06 outubro 2014

Resenha Crítica: "A Walk Among the Tombstones" (O Caminho Entre o Bem e o Mal)

 Scott Frank parece ter estudado a lição de como realizar uma obra cinematográfica neo-noir, incutindo diversos elementos deste subgénero em "A Walk Among the Tombstones", ao mesmo tempo que nos deixa perante componentes de suspense e acção. Não falta o detective atormentado e duro, pronto a disparar falas lacónicas, uma cidade marcada pelo crime (polícias corruptos, traficantes, serial killers), uma notória insegurança e pessimismo a rodear este espaço urbano, incluindo pelo meio referências a Philip Marlowe e Sam Spade, dois icónicos detectives noir. A própria narrativa algo convulsa poderia indicar esta ligação entre "A Walk Among the Tombstones" e os noir, mas o que temos mesmo é uma obra cinematográfica com um argumento de uma pobreza franciscana, recheado de redundâncias e falas pouco elaboradas, que coloca como um dos momentos fulcrais da narrativa o personagem interpretado por Liam Neeson a utilizar um taser nas partes baixas de um adversário. Liam Neeson interpreta Matthew Scudder, um detective privado que abandonou o ofício de polícia devido a ter eliminado um inocente enquanto se encontrava em estado alcoolizado a perseguir três criminosos. Estes momentos são explicados pelo personagem, exibidos em flashbacks e repetidos ao longo do filme, com "A Walk Among the Tombstones" a não saber utilizar este recurso para enriquecer a narrativa (nem recuemos muito, basta ver a forma magnífica como David Fincher explorou os flashbacks em "Gone Girl"), para além de cair em excessivas redundâncias. Entre essas repetições excessivas encontra-se a procura do protagonista em manter-se sóbrio e afastado do contacto com as armas, frequentando regularmente um grupo de alcoólicos anónimos, com Scott Frank a brindar-nos com um discurso de auto-ajuda com os dez pontos essenciais dos ex-alcoólicos durante um momento de enorme tensão, mesclando ainda música pelo meio, saindo uma mistela própria de um realizador que não parece saber colocar em prática as ideias que tem para o filme. No caso a cinematografia até estava a sobressair, explorando o negrume do espaço do cemitério, a presença do nevoeiro e todo o nervosismo que envolvia o episódio em questão, ou não estivéssemos perante um cenário onde a morte é esperada e os corpos mortos não são novidade, apesar do discurso de auto-ajuda retirar algum impacto ao momento. A própria investigação desenvolvida por Matthew vai perdendo fulgor ao longo do avançar da narrativa, sobretudo quando é incluído um jovem sidekick que não "casa" em nada com o tom de "A Walk Among de Tombstones", contribuindo ainda mais para os momentos implausíveis que rodeiam este filme baseado no livro homónimo de Lawrence Block. Este ajudante é TJ (Brian "Astro" Bradley), um adolescente sem abrigo que Mathew conhece numa biblioteca quando se encontrava a procurar informação para o caso para o qual foi contratado, embora seja péssimo em tudo o que é tecnologia. 

É difícil acreditar que um agente privado (sem licença para exercer a profissão) não saiba utilizar motores de busca na internet nem tenha telemóvel, com o personagem interpretado por Liam Neeson a parecer ter saído dos anos 40 ou 50, apesar de boa parte do enredo desenrolar-se em 1999. Nesse sentido, a competência do detective parece apenas resultar do seu instinto e da sua capacidade de envolver-se facilmente em problemas, tendo num jovem adolescente alguém que por vezes até parece ser mais inteligente do que este. TJ é um fã de detectives como Philip Marlowe e Sam Spade, pretendendo ser como um destes elementos, algo que o vai colocar muitas das vezes no caminho da investigação de Matthew. O protagonista é contactado por Peter Kristo (Boyd Holbrook) para uma possível reunião com o irmão, Kenny Kristo (Dan Stevens), tendo em vista a resolução de um caso de enorme urgência. A esposa de Kenny foi raptada e eliminada após este ter enviado 400 mil dólares para pagar o resgate, com o corpo a ter sido cortado em várias partes, uma situação que conduz o personagem interpretado por Dan Stevens a querer que o protagonista encontre os criminosos e traga os mesmos até si. Matthew reluta inicialmente em aceitar a missão devido a Kenny ser um dealer mas logo parte em busca destes criminosos, descobrindo que este não é o único crime cometido pelos mesmos. Matthew descobre que Ray (David Harbour) e Albert (Adam Davis Johnson), dois serial killers, operam numa carrinha onde raptam as suas vítimas, sendo ex-elementos dos narcóticos que procuram contactar familiares de traficantes e extorqui-los, revelando algum sadismo na forma como tratam as raptadas que escondem em sua casa, incluindo cortar um corpo em postas e colocá-lo a flutuar em sacos no lago do cemitério, torturar uma menor, entre outros, numa cidade onde nem o Matthew está livre dos seus pecados. Já TJ surge como um jovem com diálogos risíveis, com "Astro" a ter essa alcunha só de nome, com o seu personagem a proferir falas algo estereotipadas para expor o linguarejar de rua que se torna incomodativo e até algo ofensivo. O que sobressai mais pela positiva ao longo do filme é o desolamento notório na exposição da cidade de Nova Iorque, exibida com todos os seus prédios altos, céus cinzentos, crimes, imoralidade, onde a transgressão da lei parece reinar. Diga-se que o papel da polícia no território nem parece ser explorado, parecendo quase piada que pedaços de corpos apareçam pelo cemitério e não nos seja apresentada uma investigação policial a decorrer, com o argumento de Scott Frank a revelar uma incapacidade atroz de criar algo minimamente coeso, levando-se demasiado a sério para a história incoerente que nos apresenta. 

Com um argumento pueril, uma investigação incapaz de despertar todo o nosso interesse, muitas redundâncias e uma realização desinspirada, "A Walk Among the Tombstones" tem no seu título em português algo que representa a carreira de Liam Neeson nos últimos anos: "O Caminho Entre o Bem e o Mal". Neeson apresenta o seu carisma habitual, mas parece ter sucumbido ao dinheiro fácil e aos papéis que pouco lhe exigem para além de expor as suas falas com uma convicção capaz de convencer o maior dos psicopatas a temê-lo e apresentar alguma credibilidade nas cenas de acção mais físicas. A câmara de filmar muitas das vezes segue o protagonista, de forma inquieta, pronta a tentar que nos inquietemos e nos tornemos parte do quotidiano deste detective, mas o argumento e a realização de Scott Frank estão longe de estarem à altura da ambição que o cineasta apresenta. Temos ainda alguns elementos inseridos sobre o Y2K, o bug da passagem do milénio, mas estes surgem mais como pequenos pedaços para adornar a narrativa e dar-lhe um "tom" de época em vez de funcionarem ao serviço de um enredo onde não faltam tiroteios, vinganças, crimes hediondos, raptos, violações e uma investigação cujo desfecho já sabemos antes do filme começar. Nem é só a previsibilidade de "A Walk Among the Tombstones" que tira fulgor ao trabalho de Scott Frank. A relação entre Matthew e TJ está longe de parecer credível, surgindo apenas para dar alguma humanidade ao personagem interpretado por Liam Neeson e conceder um ajudante ao seu personagem, algo que no último terço torna-se quase ridículo, numa obra que até tem algum ritmo mas desilude ao apresentar um argumento tão raso. Veja-se como Dan Stevens e Boyd Holbrook raramente conseguem sobressair, bem como boa parte dos personagens secundários (a dupla de serial killers é do mais unidimensional possível, existindo ainda o ridículo destes formarem um casal homossexual que assassina mulheres, algo que cai num estereótipo de mau gosto), com Scott Frank a confiar em demasia que o carisma de Liam Neeson sirva para resolver todas as insuficiências desta obra canhestra. Quanto a Liam Neeson, a continuar por este caminho não surpreenderá que num dia destes o encontremos a protagonizar filmes ao lado de Nicolas Cage e John Cusack, prontos para serem lançados longe das salas de cinema. Não queremos que Liam Neeson seja o novo Nicolas Cage e esperamos que o papel de relevo no novo filme de Martin Scorsese não seja uma excepção mas sim a regra. É que já cansa ver Liam Neeson a interpretar repetidamente o personagem de "Taken" com algumas variâncias nos restantes filmes de acção que integra. Sabemos que o Liam Neeson tem de ganhar a vida e estes filmes até parecem dinheiro fácil para o actor, mas se é para ir ver uma obra cinematográfica e já saber praticamente tudo o que esta vai contar antes do visionamento, então para isso o melhor mesmo é escolher outra opção que desafie e não seja mais do mesmo. Ou pelo menos que o mais do mesmo seja minimamente interessante de acompanhar.

Título original: "A Walk Among the Tombstones". 
Título em Portugal: "O Caminho Entre o Bem e o Mal".
Realizador: Scott Frank.
Argumento: Scott Frank.
Elenco: Liam Neeson, Dan Stevens, Boyd Holbrook, Sebastian Roché.

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