06 outubro 2014

Resenha Crítica: "Vous n'avez encore rien vu" (Vocês Ainda Não Viram Nada)

 Alain Resnais volta a jogar com as barreiras do teatro e do cinema em "Vous n'avez encore rien vu", uma obra cinematográfica que cheira a despedida, embora o cineasta ainda tenha deixado "Aimer, boire et chanter" para completar o seu legado. A ligação entre os filmes de Alain Resnais e o teatro não é nova. Recue-se a "O Último Ano em Marienbad" onde tínhamos representados elementos teatrais, embora em "Mélo" assistíssemos à sua primeira obra cinematográfica a ter sido baseada numa peça de teatro, nomeadamente, de Henri Bernstein. Resnais viria ainda a adaptar três peças de teatro de Alan Ayckbourn, algo que resultou em "Smoking/No Smoking", "Coeurs" e o seu último filme "Aimer, boire et chanter". No caso de "Vous n'avez encore rien vu" assistimos a uma certa melancolia e nostalgia, com um grupo de actores, formado por Sabine Azéma, Anne Consigny, Pierre Arditi, Lambert Wilson, Mathieu Amalric, Michel Piccoli, Anny Duperey, Denis Podalydès, Jean-Noël Brouté, Hippolyte Girardot, Michel Vuillermoz, Andrzej Seweryn, Michel Robin, Gérard Lartigau e Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, a receber a notícia da morte de Antoine d’Anthac (Denis Podalydès), um célebre dramaturgo que trabalhou com cada um deles em diferentes fases das suas carreiras na adaptação da peça "Eurídice". Os próprios actores e actrizes interpretam versões ficcionais de si próprios, reunindo-se na mansão de Antoine para cumprir um último desejo deste: visualizarem um vídeo dos ensaios desta peça efectuados por um jovem grupo de actores, da companhia La Colombe, tendo em vista a aprovarem ou não a mesma. Aos poucos começa a existir algo de mágico, com os diferentes elementos a verem a peça, apresentada diante nós num ecrã, enquanto se recordam das suas falas e das emoções que viveram. Teatro, cinema e a vida juntam-se em momentos sublimes, enquanto ficamos perante a adaptação da peça Eurídice de Jean Anouilh (o filme aborda ainda elementos presentes na peça "Cher Antoine ou l'Amour raté" deste autor), baseada na relação entre Orfeu e Eurídice. A versão é distinta das lendas gregas, com Eurídice a ser a protagonista de uma peça de teatro de um grupo de segunda linha, enquanto Orfeu toca violino no restaurante local. Ao longo do filme, o casal é interpretado por Pierre Arditi e Sabine Azéma, bem como por Lambert Wilson e Anne Consigny, para além da dupla da peça de teatro interpretada por Sylvain Dieuaide e Vimala Pons. O elenco sobressai pela forma viva como interpreta estes personagens, expondo nos seus rostos os sentimentos dos mesmos ao interpretarem versões ficcionais de si próprios a deixarem-se envolver pelas memórias do passado. A memória e o seu papel no presente dos seus personagens sempre foram relevantes nos filmes de Alain Resnais. Recuemos a "Hiroshima Meu Amor", "O Último Ano em Marienbad", "Muriel ou o tempo de um regresso", entre outros e ficamos perante a forma como o cineasta trabalhava as repercussões da memória e da passagem do tempo. Em "Vous n'avez encore rien vu" assistimos também a uma certa melancolia, algo que podemos verificar na sua última obra cinematográfica, onde o cineasta procura celebrar a vida, embora não deixe de evocar alguma nostalgia e desilusão perante a aproximação da morte. Parece que estamos perante a despedida a Resnais e não perante a partida de Antoine d’Anthac, com o próprio cineasta a procurar reunir-se com vários dos seus colaboradores habituais como Sabine Azéma, Pierre Arditi, Lambert Wilson, Anne Consigny, entre outros.

 Os cenários e as interpretações dos actores e actrizes remetem para uma certa teatralidade e artificialidade, com Alain Resnais a não procurar efectuar uma obra marcada pelo realismo, bem pelo contrário. Procura antes mesclar elementos de teatro e cinema, ao mesmo tempo que procura subverter os mesmos, colocando-nos perante as emoções que ambos os meios podem gerar. A peça da trupe de teatro amadora apresentada no vídeo é filmada por Bruno Podalydès, com Alain Resnais a procurar que esta se diferenciasse do trabalho que filmou, algo relativamente conseguido, sobretudo devido à forma inventiva como o cineasta reúne as diferentes interpretações de "Eurídice". O resultado final é bastante homogéneo. Ficamos perante a peça de teatro, mas também as emoções que ressurgem nos actores e actrizes que a protagonizaram, as memórias do passado que reaparecem no presente, a melancolia em relação a outros tempos que estes viveram, com o espectáculo e as suas vidas a parecerem estar bastante interligados. Alain Resnais dota a obra de alguns elementos de brilhantismo, conjugando a artificialidade com um certo realismo a nível de sentimentos, sendo que a própria banda sonora parece contribuir para essa atmosfera que hipnotiza os actores que assistem à peça e os espectadores que assistem ao filme. O tempo passou para estes elementos do elenco que encontramos inicialmente a repetirem as falas dos personagens enquanto assistem à peça, não demorando muito até que se recordem dos momentos em que interpretaram os papéis destinados a si no passado e visualizem os mesmos nas suas memórias, permitindo um redescobrir do encanto pela sua arte, pelo seu trabalho e pela vida. Assistimos às recordações destes personagens, mas também a interpretações destes no presente, enquanto a peça de teatro está a ser exibida em pano de fundo apesar de em largos períodos ser deixada de lado. Gradualmente assistimos à representação da história de como Eurídice e Orfeu se conheceram e desafiaram os seus pais e o destino. Ele vive com o seu pai (Michel Piccoli), um homem de poucas posses que procura descobrir os restaurantes com preços mais baixos. Esta encontra-se a trabalhar com a mãe no grupo de teatro onde ambas participam, tendo uma relação com Mathias (Jean-Noël Brouté). Quando conhece Orfeu logo decide partir com este, abandonando Mathias, algo que conduz este último a cometer suicídio devido ao final da relação. Dividida em quatro actos, a história apresenta-nos ao dia em que Orfeu e Eurídice estiveram juntos e vivos. As dúvidas sobre o passado, as memórias, actos cometidos são levantados por esta mulher que estranhamente decide partir, utilizando a desculpa de pretender efectuar as compras para o jantar. É então que aparece Dulac (Hippolyte Girardot), a dizer que é amante de Eurídice, tendo enviado uma carta a esta mulher para ambos se encontrarem. No entanto, a notícia da morte de Eurídice num acidente de viação conduz a um aumentar da dúvida em relação a este suposto caso. Estranhamente, o Sr. Henri (Mathieu Amalric) reaparece junto do protagonista, uma estranha figura que já tinha sido avistada pelo casal, prometendo que este poderá voltar a ver Eurídice desde que não olhe para a mesma na face. A morte parece incapaz de controlar esta relação efémera, com Alain Resnais a voltar a fazer-nos recordar do "amor louco" dos personagens de "Hiroshima Meu Amor" e de "Mélo", numa obra marcada ainda por algum misticismo e fantasia. Os elementos do casal aproximam-se, afastam-se, parecem amar-se, ou talvez seja apenas desejo, enquanto dialogam imenso permitindo expor-se a nível sentimental. Alain Resnais concentra mais a história nas representações dos actores veteranos, dando espaço para Pierre Arditi, Sabine Azéma (actriz fétiche e esposa do cineasta), Lambert Wilson e Anne Consigny sobressaírem acima dos restantes elementos, sobretudo os dois primeiros.

Eurídice é uma jovem impulsiva, que conta com alguns segredos por revelar, com a cor dos seus olhos a mudar consoante o seu estado de espírito, conquistando Orfeu, ao mesmo tempo que os actores e actrizes veteranos voltam a ser conquistados por esta história. Existe alguma ingenuidade na relação entre Orfeu e Eurídice. Mal se conhecem mas decidem abandonar os seus familiares para iniciarem um caso que poderia ou não dar certo, sendo possível que quanto mais se tivessem conhecido mais se tivessem afastado, embora a morte logo se acerque de um dos seus elementos, uma situação que não os vai separar totalmente. O teatro e o cinema reúnem-se em "Vous n'avez encore rien vu", com Alain Resnais a procurar manter a estrutura do primeiro meio artístico. Os próprios cenários (em constante mudança e bem elaborados) atribuem alguma teatralidade à obra, mas também as interpretações dos personagens e os ensaios para a peça que assistimos os veteranos a verem. Estes actores e actrizes a certa altura de "Vous n'avez encore rien vu" começam a recordar-se das suas interpretações, embora estas memórias surjam no grande ecrã com os desempenhos do elenco já com idade avançada, mantendo um grande empenho e talento, com Alain Resnais a reunir uma equipa de luxo para a sua penúltima longa-metragem. Veja-se por exemplo Mathieu Amalric, num pequeno mas estranho e relevante papel, com o actor a ser capaz de explorar o lado enigmático do seu personagem. Temos ainda Michel Piccoli como o pai de Orfeu, para além dos elementos citados como Sabine Azéma, Pierre Arditi, entre outros, com Alain Resnais a reunir uma equipa de respeito para um filme que se previa poder vir a ser o da sua despedida. Ainda viria a realizar uma obra, mas em ambos estes dois últimos trabalhos não deixamos de poder notar toda um nostalgia e melancolia a rodear os filmes, bem como a noção da inexorabilidade da morte poder chegar um dia e tudo terminar. A elegância permeia a obra, tal como a capacidade de Alain Resnais continuar a procurar desafiar-nos e a correr riscos ao longo da sua carreira, mesmo nesta fase bastante avançada onde já contava com oitenta e nove anos de idade. Não tem problemas em exibir a história de Orfeu e Eurídice trocando regularmente de actores e actrizes, variando entre os ensaios da peça que está a ser exibida e os vários elementos do elenco a darem de novo vida aos personagens, seja a repetirem as falas, seja a recordarem-se da peça, seja a ensaiarem momentos da mesma, apresentando-nos a uma história no interior da história que nos consegue agarrar com o desenrolar do enredo. Existe um certo sentimento de perda nestes elementos. O tempo passou, estes acabaram de perder um amigo e os momentos em que interpretaram a peça parecem apenas pequenos fragmentos que procuram recordar nas suas memórias, tal como Orfeu tem de lidar com o sentimento de perda da amada. Henri permite a Orfeu reencontrar-se com Eurídice, enquanto este ensaio do grupo amador permite aos veteranos reencontrarem-se com alguns dos melhores momentos das suas carreiras. No final ainda temos direito a algumas reviravoltas, ou não estivéssemos perante um grupo de actores e actrizes que se reúne para prestar uma última homenagem a um amigo de longa data, com as suas histórias e as dos personagens que interpretaram a mesclarem-se de forma gradual. "Vous n'avez encore rien vu" mescla de forma criativa elementos de teatro e cinema, colocando-nos perante diversos actores e actrizes que se recordam dos momentos marcantes de uma peça que interpretaram, enquanto Alain Resnais nos oferece mais uma obra onde consegue deixar a sua marca.

Título original: "Vous n'avez encore rien vu".
Título em Portugal: "Vocês Ainda Não Viram Nada".
Realizador: Alain Resnais.
Argumento:  Laurent Herbiet e Alain Resnais.
Elenco: Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Jean-Noël Brouté, Anne Consigny, Anny Duperey, Hippolyte Girardot, Gérard Lartigau, Michel Piccoli.

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