12 novembro 2014

Resenha Crítica: "Battle Royale" (2000)

 Durante a sua infância e adolescência, certamente terá vivido muitas emoções e experiências no interior e fora das salas de aula. Mas já imaginou viver numa sociedade em que os adolescentes fossem obrigados a se assassinarem uns aos outros? Os protagonistas de “Battle Royale” certamente não esperariam que um dia fossem transportados para uma ilha onde o Professor Kitano (Takeshi Kitano) os liderasse num macabro jogo de sobrevivência, em que apenas um pudesse sobreviver. Inspirado no popular livro “Batoru Rowaiaru” de Koushun Takami, o realizador Kinji Fukasaku transporta-nos para um futuro distópico, no interior do território japonês. Longe da utopia do crescimento económico e da preservação dos direitos humanos, este futuro é eivado de violência, a qual pontua as leis e os actos do homem a ponto de justificar, por si só, a aprovação de uma lei conhecida como o Acto BR, que consiste na escolha de um grupo de estudantes que terá de digladiar-se até à morte ao longo de três dias, tendo como única regra o facto de praticamente não existirem limites para a matança. A turma seleccionada é a da Escola Secundária nº4 de Zentsuji, escolhida entre 43 mil turmas do 9º ano de escolaridade, com cada elemento a deparar-se com a crua realidade. Como refere Kitano: “A lição de hoje é matarem-se uns aos outros até não sobrar nenhum. Vale tudo”. Como é que os seres humanos chegaram a um desespero tal para permitir a aprovação de uma lei como esta? No prólogo é explicado ao espectador que a situação do Japão, no início do Milénio, é marcada por uma taxa de desemprego de 15%, o que equivale a mais dez milhões de desempregados e a um grande número de jovens revoltados que partem imediatamente para a violência, algo que leva o Governo a aprovar a Lei da Reforma Educacional do Milénio, mais conhecida como Lei Battle Royale, para evitar a anarquia e subjugar os jovens. É neste contexto violento que alguns grupos de alunos são lançados para o interior da ilha de Okishima, um cenário claustrofóbico em que a cada virar da esquina pode estar a sua sentença de morte, onde a paranóia toma conta da mente dos personagens, que raramente conseguem confiar em alguém e aos poucos acabam por ceder à pressão. Logo no início da presença destes jovens na ilha, estes ficam perante as explicações do violento professor Kitano e um vídeo recheado de humor negro, capaz de despertar alguns risos apesar das instruções da apresentadora serem tudo menos apolíneas. Diga-se que a violência que espera este grupo de jovens é exposta logo quando estes ainda se encontram na sala do Professor Kitano com este a atirar uma faca contra a cabeça de uma aluna que sussurrava para uma colega e Nobu, outro dos estudantes, a ver o sinalizador que todos trazem ao pescoço a explodir e eliminá-lo de forma sangrenta após procurar contrariar as ordens. Com a morte a surgir como um destino mais do que provável, a vida é a sorte que todos os adolescentes irão desesperadamente procurar, mesmo que, para isso, tenham de assassinar violentamente aqueles que, outrora, eram os melhores amigos. Entre este universo de degradação moral, violência, sangue e dissimulação, dois personagens destacam-se dos restantes: Shuya Nanahara (Tatsuya Fujiwara) e Noriko Nakagawa (Aki Maeda). O primeiro era amigo de Nobu, um elemento assassinado logo nos momentos iniciais do filme, e fez a si próprio a promessa de proteger Noriko, a amada do companheiro, embora acabe por desenvolver sentimentos por esta. A segunda é uma das poucas personagens que consegue manter-se moralmente estável no meio de todo o clima de desespero, onde a morte parece ser o destino mais provável.

A cada jovem é atribuída uma arma, que tanto poderá ser uma faca, como uma uzi, ou até um machado e uns binóculos, entre todo um leque de objectos que podem servir melhor ou pior os personagens ao longo destes três dias. Ao longo de toda a jornada, Shuya e Noriko deparam-se com estranhos e diferentes personagens que, apesar de reagirem de maneira diferente, partilham o mesmo objectivo: saírem vivos de Okishima. Entre esses elementos vale a pena salientar Kawada (Taro Yamamoto), um indivíduo que diz ter vencido uma das missões Battle Royale, em quem estes vão confiar. Kawada é um elemento aparentemente ponderado, embora seja difícil prever o que esperar deste, ao contrário de Kiriyama (Masanobu Ando), um elemento sanguinário que parece matar cada elemento por diversão. Formam-se ainda grupos de rapazes (onde se encontra Shinji Mimura, um jovem que procura hackear o sistema militar que os cerca) e raparigas que procuram a salvação, mas parece certo que mais tarde ou mais cedo estes podem vir a ceder ao desespero. No final só pode restar um, embora alguns elementos procurem quebrar essa tendência, incluindo Shuya, Noriko e Kawada, um trio que em alguns momentos se separam e as suas vidas parecem estar em constante perigo. A violência percorre praticamente todo o enredo de “Battle Royale”. Seja esta física ou emocional, a verdade é que todos os jovens personagens são conduzidos, ao longo de toda a sua macabra jornada, a um labirinto emocionalmente adverso do qual sairão, provavelmente, sem vida. São jovens que deveriam estar a vivenciar situações típicas da transição para a idade adulta, mas que, ao invés disso, lidam com um futuro incerto, em que uma morte violenta é o destino mais do que provável. Com tanta violência, morte e sangue a rechear quase todo o enredo deste enérgico filme, é compreensível toda a controvérsia que “Battle Royale” causou aquando a sua exibição inicial, embora isso não tenha impedido de se ter transformado num dos grandes êxitos das bilheteiras japonesas e de manter uma grande popularidade junto da comunidade cinéfila. Ao terminarmos de ver o filme, percebemos o porquê do grande sucesso deste filme. Kinji Fukasaku, um cineasta com uma carreira recheada de filmes ligados aos elementos da yakuza, aproveita uma premissa perturbadoramente interessante para convidar o espectador a entrar numa jornada voyeuristica de violência, sangue, morte, paranóia e música clássica, enquanto um grupo de jovens adolescentes perece, um a um, no meio de uma ilha sufocante, emanante de um odor exacerbado a desespero e a morte. Uma ilha onde a réstia de inocência da infância dos personagens perde-se e obriga-os a crescerem prematuramente, enquanto procuram sobreviver neste território onde vale a “lei do mais forte”, no qual se assiste à exacerbação do “Darwinismo social” levada ao extremo, em que apenas os mais aptos são capazes de vencer.

 Será possível manter a humanidade e a ponderação perante este contexto? Parece complicado, mas alguns personagens parecem conseguir fazê-lo com algum sucesso. É certo que alguns até aceitam com facilidade o actor de matar, mas outros parecem imbuídos de enorme desespero, encontrando-se numa terrível situação de vida ou morte. Para interpretar estes elementos foram seleccionados vários jovens actores, dos quais sobressaem Tatsuya Fujiwara como Shuya Nanahara e Aki Maeda como Noriko Nakagawa. Fujiwara destaca-se ao atribuir uma personalidade algo ingénua e credível ao seu personagem, um individuo solitário, que perdeu a sua mãe e o seu pai, acabando por começar a nutrir sentimentos por Noriko no meio de um cenário emocionalmente devastador. Por vezes exagera nos histerismos, mas é algo de natural se tivermos em conta o contexto que cerca estes personagens. Maeda dá vida a uma personagem feminina coerente aos seus princípios, embora a situação complicada em que se encontra propicie exactamente o contrário. A dinâmica entre estes dois actores beneficia e muito o filme, com estes a serem capazes de darem uma credibilidade notória aos acontecimentos vividos pelos seus dois personagens. Vale ainda a pena realçar actores como Masanobu Ando, que dá vida a um psicopata cuja presença surge sempre rodeada de um aura de perigo, bem como Taro Yamamoto, o actor que interpreta o misterioso e aparentemente confiável Kawada. A nível dos elementos mais velhos do elenco, quem sobressai mesmo é Takeshi Kitano como o Professor Kitano, um indivíduo que lidera os seus alunos para a matança, embora conserve uma faceta de pai de família que raramente é explorada pela narrativa. Kitano atribui um misto de violência e humor negro à trama num estilo muito próprio, em que a sua face parece reprimir os sentimentos pouco pacíficos que guarda no interior da sua alma. Parece tirar um prazer enorme da morte, embora também seja capaz de dar um guarda-chuva para proteger o casal de adolescentes, parecendo certo que não perdeu totalmente os seus sentimentos no interior de uma sociedade pervertida a nível de valores. A morte parece fazer parte do seu quotidiano e diga-se que, ao longo de toda a obra cinematográfica, também faz parte do nosso, embora muitas das vezes estas mortes não causem a ressonância esperada visto que pouco ou nenhum contacto tivemos com alguns dos jovens. Vários dos personagens secundários surgem apenas como números prontos a serem acrescentados à lista para abate, enquanto se digladiam em direcção à morte. No entanto, as mortes não deixam causar algum choque, sobretudo devido à violência incutida nas mesmas. A violência é uma constante ao longo de quase todo o filme, surgindo para realçar a condição selvagem e até niilista a que o ser humano é capaz de chegar quando estão em causa a sua sobrevivência e integridade física, mas também para expor as formas distintas como este reage às adversidades. Veja-se que alguns personagens entregam-se ao desespero e loucura, capazes de matar tudo e todos, mesmo aqueles que outrora foram seus amigos, outros entram em pânico e paranóia, e outros ainda criam alianças improváveis, entre outros comportamentos que permitem ao filme ser um belo retrato sobre a condição humana em condições de enorme adversidade.

No meio de tanta violência e morte, contrastada pelos valores morais defendidos por Shuya Nanahara e Noriko Nakagawa, sobressai ainda a magnifica banda sonora, que mescla temas contemplativos e épicos de música clássica, mesclados com cenas violentas que realçam a brutalidade presente em algumas imagens em movimento. “Battle Royale” é filme perturbador sobre uma sociedade que bem poderia ser a nossa, num futuro próximo. Veja-se que este é um futuro em que o desemprego apresenta marcas históricas, no qual os jovens se decidiram revoltar, e onde uma das medidas para controlar as revoltas da população passaram pelo Acto BR, uma lei que define aleatoriamente um grupo de jovens adolescentes e condena-os à morte. Ao longo de todo o filme, somos conduzidos a um cenário claustrofóbico, recheado de morte, desespero, degradação moral e muita violência, ao mesmo tempo que podemos avaliar como o ser humano pode reagir de diferentes maneiras quando colocado perante situações extremas. A própria ilha onde se encontram os personagens parece propiciar toda esta situação, com esta a surgir como um local claustrofóbico, onde as noites surgem marcadas pelas tonalidades azuis e a pouca iluminação e os dias começam com os anúncios dos mortos. A atmosfera é de desespero e violência, ao mesmo tempo que ficamos perante um estudo do comportamento humano perante a adversidade e um programa que surge quase como um reality show. Veja-se quando no início do filme ficamos perante a chegada da vencedora de um programa, em grande pompa e circunstância, ensanguentada e com expressões no seu rosto que indicam algum desequilibro. Ao terminarmos de visionar “Battle Royale” acerca-se a dúvida na nossa pessoa do que faríamos numa situação como esta. Iríamos aderir ao histerismo colectivo, começar a matança e procurar, pura e simplesmente, sobreviver? Iríamos procurar aliar-nos a alguém para tentar escapar a toda a loucura e matança? Iríamos apenas fugir e esperar pela sorte? Cometer suicídio? Um dos pontos fortes de “Battle Royale” é o facto de colocar o espectador a interrogar-se sobre o que está a ver no grande ecrã e a forma como todo o enredo acaba por representar uma alegoria ao de que pior tem o ser humano, numa sociedade privada de valores em que os seres humanos contam apenas como números que devem ser controlados. O filme terá ainda servido como fonte de inspiração para obras como "The Hunger Games", embora apresente uma crueza bem superior à da obra de Katniss, com Kinji Fukusaku a não poupar os seus personagens e os seus espectadores a festins de violência e gore, encontrando-se mais preocupado em explorar as situações destes quando são colocados no limite do que em guarda-roupas, maquilhagens e efeitos especiais espalhafatosos. Diga-se que "Battle Royale" é tudo aquilo que "The Hunger Games" queria ser e raramente consegue apresentando uma visceralidade e crueza que dão 10 a 0 à saga de Katniss. Violento, intenso, completamente arrebatador, “Battle Royale” é um filme que coloca os sentimentos do espectador no limite e desafia-o a entrar numa forte jornada de violência emocional, marcada pela busca da sobrevivência no meio de um cenário claustrofóbico e mortífero.

Título Original: "Batoru Rowaiaru"
Título em Portugal: “Battle Royale”
Realizador: Kinji Fukasaku.
Guião: Kenta Fukasaku.
Elenco: Tatsuya Fujiwara, Aki Maeda, Taro Yamamoto, Chiaki Kuriyama, Kou Shibasaki, Masanobu Ando, Takeshi Kitano.

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