20 outubro 2014

Resenha Crítica: "Sara Prefere Correr" ("Sarah préfère la course")

 Sarah (Sophie Desmarais) é uma atleta obstinada em conseguir vencer no mundo do atletismo. O título em Português do filme não nos engana. Esta prefere correr. Acima de tudo e qualquer outra coisa esta pretende correr e vencer no atletismo. Quando é questionada por Zoey (Geneviève Boivin-Roussy), uma das poucas colegas de quem se aproxima, sobre o que faria se não estivesse no atletismo, Sarah não sabe responder, uma situação que deixa latente o facto desta apenas ter planeado toda a sua vida em função da corrida, não tanto para ganhar troféus mas por ser algo que esta consegue controlar. Esta parece uma jovem adulta algo fria, pouco capaz de expressar os seus sentimentos, por vezes até algo distante dos seus pais e colegas. No início do filme encontramo-la a viver com a sua mãe e o companheiro desta numa cidade nos arredores do Québec, onde trabalha num restaurante para juntar dinheiro. É neste restaurante que conhece Antoine (Jean-Sébastien Courchesne), um colega que se oferece para ir consigo para Montréal, após esta ter sido convidada para integrar a equipa de atletismo da Universidade McGill, localizada no território mencionado. A mãe não parece ficar muito agradada com a ideia, sobretudo devido a não contar com uma estabilidade financeira que permita financiar este desejo da filha, mas Sarah não parece dar grandes opções. Antoine até parece apresentar algum interesse na jovem, mas esta faz questão de salientar que não o ama. Ambos acabam por se casar para beneficiarem de um subsídio do Estado para jovens estudantes universitários casados, de forma a aproveitarem o facto de viverem na mesma casa, embora a intimidade entre ambos pareça ser pouca. Antoine é mais expansivo do que esta jovem, sendo visível que gradualmente fica incomodado por Sarah deixar tudo para segundo plano de forma a não descurar o atletismo. Sophie Desmarais atribui a esta personagem alguma frieza que mesmo assim não nos repele, conseguindo tornar notório o amor e obsessão de Sarah pelo atletismo, sempre sem a tornar numa máquina desprovida de sentimentos. A certa altura do filme esta prepara-se para lidar com algumas contrariedades que podem colocar em causa a sua actividade, ao mesmo tempo que lida com a sua sexualidade, com o filme a deixar implícito um interesse desta em Zoey embora nunca explore de forma aberta esta temática. Acima de tudo estamos perante um estudo de personagem, de uma atleta que quer chegar ao topo, não tanto pela glória do seu país, mas sim pelo seu gosto pela prática de correr. Em certa medida, "Sarah préfère la course" até nos remete para o recente "Fair Play", um filme checo cuja protagonista era uma atleta de alta competição de atletismo, embora o segundo conseguisse apresentar uma história que abrangesse temáticas mais latas, nomeadamente a nível do contexto social e político que englobavam a protagonista. No caso de "Sarah préfère la course", a realizadora e argumentista Chloé Robichaud concentra quase todos os elementos na personagem do título, uma jovem a lidar com decisões próprias da transição para a idade adulta, ao mesmo tempo que nos deixa perante o quotidiano de Sarah e a sua procura em definir-se como mulher.

 Logo nos momentos iniciais, Chloé Robichaud deixa-nos perante um conjunto de atletas a correrem numa pista de atletismo, com Sarah a liderar o grupo, num plano geral que evidencia o seu talento em relação às restantes colegas. Pouco depois, mais uma corrida. A câmara foca-se nas personagens de costas, em partes específicas do corpo, apresentando em detalhe os aparelhos que marcam onde as atletas têm de partir, exibindo estas a posicionarem os seus pés e restantes partes do corpo até ser dado o sinal de partida e ficarmos perante uma corrida de obstáculos. Existe uma atenção notória dada aos treinos, bem como ao tempo que estas jovens passam no balneário, a correr ao ar livre e em indoor, com a cineasta a procurar incutir algum realismo a esta actividade desportiva praticada por Sarah. Quando Sarah vai para Montréal, os seus treinos passam ainda a ser no ginásio, com esta a parecer ter pouco tempo para o que quer que seja para além de se aperfeiçoar. Por vezes a corrida e os treinos até parecem uma forma de escapismo à realidade que a rodeia, bem como um modo de triunfar a efectuar aquilo que mais ama, algo que a conduz a fazer poucos amigos e a afastar aqueles que dela se procuram aproximar. A relação com Antoine degrada-se. Não seria de esperar outra coisa. Ele parece ter esperanças que ela mude. Ela tem esperanças em melhorar e dar o seu máximo na corrida. Ficamos perante um retrato marcado por algum realismo de uma jovem atleta que pretende chegar à alta competição e dos sacrifícios necessários para chegar ao topo, numa obra canadiana que tem feito um interessante percurso a nível de festivais internacionais de cinema e estreia finalmente em Portugal em circuito comercial. O apelo que o filme tem causado parece relativamente fácil de perceber, com Chloé Robichaud a conseguir que criemos alguma empatia com uma personagem que facilmente até poderia gerar alguma antipatia da nossa parte. No entanto, Sarah torna-se muitas das vezes um enigma. Ainda tenta integrar-se com os elementos da sua idade, algo visível na festa onde Antoine e Zoey cantam no karaoke, embora pareça certo que não seja uma jovem adulta de grandes amizades. Não estamos perante feminismos exacerbados, nem nada que se pareça, estamos sim diante de uma jovem que ama correr e gradualmente vai evoluindo ao longo da narrativa, quer como atleta, quer como ser humano, com as experiências que vive a amadurecerem-na um pouco e a fazerem com que tenhamos diferentes percepções de Sarah. Os close-ups mostram-nos o seu rosto, mas os seus sentimentos parecem muitas das vezes reprimidos, com esta a nem sempre tomar as melhores decisões. A cinematografia, prima pela sobriedade, com a iluminação a surgir contida, tal como os sentimentos da protagonista, sobressaindo ainda no realismo atribuído às cenas dos treinos e corridas. A juntar aos treinos temos a relação de Sarah com a mãe, marcada pela preocupação desta última, bem como o relacionamento da protagonista com Antoine.

Jean-Sébastien Courchesne incute um carácter mais afável ao seu personagem do que Sophie Desmarais, com Antoine a parecer mais impulsivo e a ter as ideias menos definidas do que esta jovem. Decide ir com Sarah para Montreal mas não parece ter planeado o que se seguiria, tendo no casamento uma ideia para se financiarem bem como uma procura de se aproximar da protagonista. O casamento entre ambos parece um erro desde o início e Chloé Robichaud não faz concessões para o espectador fazer sentir-se bem no final do visionamento, evitando o cliché do casal que se apaixona de forma gradual. Ainda flutua por essas zonas mas logo foge das mesmas, remetendo-nos mais uma vez para o título do filme. Diga-se que Sarah chega a confessar que outrora pensara que ao chegar à idade adulta iria casar e ter filhos, considerando que isso simbolizaria o seu amadurecimento, embora ao longo do filme facilmente percebamos que esta transição é bem mais complicada do que pode parecer. Ficamos perante uma personagem feminina forte, com Sophie Desmarais a convencer-nos como esta jovem para quem a corrida surge como algo de libertador ou pelo menos permite-lhe durante esse período evitar as possíveis dúvidas que lhe assolam a alma. O convívio com outros seres humanos não parece ser o seu forte, algo notório numa cena de cariz sexual marcada por enorme estranheza. Finalmente chegou à idade adulta mas depara-se com uma das mais difíceis perguntas. O que fazer agora? A corrida parece ser a saída mais viável, um desporto que esta domina e demonstra ter talento. Mais do que amar e ter a sua saúde controlada, "Sara prefere correr" e é essa paixão pela corrida que nos é transmitida ao longo deste drama onde os sentimentos não são expostos à velocidade destas atletas, mas sim com realismo e uma ponderação que facilmente tornam esta primeira longa-metragem realizada por Chloé Robichaud como um trabalho a ter em atenção. 

Título original: "Sarah préfère la course"
Título em Portugal: "Sara Prefere Correr".
Realizadora:  Chloé Robichaud.
Argumento:  Chloé Robichaud.
Elenco: Sophie Desmarais, Jean-Sébastien Courchesne, Hélène Florent, Micheline Lanctôt, Geneviève Boivin-Roussy

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