25 outubro 2014

Resenha Crítica: "The Rover"

 Não deixa de ser curioso verificar a evolução de Robert Pattinson como actor. Outros poderiam ter ficado com os louros do sucesso da saga "Twilight" junto do público e perpetuado papéis semelhantes a Edward para ganhar dinheiro fácil. Pattinson escolheu o caminho mais difícil e tem procurado testar o seu talento e limitações, algo visível em "The Rover", o novo filme do realizador australiano David Michôd, uma obra onde tem um papel que lhe dá espaço para sobressair ao lado de Guy Pearce, num enredo que tem como pano de fundo um futuro próximo, dez anos depois de um colapso financeiro que conduziu uma vasta população a deslocar-se para a Austrália. É nesse sentido que encontramos Eric (Guy Pearce), um indivíduo solitário, pouco falador, de gestos e olhares algo soturnos, num bar chinês, onde ouvimos músicas orientais a serem transmitidas pela rádio. Enquanto se encontrava neste local, Eric depara-se com Archie (David Field), Caleb (Tawanda Manyimo) e Henry (Scoot McNairy) a assaltarem o seu veículo, após terem provocado um acidente que deixou o seu carro temporariamente preso. O trio procura fugir depois de um assalto que correu mal, com Henry a ter deixado Rey (Robert Pattinson), o seu irmão, para trás, após este ter sido baleado. Eric assiste estupefacto a este episódio, decidindo perseguir estes três criminosos e recuperar o seu carro. Fica com o veículo destes indivíduos e ainda os persegue pelo asfalto, embora não seja bem sucedido a recuperar o seu automóvel. Pelo caminho entra numa loja para procurar informações sobre o trio e comprar uma arma, onde elimina um anão que pretendia cobrar trezentos dólares americanos pela pistola, encontrando Rey de forma praticamente casual. Rey é um indivíduo algo naïve, de compreensão algo lenta, embora também seja um criminoso, acabando por juntar-se a Eric na busca pelo trio. Eric procura inicialmente garantir que este não lhe mente, enquanto Rey procura reunir-se com o familiar. David Michôd explora de forma sublime os momentos de silêncio entre estes personagens, quer quando parecem estar a procurar ler os pensamentos um do outro, quer quando pura e simplesmente parecem querer estar rodeados pela quietude. O carro onde se encontra Eric e Rey avança por este território australiano desolador, povoado por gentes de diferentes etnias e alguma bizarria, onde a lei e a ordem não se parecem impor, com a atmosfera do filme a por vezes fazer-nos recordar "Mad Max", embora num estilo bem mais minimalista. Temos ainda os momentos de maior claustrofobia nos espaços fechados, como a sequência em que o quarto onde se encontra Rey é alvo de um tiroteio e este se encontra preso no mesmo, bem como os momentos finais, com a dupla a sobressair ao longo deste filme marcado por algum pessimismo. 

O argumento de David Michôd e Joel Edgerton é bastante competente na forma subtil como explora esta parceria improvável entre Rey e Eric. Ambos perderam tudo. Eric só tinha o seu carro após um episódio negro da sua vida, enquanto que Rey foi deixado gravemente ferido, tendo sido o primeiro a conseguir que este fosse assistido por uma médica que guarda cães no seu esconderijo para que estes não sirvam de alimento a elementos esfomeados. Não foi um acto de caridade de Eric, mas sim a noção de que Rey é o único a saber o caminho até Carloon, onde se encontra o esconderijo de Archie, Caleb e Henry, embora isso não impeça que a dupla de protagonistas forme um certo espírito de companheirismo, visível quando o personagem interpretado por Robert Pattinson resgata o protagonista dos militares que o detiveram. Guy Pearce incute um tom bastante frio ao seu personagem, um indivíduo com a barba por fazer, com roupa que parece ter dias de estar no corpo, algo violento e pronto a tudo para conseguir o seu veículo. Este já conta com os seus quarenta e poucos anos, tendo conhecido de perto o colapso financeiro que mudou por completo o seu quotidiano, exibindo no seu rosto algum ressentimento e cansaço próprios de quem já viveu mais episódios degradantes do que esperava, quase a fazer recordar os anti-heróis solitários dos spaghetti westerns. Nem sempre compreendemos as suas acções nem a sua obsessão pelo carro, com excepção no momento final, onde David Michôd deixa-nos perante o protagonista e a sua única ligação à humanidade e felicidade numa sociedade onde o desapego emocional parece ter-se tornado comum. Por sua vez, Robert Pattinson é capaz de dar algumas nuances de estranheza ao seu personagem e convencer-nos com o sotaque do sul dos EUA, dando um tom algo ingénuo a Rey, um jovem que ainda se recorda dos tempos de infância, embora de forma algo difusa. Já o trio de antagonistas apenas tem espaço para sobressair no primeiro terço da narrativa e nos momentos finais, com o filme a ser dominado pelos personagens interpretados pelo protagonista de "Cosmopolis" e Guy Pearce. O argumento assim o permite, bem como a realização de David Michôd, capaz de deixar pequenos pormenores das personalidades e vivências dos personagens nos seus gestos. Veja-se quando Eric dispara de longe contra um conjunto de elementos asiáticos de forma tão mortífera como o "Homem Sem Nome" de Clint Eastwood na "Trilogia dos Dólares" e ficamos a perceber o seu talento para a arte do disparo e um passado onde teve de utilizar armamento, bem como o poderoso momento em que o personagem interpretado por Guy Pearce abre a mala do carro e percebemos a verdadeira razão da sua procura pelo veículo. Outro dos personagens em destaque no filme é o próprio território australiano, desolador, marcado por vastos desertos expostos em toda a sua imensidão e um Sol abrasador (com a cinematografia a sobressair na forma como integra os protagonistas e este território), espaços interiores sem luz e uma atmosfera opressora, em grande parte devido à acção humana, com David Michôd a procura incutir algum realismo neste futuro próximo. 

Este realismo é salientado pelo realizador no press kit ao comentar "I want The Rover to feel like an entirely conceivable world of the very near future, a world despoiled by very real forces and systems at work all around us today", algo que consegue, mas o mais interessante de verificar é como este remete a procura dos personagens em explorarem o território australiano para a realidade quotidiana nos países africanos, onde existem enormes recursos como ouro, diamantes, petróleo: "This isn't a complete collapse of society ‐ it's an inversion of present ‐ day global power dynamics. This is Australia as a resource -­ rich Third World country. This is the violence and unrest of contemporary Sierra Leone, DRC, Nigeria and Guinea". Nesse sentido, a Austrália torna-se o território predilecto para a exploração das minas, contando com uma diversidade de gentes exibidas ao longo do filme, embora a insegurança e imoralidade sejam notórias. Veja-se quando Rey e Eric procuram adquirir gasolina e o dono da loja só os atende por uma pequena portinhola (a fazer lembrar as farmácias em horário nocturno), bem como a facilidade com que os assassinatos são cometidos, para além de uma estranha mulher que pretende prostituir um jovem num edifício que parece saído de um filme de terror. A imoralidade domina esta obra que vagueia nos limites do road movie, drama, acção e até algum humor negro, sempre com alguma contenção e violência à mistura com David Michôd a realizar um filme que facilmente transcende as nossas expectativas iniciais em relação à sua premissa, sendo muito mais do que uma mera história de vingança. No final, "The Rover" procura deixar demasiados elementos subentendidos que apenas ganham uma nova luz depois de uma nova visualização, com David Michôd a procurar que os silêncios e os gestos por vezes tenham tanto valor como as palavras, onde o deserto australiano rapidamente se torna um local desolador, no qual a linha que separa a vida da morte é demasiado ténue e os valores morais nem sempre parecem fazer parte da agenda dos seus elementos.

Título original: "The Rover".
Realizador: David Michôd.
Argumento: David Michôd. 
Elenco:  Guy Pearce, Robert Pattinson, Scoot McNairy.

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