23 outubro 2014

Resenha Crítica: "Teenage Mutant Ninja Turtles" (Tartarugas Ninja: Heróis Mutantes)

 O desenvolvimento de "Teenage Mutant Ninja Turtles" conheceu uma série de problemas e polémicas que conduziram a diversas dúvidas em relação ao resultado final da obra cinematográfica realizada pelo tarefeiro ao serviço de Michael Bay, o pouco recomendável Jonathan Liebesman. Michael Bay assume a produção de "Teenage Mutant Ninja Turtles", bem como o cargo secreto de marionetista, sendo notável a forma como nunca o vemos a mover o corpo de Jonathan Liebesman nas entrevistas, parecendo até que este último teve uma palavra a dizer nos elementos de decisão do filme. A influência de Michael Bay é desde logo visível na incapacidade de Liebesman em controlar os ritmos da obra cinematográfica, parecendo muitas das vezes que tudo é um clímax, com a câmara de filmar a andar à solta de forma desgovernada, as cenas de acção a serem mais do que muitas, para além dos elementos machistas e até de alguma misoginia com Megan Fox a mostrar porque foi escolhida para o papel de April O'Neil. Não falta a personagem a saltar num trampolim enquanto as suas "amigas" saltitam, um plano aproximado do seu traseiro enquanto esta filma material para uma possível reportagem, ao mesmo tempo que Megan Fox mostra que quem lhe disse que é actriz anda a enganá-la. Ou melhor, enquanto tiver corpo pode provavelmente ter este tipo de papéis mas não deixa de ser latente que a narrativa se concentra em demasia na sua personagem, procurando ligá-la em excesso ao passado das Tartarugas Ninja e Splinter. "Teenage Mutant Ninja Turtles" partilha ainda o hábito de vários filmes de super-heróis recentes de procurarem ligar tudo, de encontrar explicações lógicas para algo ilógico, algo que não faz sentido, ou talvez até faça se tivermos em linha de conta a incapacidade do filme em encontrar uma identidade. Tanto tem alguns momentos de humor que funcionam (com referências a elementos da cultura popular como Batman, "Star Wars", para além de brincarem com a possibilidade colocada no início do desenvolvimento do filme das tartarugas poderem ser extraterrestres, entre outros), como a seguir procura apresentar um tom sério e ancorar a narrativa na realidade quando teria muito a ganhar se abraçasse por completo a sua faceta menos séria (por favor, isto é um filme sobre tartarugas mutantes, a partir daqui o máximo que se pode fazer é abraçar a estranheza da premissa). A narrativa começa por nos apresentar às Tartarugas Ninja de forma rápida, em formato de animação algo estilizado e de forma bastante sucinta, até nos deixar perante April O'Neill, uma jornalista de pouca monta, que ninguém leva a sério no Channel 6 (algo em comum com Megan Fox, que também não dá para a levar a sério como actriz). Esta cobre eventos como desporto ao ar livre, quase sempre acompanhada por Vernon (Will Arnett), o seu operador de câmara, ao mesmo tempo que procura informação sobre o Foot Clan, um conjunto de criminosos que se encontram a aterrorizar a cidade. Estes são liderados por Shredder (Tohoru Masamune), um antagonista com uma armadura recheada de garras pontiagudas, completamente unidimensional, que pretende dominar Nova Iorque, contando para isso com o apoio de Eric Sacks (William Fichtner), um empresário contratado para ajudar a defender a cidade, que conta com um passado ligado ao de April e do pai desta. Durante as suas investigações, pouco levadas a sério pela sua editora (Whoopy Goldberg) e colegas, April tira uma foto às tartarugas que logo apagam a mesma e dão-se a conhecer a esta jovem. Quando Splinter descobre que Leonardo, Raphael, Donatello e Michelangelo contactaram com April, logo procura que estes a tragam até ao esgoto, onde se encontram localizados, e assim evitar que esta descoberta coloque a jornalista em perigo. 

O problema é que April já falou com Sacks, com o filme a ancorar a transformação das tartarugas e de Splinter ao passado desta jovem jornalista. Sacks pretende raptar as tartarugas de forma a extrair a substância criada pelo pai de April, para além de pretender eliminar as mesmas, com o quarteto a ter de salvar Nova Iorque e enfrentar Sacks e o perigoso Shredder. Num filme onde contamos com tartarugas e um rato mutantes, procurar ancorar o mesmo na realidade pode ser fatal. "Teenage Mutant Ninja Turtles" por vezes procura explorar o lado mais infantil do quarteto, bem como a sua dinâmica e personalidades distintas dos seus protagonistas, mas também se leva demasiado a sério nos planos de Sacks e Shredder, quando o que encontramos são dois vilões unidimensionais, sem o mínimo de espessura, cujos objectivos não andam assim tão distantes de tantos outros antagonistas de filmes do género. William Fichtner já está habituado a personagens manhosos, enquanto que Tohoru Masamune tem em Shredder uma figura caricatural que nunca chegamos a levar totalmente a sério (vale a pena realçar que o argumento também efectua uma ligação em relação ao passado destes dois personagens). Já as Tartarugas e o novo visual até funcionam, surpreendendo pela fluidez nas cenas de acção, inclusive quando se encontram a descer na neve e no último terço, com o frágil argumento a conseguir ainda exibir as personalidades distintas das mesmas: Leonardo é o líder, e perseverante; Rafael o mais feroz e agressivo; Donatello o engenhocas e menos dado ao combate; Michelangelo é o brincalhão de serviço. Nesse sentido, o filme consegue respeitar as personalidades associadas às tartarugas (não falta ainda o gosto por pizza e a célebre expressão "Cowabunga") e a Splinter, ao mesmo tempo que consegue tirar alguns momentos de humor quando o quarteto está em conjunto. Diga-se que nem todas as piadas resultam, com o filme a por vezes ser um hino à zoofilia com Jonathan Liebesman a não nos poupar ao interesse de Michelangelo em April O'Neil, algo demasiado perturbador, que nem deveria ter sido equacionado para o enredo. A realização de Jonathan Liebesman está longe de ser o ponto alto do filme, com este a conceder-nos alguns planos desenquadrados e completamente sem sentido e significado, product placement em momentos escusados (numa cena de acção as várias caixas de pizzas da Pizza-Hut), apesar de acertar em algumas cenas de acção e humor. No entanto, o argumento é demasiado frágil, os personagens secundários pouco relevantes ou desinteressantes (veja-se Karai, uma ajudante de Shredder), Will Arnett muitas das vezes cai em exageros excessivos com a sua presença a parecer algo forçada em alguns momentos do enredo, enquanto que Megan Fox tem demasiado "tempo de antena" como April O'Neil. Não tem carisma, não tem talento, com o seu corpo a ser um colírio para a vista mas isso não chega para tornar April interessante. Com uma banda sonora pronta a adornar os episódios do enredo como se tivessem um relevo que não têm, algumas cenas de acção bem coreografadas e diversos momentos de humor que resultam, "Teenage Mutant Ninja Turtles" mostra paradigmaticamente que bons efeitos especiais (sobretudo a nível da tecnologia de captura de movimentos) não chegam por si só para fazer um bom filme. Falta uma capacidade de sentirmos que as Tartarugas estão em perigo, falta um argumento capaz de dar maior desenvolvimento aos antagonistas, falta maior competência, com Jonathan Liebesman a provar que pior do que Michael Bay só mesmo a imitação deste último. "Teenage Mutant Ninja Turtles" está longe de ser o desastre anunciado, mas também está longe de surpreender, com o adjectivo de suportável a ser o que melhor consigo aplicar a este filme.

Título original: "Teenage Mutant Ninja Turtles".
Título em Portugal: "Tartarugas Ninja: Heróis Mutantes".
Realizador: Jonathan Liebesman.
Argumento: Josh Appelbaum, André Nemec, Evan Daugherty.
Elenco: Megan Fox, Alan Ritchson, Jeremy Howard, Pete Ploszek, Noel Fisher, Will Arnett.

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