29 outubro 2014

Resenha Crítica: "Night Train" (Ye che)

 A solidão e alienação do ser humano perante a sociedade que o integra são temáticas transversais às três longas-metragens realizadas por Diao Yi'nan. Em "Uniform" tínhamos um costureiro que encontra uma farda de polícia e decide utilizá-la para finalmente ter poder, apaixonando-se pela vendedora de uma loja. Esta também tem segredos por revelar, com ambos a surgirem como personagens solitários, tal como o ex-polícia de "Black Coal, Thin Ice", a obra mais mediática de Diao Yi'nan. Em "Night Train", a sua segunda longa-metragem como realizador, Diao coloca-nos perante Wu Hongyan (Liu Dan), uma guarda prisional que tem a ingrata tarefa de transportar e ajudar na execução das mulheres condenadas à morte. A sua vida profissional é marcada por uma enorme frieza. Da sua boca poucas palavras são proferidas e a sua face por vezes parece um enigma, variando entre o incómodo e a impassibilidade perante os actos que se prepara para presenciar. Queima as luvas brancas após cada vida que retira, mas parece mais difícil apagar essas marcas da alma. Lida com mulheres prestes a perderem a sua vida devido aos crimes que cometeram, com o tribunal e a prisão a surgirem como espaços algo opressores nos quais a esperança parece inexistente. Wu Hongyan é viúva e solitária, efectuando viagens no comboio número 1916 de Pingchun até Xincheng para participar nos encontros da "Agência Boa Sorte", onde vários homens e mulheres procuram encontrar companhia para as suas horas de solidão. No caso até ficamos perante a noite de dança, onde quase todos parecem se divertir, com excepção da protagonista que fica sentada a um canto, observando os outros enquanto parece meditar sobre algo que nem esta deve bem saber. Tem um encontro falhado com Li Yulong, até posteriormente conhecer Li Jun (Qi Dao), o viúvo de uma das mulheres que ajudou a serem executadas à morte. Inicialmente esta desconhece a ligação deste homem ao seu passado, com Diao Yi'nan a voltar mais uma vez a colocar-nos perante um casal que guarda segredos por revelar cujas descobertas preparam-se para deixar em perigo a protagonista. Ainda têm alguns momentos de sexo, mas estes são tão frios como a gélida neve que cobre os cenários que rodeiam a habitação de Jun, enquanto a incerteza assola as almas destes dois personagens. Li Jun parece reprimir os ímpetos de se vingar desta mulher, ao mesmo tempo que Wu Hongyan mantém uma atitude que nos deixa sempre na dúvida se irá procurar fugir ou permanecer e correr perigo de vida. Mas será que esta tem mesmo uma vida? Mais uma vez Diao Yi'nan consegue explorar a alienação do ser humano perante o quotidiano e a sociedade que o rodeia, regressando à província de Shaanxi, território de nascimento do cineasta e local muitas das vezes utilizado como cenário das obras de Jia Zhangke, tais como "Pickpocket" e "Platform", com quem partilha as temáticas de pendor social. Em "Night Train", Diao Yi'nan volta ainda a mostrar a sua habilidade para explorar os momentos de silêncio dos seus personagens, por vezes tão valorizados como os momentos em que estes dialogam, com Liu Dan e Qi Dao a terem duas interpretações marcadas pela subtileza.

 Liu Dan como esta mulher reservada, que conta com um quotidiano longe de ser marcado pela felicidade. O marido faleceu, a sua profissão passa pela morte alheia, a sua vida social é praticamente nula e a sua vida sexual resume-se a uns momentos onde o desejo e a brutalidade se reúnem. Qi Dao destaca-se pela restrição que concede aos sentimentos do seu personagem e pela capacidade de nos manter na incerteza em relação aos seus objectivos. Diao Yi'nan contribui para esta atmosfera de incerteza, vagueando já pelas margens dos filmes noir, que abraçará com toda a disponibilidade em "Black Coal, Thin Ice", uma obra onde também iremos contar com personagens solitários, elementos misteriosos, momentos de silêncio e uma forte presença da neve. Por vezes parece que estamos perante algumas belas pinturas de aguarela, com os cenários a serem marcados pelas tonalidades azuis, uma cor que aqui surge associada à frieza e melancolia, ou não estivéssemos perante uma união formada por dois elementos que têm tudo para não dar certo. Diga-se que os cenários frios do último terço quase que se equiparam aos espaços da prisão e do tribunal, onde o espaço é mais diminuto, a iluminação está pouco presente e os sorrisos parecem ter ficado por completo escondidos nos lados mais recônditos destes seres humanos. Em alguns casos ficamos perante a consciência que as penas nem apresentam assim uma justiça tão humanitária quanto isso, com uma mulher a ser condenada devido a ter eliminado um violador e antigo proxeneta, algo que não justifica o acto, embora estejamos a falar de alguém que foi brutalmente agredido. Estamos numa sociedade chinesa em mudança, embora as leis pareçam arcaicas, com os territórios a mesclarem os edifícios modernos e as fábricas, enquanto Diao Yi'nan aproveita para nos fazer questões de ordem moral, ao mesmo tempo que nos deixa perante elementos típicos deste espaço longe das grandes metrópoles. O enredo desenvolve-se a um ritmo contemplativo, dando espaço para explorar os silêncios e os desejos reprimidos destes personagens, num drama onde a contenção é a palavra de ordem, o sexo pode não trazer amor e a brutalidade pode surgir onde menos se espera. A alienação é evidente, com os clubes de encontros a estarem cheios e a evidenciarem que fora daí existe um vazio difícil de ultrapassar. No final, a neve, branca e lívida, surge incapaz de regelar os corações dos protagonistas, embora estes estejam longe de apresentar uma pulsão enorme pela vida, com o romantismo a certamente não fazer parte do quotidiano destas figuras solitárias que permeiam o enredo de “Night Train”, um drama que evidencia a competência de Diao Yi'nan para a realização cinematográfica.

Título em inglês: "Night Train". 
Título original: "Ye che".
Realizador: Diao Yi'nan.
Argumento: Diao Yi'nan.
Elenco:  Liu Dan, Qi Dao.

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