01 outubro 2014

Resenha Crítica: "Playtime" (Play Time - Vida Moderna)

 O pessimismo de Jacques Tati em relação à dependência da tecnologia e à modernidade já tinham ficado latentes em filmes como "Jour de Fête", "Les Vacances de Monsieur Hulot" e "Mon Oncle". Em "Playtime", a sua quarta longa-metragem, a terceira em que interpreta o Sr. Hulot, Tati deixa-nos perante uma França futurista, marcada por edifícios modernos e altos, compostos por divisórias de vidro e estruturas de ferro, elaborados de forma a praticamente alienarem aqueles que se encontram no seu interior. É uma cidade para turista ver mas pouco prática para se viver, onde quase tudo se encontra em inglês (algo que proporciona alguns gags), os carros bailam às voltas pelas estradas congestionadas pelo trânsito, qual carrossel, enquanto assistimos de forma quase voyeurista a vários dos acontecimentos que rodeiam o filme. Começamos desde logo a ser colocados perante um grupo de turistas americanos que chegam ao futurista aeroporto de Orly. No interior do grupo encontra-se Barbara (Barbara Dennek), uma mulher acompanhada por outras turistas, que procura tirar fotos e visitar os locais. Esta procura tirar fotos a uma florista de rua pois considera que é nestes estabelecimentos que se encontra a "verdadeira Paris", indo mais tarde encontrar Hulot neste local. Hulot (Jacques Tati) perde pela primeira vez o estatuto de protagonista das obras de Tati, surgindo com as características do costume: acompanhado pelo seu chapéu de chuva, cachimbo, jeito algo atrapalhado, sendo um indivíduo de poucas falas e muitos gestos. Este aparece como uma figura observadora, como se estivesse perdido no interior de uma Paris que já não é a sua, longe dos momentos nas suas férias na praia em "Les Vacances de Monsieur Hulot" ou com a irmã, o cunhado e o sobrinho em "Mon Oncle". Na segunda sequência do filme encontramos Hulot no interior de um edifício marcado por estruturas de aço e vidro, procurando reunir-se com Gifford, um executivo que trabalha na empresa deste local, algo que parece complicado de realizar, deambulando pelo imóvel, qual fantasma perdido em busca do sossego. Por vezes parece um pesadelo, onde a arquitectura se impõe à humanidade, mas nem por isso Jacques Tati deixa de tirar algum humor desta situação. Não é um humor de gargalhada fácil, mas subtil, muitas das vezes decorrente das situações que nos são apresentadas ou pela interacção de Hulot com os cenários e os restantes personagens. O filme é marcado por um conjunto magnífico de cenários, com Jacques Tati a utilizar boa parte do orçamento nesse quesito, colaborando na construção do 'Tativille', o nome dado ao set de "Playtime", algo revelador da atenção deste cineasta ao pormenor. Com uma cinematografia imaculada, "Playtime" explora esses cenários criados com rigor, algo evidente quando Jacques Tati nos brinda com alguns planos brilhantes. Veja-se quando Hulot observa as várias divisórias do edifício da empresa onde se encontra em busca de Gifford. A faceta observadora de Hulot é exposta na sua plenitude, enquanto este e o espectador observam atentamente as divisórias reveladoras do isolamento nestes locais de trabalho, onde o contacto humano é quase nulo e os avanços tecnológicos parecem contribuir ainda mais para essa situação.

Esta temática do isolamento pela via da tecnologia e dos avanços inerentes à modernidade é algo que continua extremamente actual, quer na vida real, quer na própria Sétima Arte, com "Her" de Spike Jonze a abordar recentemente este tema. Os momentos de Hulot a observar as divisórias do edifício em "Playtime" são de enorme assombro, contagiando-nos a alma, deixando-a com estas imagens gravadas e provavelmente fazendo-nos recordar que pouco falta para por vezes parecermos aqueles elementos "presos" a "caixas" fechadas onde o trabalho é feito e pouco é sentido. Tudo funciona nesses planos. Desde a colocação de Hulot, passando pelos elementos que se encontram nas divisórias, a iluminação discreta e as tonalidades entre o branco, o cinzento e o esverdeado. Tati já tinha utilizado a paleta cromática com acerto em "Mon Oncle" e repete a dose em "Playtime", enquanto nos deixa perante um conjunto de episódios por vezes pessimistas em relação ao seu tempo e ao futuro do seu país, embora nem por isso descure o humor. No terceiro segmento ironiza exactamente com essas invenções, não faltando uma exposição onde encontramos invenções como uma vassoura com dois faróis, um caixote do lixo com o formato de torre de monumentos gregos, entre outras inutilidades, com Hulot a ver-se temporariamente envolvido num mal-entendido relacionado com uma troca de identidade. Neste segmento encontramos também Barbara com uma amiga, mas também um conjunto variado de personagens, com Jacques Tati a colocar vários acontecimentos a decorrerem ao mesmo tempo durante a acção, explorando até ao tutano a profundidade de campo, obrigando-nos com todo o gosto a rever o filme para termos a certeza que não estamos a perder nada e a ter a certeza que iremos ganhar sempre algo quando regressamos a "Playtime". No quarto segmento, Hulot é convidado por Schniller, um amigo que o conhece dos tempos do exército, a visitar o seu apartamento, com Jacques Tati a optar por uma medida inventiva para expor este encontro na habitação do segundo. Tati filma o exterior do prédio onde se encontra o apartamento, algo que permite ver o que se passa nos vários apartamentos, visto estes serem formados por paredes de vidro, permitindo espiar o que se passa no seu interior, uma situação que nos deixa mais uma vez perante múltiplos acontecimentos. Qual o apartamento que devemos observar? Vendo o filme em casa podemos voltar atrás e perceber todo o cuidado colocado na composição dos planos, enquanto várias acções decorrem em simultâneo e tudo parece ser coreografado de forma exímia. É um hino ao cinema, digno de reverência aquilo que Jacques Tati apresenta em "Playtime", onde as imagens são trabalhadas de forma magistral e somos deixados como observadores de uma realidade que se torna nossa.

No penúltimo segmento, aquele que dura mais tempo, "Playtime" deixa-nos perante a inauguração de um restaurante/bar, onde assistimos aos preparativos da comida na cozinha, aos empregados a servirem os clientes, aos visitantes a comerem ou dançarem, a banda a tocar música, com Jacques Tati a colocar-nos perante uma miríade de personagens e acontecimentos, ao mesmo tempo que aproveita para utilizar a banda sonora ao serviço da narrativa com um acerto muito próprio (a par de Robert Bresson é um dos cineastas que melhor trabalha o som e as imagens, embora em géneros distintos). Hulot também se encontra neste local, encontrando alguns personagens com quem se deparara ao longo do filme, entre os quais outro amigo dos tempos do exército, para além de gerar amizade com uma bela mulher que toca piano, acabando por gerar alguma confusão pelo caminho. Jacques Tati tem um talento enorme para a pantomina e mais uma vez volta a explorar o humor físico através do personagem que interpreta e a interacção do mesmo com o meio que o rodeia. No último segmento, assistimos ao final da viagem dos turistas oriundos dos EUA e a interacção entre Hulot e Barbara, uma amizade rápida que termina com uma urgência típica da pressa da sociedade contemporânea, sem tempo para desfrutar o momento, embora Tati exiba que é possível continuarmos a formar laços de amizade. Se não existe muito tempo para Hulot e Barbara estabelecerem laços, também aquando do lançamento de "Playtime" o público se mostrou sem grande vontade de apreciar esta obra-prima de Tati. O filme contou com um orçamento elevadíssimo, tendo conduzido ao cineasta a endividar-se para tirar o mesmo do papel, mas o público não aderiu com entusiasmo à sua obra. Já a crítica posteriormente rendeu-se a "Playtime". Jonathan Rosenbaum salientou que "Playtime" é "My favorite movie, this 1967 French comedy by actor-director Jacques Tati has the most intricately designed mise en scene in all of cinema". Por sua vez Roger Ebert comentou "Jacques Tati's "Playtime," like "2001: A Space Odyssey" or "The Blair Witch Project" or "Russian Ark," is one of a kind, complete in itself, a species already extinct at the moment of its birth", algo que evidencia bem o apelo que este filme gerou em vários sectores da crítica. Filmado em 70mm, com um argumento curto mas complexo e pronto a exigir mais do que uma visualização para absorver boa parte do que Jacques Tati tem para nos dar, "Playtime" é uma obra que nos estimula não só a nível visual, mas também pela complexidade da sua história aparentemente simples. Tem os momentos típicos onde Jacques Tati explora o humor pela via da simplicidade, tais como o barulho dos bancos onde Hulot se senta (mais uma vez um exímio trabalho entre o som e a imagem), ou até simples retratos cuja colocação parecem estar a fitar o protagonista. No entanto, também é capaz de abordar temáticas como os efeitos negativos da excessiva dependência da tecnologia e o seu pessimismo em relação aos avanços da sociedade do seu tempo que parece cada vez mais isolar os seres humanos e privá-los de conviverem entre si, para além de explorar as alterações nem sempre benéficas que se encontram a ser feitas na cidade de Paris. Nesse sentido, Hulot surge como um personagem por vezes deslocado, perdido entre edifícios enormes e labirínticos, de estruturas metálicas e vidros salientes, qual turista na sua própria cidade.

A presença de Hulot por vezes quebra com essa monotonia isolacionista, com vários personagens que o encontraram no passado a contactá-lo. Hulot é um mistério. Sempre foi. É bem intencionado, percebemos isso. Tal como nos apercebemos da sua atrapalhação, devendo muito a Charles Chaplin e o seu Charlot, com Jacques Tati a criar um personagem praticamente mudo num filme sonoro onde muitas das vezes as palavras tardam em surgir. Não é um tardar pelas palavras serem necessárias, mas sim pelo isolamento nem sempre permitir este contacto entre os seres humanos, com o cineasta a mostrar-se inconformado em relação ao seu tempo. Ironiza com os objectos modernos, algo latente na exposição de produtos, um pouco a fazer recordar o que fizera em "Mon Oncle", onde os Arpel adquiriam um conjunto de objectos nem sempre necessários para evidenciar o seu estatuto social. Esta é uma cidade de Paris marcada por carros enfileirados, por espaços que podem estar cheios de gente mas nem por isso deixam de evidenciar alguma alienação, embora o que Tati procure evidenciar são pequenos pedaços do quotidiano da humanidade do seu tempo. Veja-se desde logo o restaurante-bar do quinto segmento, recheado de elementos humanos, onde uns dançam, outros andam numa azáfama a servir, naquilo que Eric Henderson salienta, de forma bastante interessante, parecer um "proto-Sims", no qual não existe um concentrar específico em vários personagens secundários. Jacques Tati assim não pretendeu, embora tenha neste segmento um exemplo paradigmático da sua capacidade de explorar os cenários e a colocação dos personagens nos mesmos, sendo tudo magnificamente coreografado. Os personagens comem, bebem, dançam, falam, servem, cantam, aparentemente divertem-se, embora no final da noite tudo termine e logo se inicie outra rotina fechada. No entanto, durante o decorrer da noite é possível encontrarmos os personagens a soltarem-se das suas amarras sociais, contrastando com os grilhões apresentados nas divisórias da empresa do segundo segmento, diluindo o fechamento do seu quotidiano e convivendo de forma alegre, sobretudo quando o cenário começa a destruir-se (o que não deixa de ser irónico que, quando a arquitectura moderna começa a desintegrar-se, os sentimentos humanos começam a ser mais exacerbados). Existe algum pessimismo mas também optimismo em relação à humanidade, com este bar a servir como um exemplo paradigmático de um local que surge como uma forma para os seres humanos conviverem. A própria cor ganha uma maior vivacidade quando os personagens se libertam, enquanto Tati volta a evidenciar um estilo muito próprio de filmar, onde os close-ups são evitados e a profundidade de campo utilizada de forma exímia. As magníficas coreografias são ainda visíveis quando temos no último segmento os carros a andarem em círculos (a parecer que não vão a lado nenhum), simetricamente, enquanto a banda sonora contribui para este clima de carrossel da feira popular, onde o humor surge de momentos aparentemente simples e Jacques Tati elabora uma obra de arte. Tati remete Hulot para um papel algo secundário em relação aos dois filmes anteriores, embora nem por isso deixe de ter relevância. "Playtime" é um feito ao alcance de poucos realizadores, uma obra inteligente, mordaz, perfeita nos seus cenários e magnífica nas suas imagens, naquele que é um dos filmes mais ambiciosos de Jacques Tati, onde este se revela na plenitude das suas capacidades como cineasta.

Título original: "Playtime".
Realizador: Jacques Tati.
Argumento: Jacques Tati, Jacques Lagrange, Art Buchwald.
Elenco: Jacques Tati, Barbara Dennek, Yves Barsacq.

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