07 outubro 2014

Resenha Crítica: "Stavisky" (1974)

 Baseado livremente num curto período da vida de Serge Alexandre, mais conhecido por Stavisky (Jean-Paul Belmondo), "Stavisky" remete-nos para a história de um vigarista impulsivo com ideais algo megalómanos, com a sua influência a estender-se às autoridades, políticos e imprensa. O filme realizado por Alain Resnais é baseado em factos reais, expondo a queda deste homem capaz de contrabandear joias, efectuar negócios fraudulentos a nível de títulos da banca, contrair empréstimos e enganar vários elementos da alta sociedade, entre os quais o Barão Jean Raoul (Charles Boyer), um amigo pessoal, com o protagonista a surgir como uma figura que não parece ter limites. Alain Resnais apresenta-nos aos momentos finais da sua vida, desde meados de 1933 até Janeiro de 1934, data da sua misteriosa morte em Chamonix. Uns acreditam que terá sido suicídio, outros acreditam que terá sido assassinado pela polícia, algo que mais tarde gerou o "Stavisky Affair", resultando na queda de vários ministros e do primeiro-ministro Camille Chautemps. Jean-Paul Belmondo revela-se à vontade a interpretar este personagem meio megalómano nos seus projectos, por vezes algo paranoico, para quem gastar é a melhor forma de lucrar, enganando tudo e todos, provavelmente até a si próprio, sobretudo na forma como procura esconder o seu passado. Vestido maioritariamente com fatos caros, por vezes com uma flor vermelha no bolso do casaco, este descreve-se como um consultor financeiro e vive boa parte dos dias no luxuoso Claridge, efectuando os seus negócios com uma confiança surpreendente, sobretudo quando se encontra a falar dos títulos húngaros que transacionou a preços elevados e pouco valem. Ao longo do filme, ficamos ainda perante a investigação efecuada por Bonny (Claude Rich), um agente que procura descobrir elementos sobre o passado e o presente do protagonista, embora este último seja protegido por Boussaud, um inspector que conseguiu diversas informações de Stavisky, após este ter sido preso quando era mais jovem. Stavisky envolve-se junto de gente poderosa, incluindo banqueiros, polícias, políticos, esbanjando dinheiro e amando Arlette (Anny Duperey). Esta é o paradigma do luxo dos figurinos elaborados por Yves Saint-Laurent, marcada pelos vestidos de enorme elegância, joias variadas e todo um conjunto de adereços que realçam o seu charme, enquanto Anny Duperey atribui alguma classe e mistério a esta mulher dada aos luxos que parece nutrir uma verdadeira afeição pelo criminoso. O guarda-roupa e os cenários interiores contribuem para a criação de uma atmosfera próxima da época, bem como os carros e até o contexto político, embora Alain Resnais deixe de fora várias explicações sobre o mesmo. Temos ainda a presença de Trotsky em França, embora se encontre proibido de exercer a sua actividade política no território, apesar de contar com alguns seguidores da extrema esquerda. No entanto, a sua presença no território é colocada em causa perante os actos fraudulentos do protagonista e o escândalo que rodeou a sua morte (com o exílio do protagonista e Trotsky e as suas repercussões a serem colocados em paralelo). O contexto político internacional também é abordado, com as perseguições a judeus na Alemanha a serem mencionadas ou não estivéssemos já perante a ascensão do Partido Nazi no território, embora o protagonista pareça estar pouco interessado na política, apesar de receber no Empire, o seu teatro, Erna Wolfgang (Silvia Baudescu), uma mulher que afirma ser judia.

Serge ensaia com Erna um trecho de "Intermezzo" de Giraudoux. A ligação entre o teatro e o cinema já tinha sido vista em certa medida em "O Último Ano em Marienbad", com Alain Resnais a adensar essa mistura a partir de "Médo", a primeira adaptação de uma peça de teatro realizada pelo cineasta. No caso, ficamos perante o cenário do Empire, o teatro do protagonista, um amante das artes, mas também dos luxos, comprando muito sem ter praticamente um tostão. A banda sonora de Stephen Sondeim é um incremento ao enredo, bem como o argumento de Jorge Semprún (o mesmo de "Z" de Costa-Gavras), capaz de contextualizar-nos eficazmente a forma como Stavisky procurou ascender numa sociedade francesa em convulsão política (em 1940 assistiríamos ao final da III República), algo visível nos episódios após a sua morte. Os momentos do último terço são intercalados com flashforwards (com Alain Resnais a jogar mais uma vez com a nossa noção do tempo da narrativa, incluindo flashbacks e flashforwards ao longo do filme), onde assistimos ao interrogatório efectuado a vários elementos ligados a Stavisky, tendo em vista a procurar-se chegar a conclusões sobre o seu possível assassinato. No final, a desgraça é certa para o protagonista, com a morte a aproximar-se no meio do cenário da neve, acompanhado pela solidão e o amargo sabor da chegada do final da vida, com Jean-Paul Belmondo a conseguir que geremos alguma empatia por este criminoso destravado, sem problemas em enganar tudo e todos, incluindo a si próprio. Os seus crimes envolveram a participação de gente poderosa, uma situação que conduziu a uma procura de silenciar o caso embora os seus actos sejam difíceis de apagar, sobretudo junto daqueles que enganou. Nesse sentido, não deixa de existir em "Stavisky" uma procura em explorar a corrupção no interior da sociedade francesa deste período, exibindo como Stavisky conseguiu ascender graças a políticos, banqueiros, agentes das autoridades, imprensa, conseguindo controlar tudo e todos enquanto tinha dinheiro. Essas figuras com algum poder ligadas a Stavisky permitem enriquecer o enredo, com Alain Resnais a dotar a narrativa de um conjunto de personagens secundários de relevo: Bonny, um investigador pronto a jogar com as descobertas a seu favor a nível político, com Claude Rich a atribuir alguma malícia a este personagem; Charles Boyer como um rico barão que forma amizade com o protagonista, embora seja traído pelo mesmo; Albert Borelli (François Périer), um advogado cujo nome se encontra a liderar o banco de Bayona onde o protagonista efectua os seus negócios sujos; Véricourt (Jacques Eyser), um deputado que foi eleito com o dinheiro de Stavisky, com este último a pensar que o político lhe deve eternamente favores; Montalvo (Roberto Bisacco), um espanhol que pretende transaccionar armas para participar num golpe em Espanha, algo que o protagonista pretende ajudar através das transacções financeiras, entre outros personagens. A ascensão de Serge Alexander demonstra bem como a corrupção afecta(va) a vida política francesa, com o filme a exibir-nos a uma obra marcada por algum imoralidade, onde Stavisky pode ser um criminoso mas estava longe de ser o único a cometer os seus pecados.

Alain Resnais nem parece preocupado em dar muitas explicações sobre as causas para os comportamentos de Stavisky, um judeu oriundo da Polónia que decidiu mudar de nome para ser integrado numa sociedade que espera mudar, onde o sentimento anti-judaico encontra-se presente. Este salienta que pretende revolucionar o sistema financeiro, apresentando uma enorme confiança no Banco Independente das Redes e Regulamentações Internacionais que pretende fundar, tendo nos títulos/vales de Bayonne (do Crédit Municipal de Bayonne) um meio de conseguir dinheiro de forma fácil mas ilegal, devido a estes não valerem nada. Alain Resnais consegue efectuar um retrato relativamente eficaz da complexidade Stravisky e o seu estilo de vida luxuoso, marcado por esbanjamento de dinheiro, estadias em hotéis de luxo, amizades com elementos influentes, embora parecesse demasiado errático para conseguir livrar-se impunemente de todos os actos que cometeu. Este tinha ainda um lado mais dado à cultura, investindo num teatro, para além de apresentar algum romantismo, algo visível quando opta por mais do que uma vez rodear a amada de flores, dois elementos que definem bem os contrastes deste homem. Ficamos assim perante um personagem marcado por várias personalidades, tanto capaz de vigarizar como de amar, como de esbanjar no jogo como investir na arte, procurando fugir ao seu passado embora o seu presente também não seja o mais recomendável. Alain Resnais consegue ainda explorar o lado mais paranoico do personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo, com o criminoso a procurar esconder o passado (apresentado em alguns flashbacks), pensando que é mesmo capaz de alterar o sistema financeiro mundial, apesar das suas ideias raramente contarem com alicerces coesos. Serge perde dinheiro em casinos como os de Biarritz e Cannes, procura silenciar os seus opositores, tendo como trunfo os títulos húngaros que de nada valem, encontrando-se a desenvolver um dos escândalos que marcou a História da França (com os conservadores a procurarem chegar ao poder). "Stavisky" procura ainda explorar a miríade de cenários que nos apresenta, seja o luxuoso hotel onde o protagonista se encontra, seja a habitação claustrofóbica onde este se encontra no seu exílio em Chamonix, seja o teatro, seja o local onde se encontra Trotsky, seja a sala do tribunal onde se encontra a decorrer o inquérito após a sua morte, seja os locais onde decorrem as suas reuniões, existindo todo um conjunto de magníficos valores de produção que ficam latentes ao longo da obra. Temos ainda a procura de Resnais em explorar o papel da memória, através dos flashforwards, onde ficamos perante a perspectiva dos acontecimentos de acordo com cada um dos envolvidos. O papel da memória é uma temática querida nas obras de Resnais, desde "Hiroshima Mon Amour" passando por "L'anée derniere a Marienbad", algo que este volta a explorar em "Stavisky", embora de forma distinta. Neste caso temos um conjunto de elementos a distorcerem os eventos, com os relatos que contam na sua memória a serem subvertidos, num filme que procura explorar um lado menos positivo da França durante este período, embora com muitas liberdades históricas à mistura. Não falta corrupção, mortes, trafulhices e muitos luxos em "Stavisky", uma obra onde Jean-Paul Belmondo nos deixa perante mais uma das suas grandes interpretações e Alain Resnais revela a sua classe como realizador.

Título: "Stavisky". 
Realizador: Alain Resnais. 
Argumento: Jorge Semprún.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Anny Duperey, François Périer, Charles Boyer.

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