13 novembro 2014

Resenha Crítica: "Baby Face" (A Mulher que Nos Perde)

 Barbara Stanwyck seduz, encanta, engana e conquista como Lily Powers, a protagonista de "Baby Face", uma mulher ambiciosa que parece disposta a tudo para subir na vida. Os momentos iniciais de "Baby Face" deixam-nos perante o quotidiano de Lily no bar do seu pai (Robert Barratt), localizado em Erie, na Pennsylvania, durante os anos 30. Esta é alvo de todas as atenções e piropos por parte dos homens, surgindo como um objecto de desejo para os vários clientes deste espaço, que vende álcool ilegalmente durante o Volstead Act. O pai de Lily sabe da beleza da filha e das vantagens que pode retirar da presença da mesma, procurando que esta preste outro tipo de serviços a Ed Sipple, um político que poderá ou não fechar o bar se esta não ceder aos seus desejos. Temos momentos de alguma tensão sexual, sobretudo se tivermos em consideração a época em que "Baby Face" foi filmado e lançado, que terminam com Lily a partir uma garrafa na cabeça do seu interlocutor, após a câmara de filmar focar inicialmente o corpo desta como se fosse o olhar de Ed, expondo "as curvas" da actriz perante o espectador. O pai logo se enfurece mas esta também não tem problemas em expor o ressentimento que tem por ter ficado a viver com o mesmo desde que a mãe partiu. Diga-se que o personagem interpretado por Robert Barratt não dura muito tempo na narrativa, falecendo durante uma explosão que ocorre na destilaria ilegal que tem nas imediações do bar. Lily decide seguir os conselhos de Adolf Cragg (Alphonse Ethier), um elemento que a apresenta às teorias de Friedrich Nietzsche, instigando-a a utilizar a beleza e inteligência para dominar os homens. Esta parte para Nova Iorque, acompanhada por Chico (Theresa Harris), uma amiga e antiga colega de trabalho, começando desde logo a exercer o seu poder de sedução ao utilizar o seu corpo para conseguir que um funcionário do comboio as deixe viajar de forma ilegal. Não vemos o acto sexual em si, mas este fica implícito quando o elemento masculino atira com as suas luvas para o chão e as luzes se apagam. Em Nova Iorque, Lily e Chico deparam-se com uma nova realidade, incluindo um conjunto de luxos com os quais nunca tinham deparado. Lily quer saber como uma mulher conseguiu ter todos os luxos a nível de vestuário e automóvel, aprendendo com facilidade como chegar ao topo. A personagem interpretada por Barbara Stanwyck decide empregar-se no banco Gotham Trust, localizado numa torre elevada. Alfred E. Green filma o edifício desde baixo até ao alto, procurando expor a sua grandeza e a escalada que esta vai efectuando de conquista em conquista, até chegar ao topo. Começa por Pratt, um elemento dos recursos humanos, até integrar o Departamento de Arquivo onde conquista Jimmy McCoy Jr. (John Wayne ainda num papel de pouco relevo). Este recomenda-a a Brody (Douglass Dumbrille), o director do Departamento de Habitação, que logo a faz ascender hierarquicamente integrando-a sob a sua alçada. Jimmy logo é descartado, enquanto Brody, um homem casado e com filhos, torna-se a nova conquista desta. A descoberta do caso conduz a que Brody seja despedido por Ned Stevens (Donald Cook), um indivíduo que cai no canto da sereia, que a integra no Departamento de Contabilidade. Escusado será dizer o que vai acontecer entre ambos, com J.P. Carter, o Primeiro Vice-Presidente, e pai da noiva de Ned, a também cair nas garras e esquemas de Lily, com esta a lidar com estes homens como se fossem instrumentos para a sua ascensão social, enquanto os elementos masculinos encontram na "Baby Face" uma fonte de prazer.

Lily descarta os homens quase com a mesma facilidade que os seduz, algo que lhe promete trazer problemas e aos elementos que a rodeiam. Barbara Stanwyck brilha como esta personagem deliciosamente cínica, forte e sensual, capaz de utilizar o seu corpo, a sua inteligência e personalidade para conquistar os homens, apenas traída por um final moralista num filme pré imposição do Código Hays, algo que permite explorar algumas cenas e temas considerados quentes para a época. O corpo é a principal arma de Lily, mas também a sua inteligência, com esta a saber como ludibriar e jogar com os desejos dos homens numa obra relativamente padronizada e marcada por algum erotismo, elevada pela realização de Alfred E. Green e a magnífica interpretação de Barbara Stanwyck. Encontramos nesta já traços de femme fatale "à la Phyllis Dietrichson", com o próprio guarda-roupa a representar a ascensão da protagonista a nível de carreira e socialmente, embora os seus valores morais pareçam descer cada vez mais. Esta mantém a amizade com Chico, apesar de "Baby Face" voltar a brindar-nos com o cliché dos filmes da época da criada negra, com esta a trabalhar posteriormente para a protagonista, tendo de esconder a relação de amizade entre as duas. Também os casos de Lily têm muitas das vezes de ser escondidos, sobressaindo as relações desta com Brody, J.P. Carter e Courtland Trenholm (George Brent), em particular com este último. A relação com Carter conduz a uma desgraça que leva Trenholm a assumir a presidência do banco. Trenholm apresenta uma atitude inicialmente fria para com a protagonista, embora mais tarde acabem por se envolver, com George Brent e Barbara Stanwyck a apresentarem uma química relativamente convincente. O próprio argumento de Gene Markey e Kathryn Scola, elaborado a partir de uma história de Mark Canfield (o pseudónimo de Darryl F. Zanuck), apresenta uma enorme eficácia a explorar de forma concisa os casos de Lily e a sua ascensão no interior do edifício do Gotham Trust, dando particular atenção a Trenholm, numa obra que apresenta temas polémicos para a época, tais como a sexualidade, o adultério, para além dos suicídios, prostituição, violência, alcoolismo, imoralidade, uma situação que conduziu Mark A. Vieira a considerar que "'Baby Face' was certainly one of the top 10 films that caused the Production Code to be enforced". "Baby Face" explora de forma eficaz e concisa a premissa base, colocando-nos perante um veículo ideal para Barbara Stanwyck brilhar e dominar a narrativa. O argumento não inventa, a realização de Alfred E. Green é sóbria e cumpre no essencial, embora "Baby Face" peque um pouco por um final que parece claramente imposto pelo estúdio que quebra um pouco do que vinha a ser a linha comportamental da protagonista. Diga-se que o estúdio foi obrigado pela MPPDA (Motion Picture Producers and Distributors of America) a efectuar diversas alterações, com o final a surgir claramente como uma dessas concessões que a Warner Bros. teve de efectuar. No entanto, a interpretação de Barbara Stanwyck faz valer o preço do bilhete e justifica todos os elogios que lhe possamos efectuar, com esta a interpretar de forma bastante viva uma mulher aparentemente comum que consegue ascender gradualmente graças ao seu corpo e à forma como o utiliza.

Título original: "Baby Face".
Título em Portugal: "A Mulher que Nos Perde".
Realizador: Alfred E. Green. 
Argumento: Gene Markey e Kathryn Scola.
Elenco: Barbara Stanwyck, George Brent, Donald Cook, Alphonse Ethier, Henry Kolker.

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