28 outubro 2014

Resenha Crítica: "Trash" (Lixo)

 Entre a fantasia, a crítica social e a demagogia pueril, "Trash" quase que faz justiça ao seu título no seu último terço, onde não falta uma reviravolta escabrosa e uma mensagem anti-corrupção transmitida de forma oportunista. Stephen Daldry procura elaborar no Brasil a sua mescla de "Slumdog Millionaire" com "Cidade de Deus", mas o resultado final é bastante desinspirado, muito marcado por lugares-comuns e estereótipos associados às favelas e ao Brasil, colocando-nos perante uma história onde não faltam polícias e políticos corruptos, crianças com sentido de dever, alguma acção e emoção, com tudo a ancorar-se no conteúdo que se encontra no interior da carteira de José Ângelo (Wagner Moura). Nos momentos iniciais do filme encontramos José Ângelo, um elemento que supostamente perdeu recentemente a filha, a ser perseguido pelas autoridades corruptas, lideradas por Frederico (Selton Mello). Perante a invasão à sua casa, Ângelo decide atirar a carteira com informação relevante para o camião do lixo, sendo capturado pelas autoridades e eliminado após ter sido torturado. A carteira acaba numa lixeira onde se encontram vários elementos a procurar recolher os objectos que se encontram no interior deste espaço marcado pela areia e degradação da vida humana. É neste espaço que Rafael (Rickson Tevez) encontra a carteira de José Ângelo, recheada de dinheiro, algo que partilha com Gardo (Eduardo Luís), o seu melhor amigo. Na carteira encontram-se ainda fotos de Pia Ângelo, a filha de José, mas também uma chave que dá acesso a um cacifo que conta com um código que permite decifrar a localização do objecto com informação relevante que Frederico procura. Esse objecto é um livro vermelho que indica as transferências fraudulentas de um senador, encontrando-se no mesmo local onde José guardou o dinheiro que furtou, oriundo dessas "lavagens" monetárias e trocas de favores do político em causa. Rafael e Gardo juntam-se a Rato (Gabriel Weinstein), um jovem que vive nas redondezas, para encontrarem o local onde se encontra  a informação que pertencia a José Ângelo e desvendar o caso. Frederico enceta uma busca intensa pela favela, fingindo-se inicialmente afável, algo que muda com o desenrolar da narrativa, com este a demonstrar a sua faceta violenta. Selton Mello interpreta um personagem completamente estereotipado, que representa com todos os exageros os polícias corruptos, embora quase sempre acabe por ver os jovens a escaparem-se. A certa altura quase que esperamos ouvir Frederico a dizer "And I would have gotten away with it too, if it weren't for you meddling kids" bem ao jeito dos antagonistas de Scooby-Doo, com "Trash" a ser incapaz de tratar de forma coerente este personagem que, tanto é um criminoso sádico e implacável, como um incompetente incapaz de deter três adolescentes de catorze anos de idade. Diga-se que esta investigação parece por vezes ter saído mesmo de um episódio de "Scooby-Doo" (por vezes ainda menos coerente), com Frederico a ser o paradigma da forma pouco simpática e algo negra como o Brasil é representado.

As forças policiais são corruptas, os políticos pouco recomendáveis, a população vive na miséria e as buscas na lixeira são uma realidade para um vasto conjunto de gente, algo que certamente ficaria resolvido se o Brasil não tivesse organizado o Campeonato do Mundo de Futebol (isto se formos pela mesma demagogia do filme). Alguns dos vários problemas do filme passam exactamente pela forma pueril e demagógica como transmite as suas mensagens, mas também como explora com um conjunto de estereótipos uma realidade pouco positiva do Brasil, ao mesmo tempo que nos apresenta a uma jornada intensa de um trio de adolescentes que procura "fazer o que está certo". Estes vivem com poucas condições num território ainda marcado pela presença do Padre Juilliard (Martin Sheen) e Olivia (Rooney Mara), uma assistente social, dois elementos com alguma importância na comunidade (que poderiam ser interpretados por outros actores mas estão no elenco apenas para permitir uma maior internacionalização de "Lixo"). Apesar de ficarem com o dinheiro da carteira, Rafael, Gardo e Rato exibem paradigmaticamente que a pobreza que rodeia as suas vidas não afectou os seus valores, procurando a todo o custo deslindar este caso, envolvendo-se pelo território da favela, pela cidade do Rio de Janeiro e até no interior de uma prisão. A polícia persegue-os, com as cenas de fuga e perseguição a destacarem-se pela positiva, sobretudo quando estes jovens se envolvem pelas ruas estreias, quase labirínticas, algo que atribui algum intensidade e sentimento de perigo em relação ao que pode acontecer ao trio. O elenco mais jovem interpreta com competência os seus personagens, destacando-se Rickson Tevez como Rafael, um adolescente obstinado em fazer aquilo que considera certo. Já Gardo e Rato são mais pragmáticos, embora nem por isso deixem de cometer alguns erros pelo caminho, com "Trash" a explorar com alguma assertividade a relação do trio de amigos, apesar das suas motivações nem sempre nos convencerem. Já Wagner Moura tem um pequeno papel mas de algum relevo, com o seu personagem a roubar informação relevante que poderá desmascarar um político e vários elementos corruptos, com o enredo a focar-se bastante nesta situação da corrupção, algo que deve ser denunciado mas surpreende a forma "fácil" e até algo maniqueísta como Richard Curtis, um argumentista com vários trabalhos recomendáveis, explora este tema. Não faltam ainda várias metáforas religiosas e até associadas a este dinheiro sujo, com o momento final a poder ser considerado como purificador do mesmo ou então simplesmente ofensivo parecendo que estamos perante milho a ser dado aos pardais. A cinematografia de Adriano Goldman é capaz de dar uma perspectiva da dimensão desta lixeira, com os planos bem abertos a permitirem uma exposição das vastas gentes que procuram bens nestes locais, para além de sobressair na criação da atmosfera sombria no cemitério que logo é ridicularizada com uma reviravolta sem pés nem cabeça. Diga-se que os momentos pouco plausíveis são o prato forte do filme, não faltando coincidências várias ao longo desta adaptação da obra literária homónima. Na sua conta do Twitter, Fernando Meirelles, um dos produtores de "Trash", salienta que "Crítica de cinema as vezes é pior do que pesquisa eleitoral. Nada parece bater com nada." Transportando "Trash" para a política, também é caso para dizer que esta obra promete mais do que cumpre, terminando o seu mandato com nota negativa.

Título original: "Trash". 
Título em Portugal: "Lixo".
Título no Brasil: "Trash: A Esperança Vem do Lixo".
Realizador: Stephen Daldry.
Argumento:  Richard Curtis.
Elenco: Rooney Mara, Martin Sheen, Wagner Moura, Selton Mello, Gabriel Weinstein, Eduardo Luis, Rickson Tevez.

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