimidade e felicidade. Jane (Vanessa Redgrave), a mulher fotografada, logo descobre Thomas, algo que a conduz a imediatamente pretender que este lhe entregue o negativo com as fotos, gerando uma obsessão pelo objecto que contém a ansiada informação. Entretanto Thomas ainda se reúne com Ron, um amigo e elemento responsável pela edição de um álbum que conta com fotos suas, procurando concluir com uma das fotos tiradas no jardim.

Pouco tempo depois, Jane aparece na casa de Thomas. De camisa axadrezada, pronta a simbolizar a prisão em que esta se encontra em relação às fotografias tiradas por Thomas e aos actos que cometeu, esta procura a todo o custo recuperar o rolo. Chega até a retirar a sua camisa (deixando ficar o seu lenço sobre os seios desnudados) e beijar o protagonista, mas este dá-lhe um rolo onde não consta todo o material. É então que começa a revelar os negativos e a perceber que ocorreu possivelmente um assassinato, com Michelangelo Antonioni a exibir o poder das imagens (seja este revelador ou ilusório), estejam estas em movimento ou estáticas, em fotografias, enquanto o protagonista fica estupefacto perante a série de acontecimentos que constrói a partir das fotos. Claro que pelo meio esta cena de maior seriedade é quebrada pela chegada das modelos interpretadas por Jane Birkin e Gillian Hills, com estas a envolverem-se num conjunto de cenas marcadas por enorme sensualidade e erotismo, quer entre si, quer com Thomas, onde as roupas se despem e toda a tensão das descobertas das fotografias é quebrada pela luxúria destes momentos. No centro de tudo acaba por estar Thomas, com David Hemmings a atribuir um enorme dinamismo a este personagem, um elemento que por vezes fala a uma velocidade assinalável, com um conjunto de enormes manias, que tanto é capaz de desfrutar do prazer de tirar uma fotografia como se estivesse a fazer sexo como logo de seguida pode ter uma enorme dose de tédio a fotografar modelos. Existe pelo meio uma crítica ao vazio das modelos, incapazes de se expressarem, num thriller psicológico onde a paranoia e o erotismo se encontram muito presentes, mas também a contracultura. Veja-se desde logo as fotos e as manifestações anti-guerra pelas ruas (estamos em plenos anos 60), bem como o próprio estilo de vida do protagonista e o concerto do último terço onde não falta uma participação memorável dos The Yardbirds, que cantam o tema "Stroll On" e evocam os The Who quando Beck destrói uma guitarra. O próprio filme foi um marco pela forma como desafiou as barreiras da censura do Motion Picture Production Code, tornando-se um sucesso de bilheteira e de crítica, algo que tornou o mesmo ainda mais obsoleto. Não faltam cenas de nudez e sexo, exibição de uma morte através de fotos, sedução, erotismo, numa obra onde as próprias imagens em movimento nos seduzem, com a cinematografia de Carlo Di Palma (um dos colaboradores habituais do cineasta) a sobressair, bem como os planos longos e os planos sequências de Antonioni. A cor tem um papel importante, bem como a iluminação, com os momentos praticamente desapossados de luz, quase em tons ocre do laboratório, a atribuírem ainda maior mistério aos momentos de revelação das fotos e dos acontecimentos que estas retratam. Já na cena da orgia com as duas modelos as cores surgem bem vividas, desde as roupas que estas vão retirando, passando pelas suas collants, até ficarem desnudadas perante uma divisória de papel que descem, contribuindo para uma cena que vagueia entre o erotismo e surreal. Temos ainda as cinco modelos de que Thomas se enfada, vestidas cada uma de forma distinta e moderna, mas com pouco a parecer combinar, no interior de um estúdio branco onde a sua presença parece contrastar com todo o estilo do protagonista.

 Michaelangelo Antonioni apresenta um enorme respeito pela imagem através do seu protagonista. Este é um fotógrafo com um feitio irascível, tanto capaz de comprar uma hélice só porque sim, como é capaz de ter momentos de génio a tirar fotos, como de seduzir as mulheres. Em certa parte até nos faz recordar os problemáticos protagonistas dos filmes noir, sarcástico, algo pragmático, capaz de se envolver em problemas diversos, tendo em Jane uma femme fatale que o intriga. Esta é interpretada por Vanessa Redgrave, apresentando uma obsessão inicial pelos negativo das fotografias de forma suspeita, procurando até seduzir o protagonista. Tira a sua camisa axadrezada mas não despe nos seus diálogos e no seu rosto as suas reais intenções, existindo um certo jogo de sedução entre Jane e Thomas, com Vanessa Redgrave e David Hemmings a sobressaírem. Pelo caminho encontramos ainda um conjunto de mimos pela rua, em alguns momentos delirantes de uma obra onde o protagonista acaba por nem sempre ser consequente nas suas acções. Nem sempre percebemos porque não contacta logo a polícia após ver as fotos. Diga-se que pelo caminho ainda tem de se preocupar em satisfazer duas modelos e o seu ego, ao mesmo tempo que procura regressar ao local do crime. No final, as provas são poucas, as incertezas são muitas, mas o que mais vale acima de tudo é esta estimulante jornada protagonizada por este fotógrafo. Anda muito de carro, com a câmara de filmar a proporcionar alguns planos que ficam na retina quando este conduz pelas estradas, fala por um comunicador e ficamos perante vários cenários deste espaço citadino britânico. A cidade de Londres, ou melhor a "Swinging London", a cultura dos anos 60, a capital frenética, onde não falta todo um conjunto de loucos acontecimentos, com o protagonista a desprezar e ao mesmo tempo a usufruir da futilidade que o rodeia, num local cosmopolita onde nem por isso deixa de ser algo solitário. O próprio protagonista terá sido inspirado em David Bailey, um fotógrafo britânico bastante conhecido nos anos 60, numa obra cujo argumento teve como base o conto "Las babas del diablo" de Julio Cortázar. O sucesso de "Blow-Up" viria ainda a inspirar obras como "Blow Out" de Brian De Palma e até "The Conversation" de Francis Ford Coppola, com Antonioni a conseguir criar algo de memorável, que mexe com os sentidos e a mente, que nos inebria e nos transcende. Aquando do seu lançamento, "Blow-Up" causou polémica pela nudez, feriu susceptibilidades, gerou paixões na crítica mas também o ódio de Pauline Kael, consumando Antonioni como um dos grandes cineastas do seu tempo. Depois de conseguir o êxito em Itália com obras como "L'avventura", "La Notte", "L'eclisse", "Il Deserto Rosso", Michelangelo Antonioni aventura-se por outros territórios com sucesso, numa obra pronta a seduzir-nos perante toda a sua atmosfera delirante. Não faltam mortes, nudez, fotografias tiradas em alturas indevidas, sexo, drogas, momentos non-sense, num filme onde mais do que resoluções Michelangelo Antonioni oferece-nos sensações e emoções, onde as imagens cativam-nos, a história fascina-nos, a banda sonora atribui um ritmo único ao filme e o erotismo surge como um tempero adicional desta atraente obra cinematográfica.

Título original: "Blow-Up".
Título em Portugal: "História de Um Fotógrafo". 
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra e Edward Bond.
Elenco: David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles, Jane Birkin. 

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